Vômito no vento

14 Novembro 2009

Pássaro nos olhos de Gravienlo, o gente


É só um caminho. Pedir desculpas e voltar para onde mesmo? Cultivar o que mesmo? Cutucar pra que? Vá e vá e pronto: assim está-se vivendo enquanto há vida nos lados, em cima, embaixo, aprofundada. E nós vemos o sol e vemos o céu. Vemos o chão muito molhado, seco demais, bom; vemos as coisas cheias de contrastes colorais. São rasuras no espaço, pesos no vácuo. Morbidez insólita. Há a lua, a noite; o tempo e as coisas. Drogas? Viagem alucinante? Desordem mental? Desassossego? Contrariar uma ordem pra que? Ela mesma se desfará porque a ordem não pode durar pra sempre ao chocar-se com ordens diferentes. A harmonia é a perfeição não perfeita, o que é mais bonito porque dura mais no tempo. Cultivar demais é morrer demais e cultivar pouco é morrer cedo. Orgia corpórea não transcende a orgia real das coisas e as coisas existirão durante mais tempo que o corpo cheio de prazeres inventados pra satisfazer uma satisfação inventada.

Eu bebo duas garrafas de vodka e espero algo acontecer além do estado de embriaguez. A fome vem me dizer que eu sentirei dores estomacais. Eu não tenho nada e recuso a posse de qualquer coisa. Portanto recuso meu próprio corpo. Recuso a vida. Vou viver na morte e agir na morte. Vou fazer aventuras sem medo. Eu só deveria ter medo se ainda prezasse a vida, mas não a tenho para tanto. Sou alma sólida, solidificada. Brincadeira que nada! Galopo no ar com meu peso na terra. Justamente quando o sopro divino termina de ir eu preciso me apressar? Vou ficar e aqui farei minhas coisas sem ordem. Meu ponto de vista está doente sobretudo em relação ao que fui feito. Mas adoentado e feliz vou me jogar como sendo eu meu piso de um caminho meu que na sequência desaposso-me dele. A luz é o sol atingindo um pouco este espaço de morte viva. A noite é igualmente outro efeito. Além disso, na fluidez das ranhuras desuniversais, estou cagando pro resto, raso e torto, bem abaixo do meu perínio peludo.

Estou vivendo em uma cabana no meio duma floresta hoje. Somente os galhos das árvores sentem a presença que eu faço sentida, que nem mais é minha. Tenho desejos cumpridos espontaneamente. Quais eram mesmo as dificuldades que atolavam as pessoas noutras dificuldades? Eu não estou num estado. Eu sou a própria corporificação da natureza ainda viva. Mas numa morte viva. Morte esta que se aviltará futuramente noutos corpos sólidos como eu e que, por fim, trará outras mais do que vivias, vivíssimas além, ainda que antes, da Morte. Ordens desgostosas. Mas eu não ligo para o futuro. Vivo uma morte viva e depois continuarei nos elementos. Balanço minhas células com o balançar da natureza, pois sou eu pedaço móvel dela. Estar lá e aqui tanto faz. Sou; e sou feito a ser. Não estou mais em nada, pois desapossei-me de mim. Viajar com o vento e rir das necessidades é meu futuro. Talvez o amor se acabe, meus velhos hábitos retornem e virá a crescer uma mentalidade noiada em mim, mas por enquanto sou um reles bicho feito de pedra de areia. Ffffffffffffffffffffff.

12 Novembro 2009

Sou um deus, deus do pó


Eu me comparo sim,
me comparo a um deus,
àqueles velhos
deuses do Monte Olimpo.

Como a luz do sol,
que ao tocar a terra e ser rebatida para o espaço,
deixa no seu rastro a semente da vida
que germinará,
que virá a ser,
que será uma planta e ao entorno da qual haverá vida
mais e mais vida pela qual, para qual,
da qual novas sementes saírão
e outras plantas, diferentes,
surgirão;
outros bichos,
outros seres
e outras coisas transformadas.

Houve um princípio de onde vieram inúmeros outros.
Daí, as coisas são harmônicas por natureza,
seja de um jeito,
seja de outro.
Eu me comparo a um deus,
que modifica meu planeta,
que espalho em abundância transformações
enquanto vivo com minhas ações.
Um deus que surgiu de um princípio
que está acima de outras coisas e abaixo de tantas mais.
Mas nem acima, nem abaixo, nem melhor, nem pior...
apenas conhecido ou não
pensado ou não
tentado ou não
cultivado
ou não.

Deus, aquele é um querido.
Mas a mente, mais ágil e habilidosa do que uma pedra viva
pulula maluquices que não suportam apenas uma idéia.
Eu sou ateu para aquele Deus velho de estranhas eras.
Sou ateu
e minha religião sou eu em busca de novos hábitos,
pois a ordem está quebrada
e os astros vibram diferentes.

Não sou ateu,
sou eu mesmo um deus
capaz até de venerar outros deuses
iguais a mim de algum modo,
diferentes a mim em alguns jeitos.

Não sou ateu,
sou habitualmente religioso por mim
e somente comigo, assim calado.

Se tudo explodir, se o tempo acabar,
se eu morrer,
se não houver mais chuva,
nem sol, se tudo cair, desabar
se as coisas sumirem
se eu desaparecer,
nada importará,
pois as lembranças
só existem porque existem outras coisas, muitas, antes dela.
Se eu não morrer quando tudo acabar,
para eu existir tal como sou
outra coisa igual a que me suporta deverá estar
em algum lugar,
para eu poder me cultivar lá.

Sou um deus,
somos deuses.
Sou uma estrela
que vive apenas em nós,
nos outros,
em mim,
menos em si mesma.
Sou um deus e uma estrela de pó.

06 Novembro 2009

Passeio diurno

Dois jovens universitários passeavam na beirada de uma lagoa. Escutaram gritos. Eram pedidos de socorro. Apressaram-se na direção de onde os gritos eram impacientemente atirados.
Não havia em nenhuma outra região do planeta inteiro mais brilhante e verdejante floresta e pomar do que aquela. No lago o reflexo era de vida e o céu, mais do que puro, amenizava os semblantes exaustos e as vistas cansadas. Ninguém se resignava a caminhar debaixo dos raios solares, pois tal local ficava em uma certa região do planeta com uma certa inclinação que em qualquer período do ano o sol, por mais diretamente incisivo que fosse, não afetaria um pó com seus raios tão aterrorizantes noutros lugares.
Os dois rapazes chegaram à outra beira do lago ligeiramente. Despreocupados três pássaros assobiavam uma vez após as duas primeiras de um deles nas alturas elementares. Os dois universitários se paralisaram diante do problema. Um jovem da mesma idade deles não sabia nadar, estavaagarrado a uma raíz de mato varada do barranco até um ponto no lago que estava pra lá da margem e já não dava pés. Havia algumas correntezas no lago casadas pelo força da água que saía dos canos da represa. O jovem aprisionado em seu percalço azarento estava em uma correnteza e seria levado para o centro do lago se acaso soltasse sua salvaguarda que era a raíz do mato.
Os dois universitários estavam paralisados e olhando-se mutuamente. Queriam saber o que fazer. Rapidamente o mais alto falou: - "Corramos!" O outro perguntou com seriedade, incrédulo e temeroso: - "Fugirmos?"
- Pedimos ajuda na enfermaria! - disse o mais alto com frieza nos olhos pretos.
- Até lá, veja, o frágil mato terá se soltado. Imbecil! - este falou atropelando as palavras com a língua quente de tanta aflição que tinha.
- Você não sabe nadar?
- Não sei - respondeu o aflito.
- Nem eu - o alto falou.
- Há algo que possamos fazer? - o aflito perguntou ao acidentado, que já não podia responder, pois ele quase não se aguentava mais depois de tanto tempo que esteve se segurando ali.
- Imbecil! Imbecil! devemos pensar. Pense, pense! - o aflito falou com temor de que algo pior pudesse acontecer.
- Pensar? Pense você. Não é você o arquiteto? - perguntou o mais alto.
- E você não é o intelectual?
- O rapaz vai morrer!
- Somos dois. Algo nós podemos fazer! - o aflito disse, acalmando-se.
- Ele está muito longe. Não podemos alcançar! - o alto disse.
- Segure meus pés - o aflito se deitou e o mais alto agarrou com forças os tornozelos do amigo. O aflito se deitou e se esticou até quase alcançar o acidentado que via a cena com esperança nos olhos. - Não alcanço. A água quer me levar - disse o aflito.
- Vai mais! Eu seguro! - o alto falou.
- Não solta! Estou quase lá. Dá sua mão, rapaz - outro problema surgira: o rapaz não tinha coragem para esticar a outra mão com medo de a raíz do matose soltar.
- Não dá mais, volta! - gritou o alto. Em seguida ele soltou os pés do amigo. O aflito, ainda mais aflito, foi levado pela correnteza e o peso de seu corpo levou também o outro. O mais alto correu em disparada para o prédio principal. Quando lá chegou avisou a um zelador que imediatamente se dirigiu com alguns outros que encontrou pelo caminho até o local do acidente. Quando chegaram lá viram os dois jovens contando piada no meio do lago, onde era raso por haver uma bancada de areia!
- Parece que aprendemos a nadar - o universitário que estava aflito antes falou em voz alta e contente. O outro rapaz confirmou.
O mais alto ficou indignado, antes da noite chegar, por não ter aprendido a nadar também.

04 Novembro 2009

Crônica de uma espera ao ar livre - 04/11-2009, Quarta-feira

Sentei-me na praça Serzedelo Corrêa em Copacabana. Sentei num banco verde e meia hora depois de um conforto físico e visual fui abordado por uma senhora bastante velha e enfraquecida. Acompanhada por uma jovem morena e raquítica a senhora se sentou ao meu lado. desinibida, rapidamente puxou conversa comigo. Seu modo de falar era tranquilo e leviano. O que me causa curiosidade é como essas coisas acontecem; esses eventos nos quais releciono-me com gente estranha por pouquíssimo tempo. Nesse curto tempo, a pessoa estranha age e fala, interage comigo. Há alguma mensagem do universo que eu deva tentar captar? Em todo caso, além da e sobre essa pergunta e as perguntas corpóreo-mundanas, eu simplemsente posso, como não posso, dar importância ao fato. Mas as grandes perguntas conitnuam: quem somos nós, e eu? Para onde vou? Etc. meus pensamentos são meras divagações, mas eu acredito na lógica das causas e seus efeitos, mesmo que as observe na maioria dos casos como acontecimentos inconscientes. Será que por intermédio do acaso, considerando este como um dos inúmeros recursos de que o Universo dispõe de maneira consciente ou não, a senhora me serviu, serve ou servirá para algo? Agora mesmo eu nem ao menos consigo relembrar todos os meus propósitos e passadas divagações, tamanha é a discrepância entre a velocidade de meu raciocínio e o enorme arquivo de minha memória.
Todavia, sinto que devo continuar notando tudo o que eu puder, sem contudo, classificar uma conclusão como absoluta. A senhora ao meu lado me chamou de rapaz bonito enquanto colocava a mão no meu rosto, bochechas e queixo. Ela se demonstrou ser uma pessoa amigável e feliz com sua condição, aparentemente, evidentemente. Utilizava óculos escuros. Possuía um caráter malandro mal ocultado, se é que ocultar algo tiver sido sua intenção. Pediu-me para que tirar uma foto comigo. Comentou que aqui eu poderia trazer quem eu quisesse, fosse um amigo, uma amiga, uma namorada. Repetiu as palavras "amigas e namorada" como que se quisesse dar certa ênfase, eu supus na hora. Ela disse, também, que naquela praça há liberdades, e que "ninguém fica dizendo o que fazer." Passava a mão nas minhas costas enquanto eme elogiava, dizendo que eu era um jovem tão bonito. Também deu ênfase a isso. Imaginei, na hora, que como carioca moradora ali das redondezas ele tenha vivido a época de ditadura e aproveitado bons momentos joviais naquela praça. Dois minutos depois, sem termos tirado a foto ainda, sua acompanhante um tanto quanto acanhada pela senhora estar me "incomodando", segundo a própria opinião da mocinha, levou-a para um banco distante alegando que outras senhoras que lá estavam queriam conversar com ela. Senti malandragem e sexualidade no modo de falar e pelo que foi falado.
Para que servem os velhos? É uma pergunta razoável. A senhora, personagem passageira em uma cena da minha vida que logo alcançará o fundo do poço do esquecimento, deu-me algo para pensar. Sobretudo, ela me propiciou a comparação. Comparei-me, jovem, àquela senhora com mais de oitenta anos. Senti, percebi - mas não não ter tido nada disso no pensamento original - lembranças boas da juventude daquela senhora. Mero acaso? Acaso condicionado por forças maiores? Eu penso nessas coisas, mas não me dou ao luxo de levá-las muito em consideração. No final das contas somos todos diferentes no mesmo espaço, ainda que tenhamos genericamente as mesmas possibilidades universais. Mas, além disso, se um acontecimento é por acaso ou por ordem divinal, quem deve aproveitá-lo, de algum modo, sou eu, personagem consciente do meu espaço de ação.

02 Novembro 2009

Por que ver o mundo?




Estamos no centro dum rio em cima de uma pedra achatada. A esquerda o rio é largo e raso. A direita, é fundo. Para a esquerda o horizonte se perde numa infindável quantidade d´água misturada com as nuvens. Para a direita, onda a água é tão profunda e a correnteza é tão forte, vemos a margem. Comparamos a distância do lado esquerdo à distância do céu acima de nossas cabeças. O lado direito é tão próximo que se deitássemos quase o tocaríamos com o braço esticado, mas ali a água é muito poderosa e não nos deixa tocá-la sem nos levar rio abaixo. Nós queremos nos perguntar como chegamos até esta pedra tão pequena que nos aguenta. O medo não nos permite fazer a pergunta mais óbvia, porém mais oculta. Quando nós a fazemos, depois da fome e do cansaço, notamos algo incomum. A pergunta é esta: Como uma pedra de um metro e meio, achatada, suporta tantas pessoas sobre ela? O que notamos também é óbvio. Devemos sair daqui porque é impossível uma pedra pequena suportar centenas de pessoas. O som da correnteza se vai. Um raio cai na cabeceira do rio. Pouco tempo depois uma onda gigantesca vem em nossa direção lentamente. Alguns pulam para a esquerda e outros para a direita. Eu fico acima da pedra. Enquanto aqueles que nadam no lado esquerdo seguem uma linha reta para o horizonte desconhecido, os que nadam pelo lado direito quase somem de minha vista ainda que mal tenham percorrido um centímetro em direção à margem, tamanha é a força da correnteza. Pouco tempo tempo depois, antes mesmo da grande onda chegar e quando observo que já não vejo nem um companheiro, eu olho para o chão. Há um galho. Como pode ter um galho sobre esta pedra, entre minhas pernas, se nas margens há somente plantas? Vejo uma fissura na pedra e no canto da fissura algo verde: um capim adormecido! Sento, cruzo as pernas e espero a onda me alcançar encarando-a calmamente. Primeiro me atinge uma sombra colossal que tapa toda a luz do espaço. Depois alguns respingos gelados. O ar abafado em seguida e pingos cada vez mais fortes. A pedra treme. Não faz diferença ter os olhos abertos ou fechados, pois absoluta é a escuridão. Tento imaginar qual dos meus velhos companheiros chegam primeiro à margem. os que pularam para esquerda ainda tinham um longo caminho de água para percorrerem à braçadas exaustivas. Os que pularam para a direita mal conseguem nadar, quanto mais boiar com toda aquela pressão. A pedra trêmula parece não ter bem fincada suas raízes no fundo deste rio e treme tanto que talvez vá embora com o empurrão da onda matadeira. E a onde insiste em demorar. Talvez eu pule também. Para a direita? para a esquerda? Observo que há caminhos ainda não buscados para eu seguir. Em um, alguns morrem lentamente. Em outros, alguns já morreram antes mesmo de saciarem a sede. Talvez eu vá por um rumo diferente. Vou ao meio e à frente. Quando a onda chegar. Não. Vou antes e tento cruzá-la como um golfinho. Rio acima e depois da escuridão sei que tudo é mais tranquilo e quem sabe eu até alcance alguma das margens lá onde o rio se afinar e tudo estiver raseado. Vou sozinho e a onda que se vire sobre minha cabeça, que me leve de uma vez e me faça esquecer de tudo com um fim sincero ou que me dê uma única opção de qual lado devo tomar. Mas se não pela onda, vou por aqui rio acima agora e apedra que trema parada com sua solitude eterna. Não sou pedra, não posso viver com ela enquanto eu não estiver morto.

24 Outubro 2009

dito à origem desconhecida

Cortina de terra

Meti dentro do pano a mão suada, num momento grande, lento, enquanto esganiaçava-me com a outra que tinha célere. O pano de malha bruta se soltou, virou terra seca. Apodreceu? Dali ao instante vindouro falei: tudo que há apodrecerá um dia porque o que há existe por si também sob o verbo ser. Minha antiga tentativa de saber o que fazer como fazer melhor foi a pior escolha. Agora, séculos tardios, eras depois, descubro o que olho, enxergo: da podridão tudo se extingue embora continue no espaço; da podridão final, da podridão inicial, da podridão as coisas surgem porque, por mais obscura que elas sejam, elas nunca deixaram de ser algo! Daquela terra seca ajuntada com minhas mãos logrei o novo. Uma planta nasceu. A planta nova no espaço que já desmanchava, aos poucos, o nada que era, engoliu-me, pois eu era velho.
A planta?

Quem era a planta senão a terra, senão eu? A planta por si nada era. Eu, a terra, velha, o resto, o tudo inteiro, era demais para os tudos nascentes. A planta sucumbiu apodrecida. Dela foi aparecida a virgem desamparada pelos ainda olhos inexistentes, aparecida naquele espaço solitária. E dali a semeadura foi investida. Da cortina, que tapava as vistas, surgiu a podridão que aguentou a planta da qual a virgem se fez. Da virgem as sementes partiram, e a vista prontamente ali, pois já não havia coisa que a escondesse, aguardava os olhos novos se fazerem para lá conhecê-la!

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Cortina de terra


Meti dentro do pano a mão suada,
num momento grande, lento,
enquanto esganiaçava-me
com a outra que tinha célere.
O pano de malha bruta se soltou,
virou terra seca. Apodreceu?
Dali ao instante vindouro falei:
- tudo que há apodrecerá um dia
porque
o que

existe por si também
sob o verbo
ser.
Minha antiga tentativa de saber
o que fazer
como fazer melhor
foi a pior escolha.
Agora,
séculos tardios, eras depois,
descubro o que olho, enxergo:
- da podridão tudo se extingue embora continue no espaço;
da podridão final,
da podridão inicial,
da podridão
as coisas surgem
porque,
por mais obscuras que elas sejam,
elas nunca deixam de ser algo!
Daquela terra seca
ajuntada com as minhas mãos
logrei o novo.
Uma planta nasceu.
A planta nova
no espaço
que já desmanchava,
aos poucos,
o nada que era,
engoliu-me, pois eu era velho.

A planta?


Quem era a planta senão a terra, senão eu?
A planta por si nada era.
Eu, a terra, velha, o resto, o tudo inteiro,
era demais para os tudos nascentes.
A planta sucumbiu apodrecida.
Dela foi aparecida a virgem
desamparada pelos ainda olhos inexistentes,
aparecida naquele espaço
solitária.
E dali
a semeadura foi investida.
Da cortina,
que tapava as vistas,
surgiu a podridão
que aguentou a planta
da qual a virgem se fez.
Da virgem
as sementes
partiram,
e a vista prontamente ali,
pois já não havia coisa que a escondesse,
aguardava
os olhos novos
se fazerem
para lá
conhecê-la!

19 Outubro 2009

Passeio noturno

A lua cheia brilhava. Eskobar tomou seu último gole de cerveja.Caminhava tranquilamente sobre a calçada no centro da cidade quando um motoqueiro parou ao seu lado e perguntou se ele tinha fogo. Eskobar se virou para o sujeito estranho e perguntou-lhe se ele tinha maconha. Os dois se olharam com seriedade. O motoqueiro afirmou que não tinha. Eskobar sugeriu para ele acender o cigarro no escapamento e retomou seu passeio noturno. A lua estava cheia e brilhava com sua cor prateada misturada à aura dourada refletida em seus olhos. Debaixo da blusa de lã o corpo transpirava. Ele atravessou a rua sentindo a embriaguez nas vistas um pouco turvas. Angustiava-lhe aquela noite muito clareada. Afagou a barba grande e parou para pensar. "O humano que se vê humano e assim faz sua própria definição generalizada de si é apenas uma existência criada por si para si mesmo em um momento único guardado nos fatos da memória. Podemos imaginar que após a extinção de todos os seres humanos, o universo continuará por aí com suas coisas todas se movimentando no espaço. Os bichos serão os bichos e as plantas serão as plantas. O mundo será mundo. As estrelas, estrelas. Os astros continuarão perpetuamente. Umas coisas desaparecerão como o ser humano um dia. Outras, porém, surgirão como coisas novas, mas a matéria que se transforma continuamente continuará por toda a parte. Podemos imaginar isso. Podemos imaginar também outra coisa. Após a morte do ser humano, não somente a nossa ou a de alguns outros, não haverá nada. Não haverá nada pelo menos para nós, humanos, porque nossa consciência sobre as coisas que existem, aliás, sobre a existência das coisas, não reconhecerá nada, porque ela mesma - a nossa consciência - já não existirá. Portanto será o fim. Bondade, maldade, sacralidade, imoralidade, conceitos que nós, alguns antes e alguns depois de nós, têm utilizado como idéias orientadoras de nossas ações no espaço e ao longo do tempo - mesmo que sejam ações compreendidas numa pequena parte do universo que é o nosso pequeno planeta -, todos esses conceitos são produtos de nosso medo transado com nossa inteligência. Nós não queremos perder a oportunidade que temos de vislumbrar eternamente o universo, que é eterno. Não queremos perder a consciência que temos, pois é com ela que existimos e que, a partir dessa existência nossa, todo o resto pode existir. Somos responsáveis pela existência do universo porque somos responsáveis pela nossa existência."Dobrou a esquina e o motoqueiro o seguia. Ou quem o seguia era a lua? Ou ele a ela? Os três pararam por um minuto. o motoqueiro se aproximou e perguntou se Eskobar queria um boquete. "Não", ele disse. Eskobar pediu para o motoqueiro se despir sem retirar o capacete e o estranho obedeceu. Eskobar saiu em disparada na contramão, no meio da rua, assistido pela sorte da lua brilhante.

11 Outubro 2009

A fúria dos deuses - janeiro de 2012

Irparonderme tinha nos dentes à mostra a expressão de uma fúria violenta. Atrás de sua cabeça inflamada, três mil espíritos assassinados pelas mãos coléricas de mil saqueadores raivosos. Ele não passava de um homem. Estava nu. Corria em uma velocidade constante na direção do vilarejo à vista ao pé de um morro. Não era índio, não era preto, não era amarelo, tampouco branco ele era. O cabelo alcançava as nádegas, misturava-se ao corpo hercúleo e peludo. A pele estava manchada pelo sol e enrugada. Seus lábios, secos; os olhos, secos. As mãos calejadas seguravam um pedaço de pau de arueira talhado por ele com um canivete que segurava na outra mão. Ele estava sujo de coisas da terra. Adentrou o vilarejo feito bicho silvestre. Pulou sobre um pangaré e ali mesmo sob mordidas terríveis o prostrou na terra dura. Os primeiros cidadãos que tentaram o impedir, levaram canivetadas e pancadas e todos caíram no chão e foram mortos, um a um, na luta contra esse bicho meio homem, meio monstro. Irparonderme continuou correndo na mesma direção. Viu mais alguns sujeitos à sua frente, policiais do vilarejo. Atacou-os antes que eles pudessem acertá-lo com tiros de revólver. Arrancou-lhes as cabeças como prêmio e as arremessou para o alto em meio a altíssimos urros. Alguém tentou atropelá-lo: feito inútiol. Irparonderme escapou habilmente da caminhonete que ia em sua direção e acertou o canivete na cerviz daquele motorista corajoso. Na rua, o extermínio estava feito. Irparonderme entrou de casa em casa e assassinou fria e soturnamente as mulheres, as crianças e os homens que encontrava. Era terça-feira, dia doze de Agosto. Ao matar uma galinha, já que os animais tinham o mesmo destino dos homens sob seu ataque furioso, Irparonderme observou que estava sozinho na vila e disse, vislumbrando o choupo de um ipê balançado pelo vento, as últimas palavras antes de retornar à mata: "Durante anos vivi lá na floresta. Alimentei-me dos animais domesticados e do pasto, ruminando feito boi, para aprender a me libertar. Caguei na própria mão, busquei a loucura do desastre. Quando o sol já pretendia cegar-me, poeticamente saí da minha toca, depois das décadas submundas, depois de muitos treinos e de ter adquirido a força para estar livre, e resolvi que era momento propício de acalmar a multidão que me incomodava." Matou a galinha e levou-a consigo.

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O olho esquerdo de Amiltom coçava com insistência. Ele o esfregava há meses. Estava faminto. Descalço, seus pés sujos com as unhas grandes atraíam baratas da rua. Ele estava sentado num canto. Fedia, tinha o cabelo endurecido pela poeira das tardes quentes. Seu corpo inteiro coçava e os olhos, mais do que tudo, ardiam muito. "Mas que caralho", pensava Amiltom. O maldito olho se acalmava, ele conseguia direcionar sua mente para pensar nos próximo passos e, segundos depois, voltava a coçar. Novamente, com um catarro seco no queixo irritando-o, e o olho esquerdo ardendo muito, Amiltom pensava: "Mas que caralho... que caralho", e o olho parava de coçar para, logo em seguida, voltar: "Mas que caralho... mas que caralho." Amiltom espirrou. Era alérgico. De dia, de noite, chovendo ou não, as pessoas passavam à sua frente com suas terefas em mente. O mais sujo de qualquer transeunte sentia repugno ao ver Amiltom e Amiltom, sentado e quieto em seu canto obscuro, sentia isso na maneira como esses passeandos levavam suas pernas para onde iam. Era sete da manhã, um dia com um baita sol. Amiltom se deitou no meio da avenida de cinco faixas e atrapalhou o trânsito. seu olha coçava. Dez minutos depois, um policial se aproximou e o tirou da pista cm um porrete na mão. Amiltom se deixou ser levado vestido em seus frangalhos encardidos. Quando os dis chegaram à beira da calçada e o tráfego retomava seu ritmo frenético, Amiltom empurrou com toda a força o policial para cima de um ônibus que cruzava naquele instante aquele lugar. Sangue foi jorrado para todos os lados. Carros ao lado se colidiram com o susto e carros bateram, também, na traseira do ônibus. Algumas pessoas ficaram perplexas. Três jovens atléticos que esperavam no ponto de ônibus fugiram dali. Dois rapazes, funcionários de um mercado, que viram tudo, correram a trás de Amiltom, mas este se embrenhou na avenida atravancada e alcançou rapidamente o outro lado. Amiltom chegou à uma outra rua, em outra quadra, empurrou um motoqueiro que esperava o semáforo abrir. Chutou a cabeça do motoqueiro com tanta força que fê-lo desmaiar rapidamente. Amíltom acelerou ao máximo a moto deixou-a ir em direção ao carro atrás dela. O motorista saiu assustado pensando ser um tipo de assalto artístico. "Sai daí seu veado", disse Amiltom, entrando no carro e acelrando para frente, furando o sinal. Amíltom pegou uma outra avenida e acelerou o máximo que pôde na contramão. Ele conseguiu avançar quinhentos metros, depois de ter feito centenas de carros se desviarem num jogo de reflexos. Amíltom passou a pilotar ao lado do acostamento, menteve o pé no acelerador e pulou do carro, caindo num gramado e rolando um decline gramado abaixo. Ele saiu todo machucado, mas ainda conseguia levantar. Viu, morro acima, a explosão. Espirrou ali mesmo, bateu no bolso e conferiu que não tinha identidade. Amíltom se encostou na parede um supermercado e ficou por ali. Alguém lhe deu um pedaço de pão. Ele adormeceu.
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07 Outubro 2009

Vagamente (Sebastião e a vertente experimental de sua sorte personificada)


Eram três da tarde. Ele bateu na tecla enter. Esperou alguns alguns minutos passarem. Assobiou à vontade. Sua mente estava cansada, fatigada. Era bem óbvio que exercitar-se um pouco, fazer o sangue correr com mais liberdade pelas veias, era mais do que uma necessidade básica. Sebastão foi, ao contrário disso, à cozinha, tomou a última latinha de cerveja. Deitou-se na cama em busca do sono perfeito. Demorou ainda meia-hora para adormecer verdadeiramente.

Acordou com o tornozelo coçando. Tentou esticar o braço por algumas vezes. Ele estava todo amassado. Rolou, caiu da cama. Puxou o lençol e dormiu mais uma hora no chão. Despertou com o celular tocando. "Lisa", viu no identificador de chamadas. Resolveu não atender. Mijou, tomou banho, pegou o carro e foi ao supermercado próximo à casa da mulher. Retornou a ligação quase uma hora depois.
- Oi Lisa. Sebastião. Você me ligou.
- Arram. Onde você estava?
- Em casa. Eu estava um pouco tonto, deixei o celular cair na privada.
- Ah. Bem, vai rolar uma festinha aqui em casa. Traga uma vodka. É só o que vai faltar.
- Só uma?
- Uma já é bom. Mas traga duas pro caso de alguém não vir ou esquecer.
- Vai ter cerveja?
- Claro, meu bem.
- Ok. Estou no supermercado. Devo chegar aí a que horas?
- Lá pelas onze.
- Eu estou perto da sua casa.
- Ah, eu não sabia. Venha pra cá então.
- Beleza. Vou levar umas cervejas também, só pra ir começando.
- Tudo bem.

Sebastião ainda foi até a sessão da padaria e pediu um lanche. Depois outro, um sanduíche. Estava com muita fome. Bebeu uma garrafinha d'água pra enganar as plaquetas do sangue. Ainda comprou camisinha. Depois foi direto à casa de Lisa.

Lisa o atendeu. Disse-lhe para que ele se sentasse na sala. Era uma mansão enorme. Sebastião atravessou um grande salão de entrada, virou à esquerda da enorme escada que dava no segundo piso e encontrou uma sala duas vezes maior do que sua casa. Havia dois serventes futricando qualquer coisa. No sofá estavam a mãe e o pai de Lisa. Eles se beijavam diante da televisão ligada, mas muda. Sebastião foi vagarosamente ao sofá, esforçou-se por lembrar um nome e saiu na pressão:
- Como vai Sr. Barbosa?
- Oi - disse o pai de Lisa.
- Boa noite - cumrpimentou-o a mãe.
- Boa noite. Eu sou o Sebastião. Vim para a festa. Lisa me chamou, eu estava perto. Não queria incomodá-los.
- Está tudo bem. Sente-se, por favor - a mãe disse.
- O Sr. se chama como mesmo? Ah, lembrei, Valério?
- Isso mesmo - o pai confirmou - Você não me é estranho. De onde o conheço, amigo?
- Talvez o senhor já tenha me visto mesmo. Sou escritor. Aliás, tento ser... finjo que sou... algumas pessoas lêem. Outras até compram meus livros - todos deram curtas risadinhas.
- Mas, acho que não é disso que lembro de você - Valério, o pai, insistiu em recobrar a lembrança falha.
- Talvez tenha sido de algum lugar - a mãe tentou ajudar.
- Bom. Pode ter sido daquela última vez sim... eu dormir aqui. Estava em uma festa por perto. Fui assaltado. Toquei a campainha. Estava só de cueca. Lisa me recebeu. Vocês chegaram de um jantar algum tempo depois e me viram sair do banheiro.
- Eu sabia! - a mãe falou.
- Mas que dia agitado aquele! Não foi, rapaz?
- E como foi! - Sebastião comentou. E a senhora se chama...
- Ah, o meu é menos divulgado: Larissa.
- Eita. Larissa é um nome tão bonito - Sebastião disse, elogiando-a.
- Obrigada. Eu também acho - a mãe falou.
- Bom. Se quiser, pode aumentar o volume da televisão. Nós nem a estávamos assistindo a ela mesmo. Estamos de saída. Vamos para Bahia.
- Olha só que beleza! Férias?
- Férias sim - o pai disse.
- Que bom. Que vocês tenham um bom passeio - disse Sebastião, abraçando em despedida dona Larissa.

Depois do adeus aos pais de Lisa, Sebastião se encarcou no sofazão de couro rubro. Ele estava completamente esquecido da cerveja e da vodka no carro, pois entrara com tanta vontade de abraçar Lisa. Lisa era uma mulher amável. Era, para ele, a melhor conversa em ritmo de "florescimento". Eles não se viam sempre, mas tinham afinidades fortíssimas. Ele desligou a televisão, entregou a chave do carro ao Alberto, uma espécie de gerente da casa, e pediu a ele que ele pegasse a caixa de cerveja e a vodka e as colocassem na geladeira. Depois subiu as escadas em direção ao quarto de Lisa.
- Ei Lisa. Você está aqui? - perguntou, batendo na porta mal fechada.
- Estou. Não entra agora.
- Foi mal. Diga quando eu puder entrar.
- Pode entrar. Oi, deixa eu te abraçar. Eu subi ligeiro pra tomar banho. Quis aproveitar meus pais pra fazer sala pra você enquanto eu me arrumava. Tudo bem?
- Tudo numa boa. Seus pais são finos. Sabem conversar bem e são legais também.
- Eles já foram?
- Já foram.
- Eles não queriam que eu fizesse festa hoje. Estão numa onda de astrologia e parece que é um dia ruim pra isso - Lisa contou.
- Mas eles ligam muito pra esse tipo de coisa mesmo?
- Ligam nada.
- Eles estão bem envelhecidos desde a última vez em que estive aqui - Sebastião disse.
- Pois é. O tempo voa.
- Então. O que anda fazendo? Você está muito bonita, Lisa!
- Obrigada. Eu vou terminar o mestrado fim do ano.
- Que bom. Mas... tem tempo de festar assim?
- Claro. Estou fazendo isso porque só estudei nesses últimos meses. E não vai ser nada demais. Na verdade, eu pensei em chamar você porque fazia muito tempo que não nos víamos. Mas... essa festa é balela.
- Como assim? - Sebastião perguntou, aproximando-se da amiga.
- Ah - ela começou a falar, afastando-se, voltando ao banheiro para oegar uma escova de cabelo - É que eu chamei oito amigas. Algumas delas você conhece. E vem só cinco namorados. É mais uma reunião de parceiros e só.
- Eu entendo. Bom. Eu trouxe a cerveja e a vodka.
- Que bom. Nem pedi cerveja porque os homens da festa já iria trazer. As meninas falaram que hoje vão querer beber vodka.
- Mmmm. Não vai ser bem uma festança, mas a festinha parece que tem tons de muita farra solta.
- É o que parece. Conhece a Bernadete?
- Acho que sim.
- Ela também vem. Chamei a mulher depois de ligar pra você.
- Mmm.
- Ah, não esquenta. Ela era afim de você.
- Tudo bem. Vamos ver. Sabe que eu sou mais chegado nas conhecidas em ocasiões como essa, não é? Mas tudo bem. Veremos na hora.

Sebastião e Lisa beberam algumas cervejas no enorme fundão da casa à beira da piscina semi-olímpica. Alguns funcionários preparavam o churrasco. Os amigos chegaram. Ficaram conversando no mesmo lugar em rodinha. Às dez e tantos, Sebastião pediu para Maria, a empregada-mór da casa e a mais legal de todos os outros empregados, colocar um filme bom pra que ela mesma e ele assistissem na sala. Lá estavam os dois vendo um filme quando Bernadete apareceu também e se sentou ao lado de Sebastião. Maria, muito gorda e branquela, estava afundada no canapé e já havia adormecido com o copo de cerveja na mão. Bernadete era loira. estava bronzeada. Dona de um corpo atlético e saudável, era mais alta que Sebastião. Ela se sentou ao lado dele, pediu para encher seu copo de cerveja e cruzou as pernas.
- Mulher fatal - Sebastãi disse.
- Fêmea fatal, hoje - ela falou depois de prender os olhos nele.
- Chegou agora?
- Não finja que não reparou em mim ali na rodinha.
- Você tem uma boca boni... carnuda.
- Eu sei.

Sebastião meteu a língua até o fundo da goela de Bernadete. Ela estava muito chapada. Apertou demais o pau dele. Sebastião parou e se encurvou pra seguar a dor que subia até o coração seguindo o traçado da artéria. Ele queria socar aquela mulher maliciosa. Ela avançou sobre ele com tudo. Rapidamente seu pinto ficou duro. Bernadete perguntou se ele tinha camisinha e o chamou pro segundo piso. Eles estavam subindo a escadaria quando a mulher titubeou, colocou o braço na testa e pediu socorro. Ela quase caiu se não fosse Sebastião com seu reflexo de bêbado avivado tê-lo endireitado para segurá-la. sebastião deixou-a lá, deita, inclinada sobre as escadas. Teve o trabalho de apenas tirar sua blusa para servir a ela de travesseiro. Depois voltou, sem blusa, para a sala. Ainda havia algumas latinhas de cerveja para detonar.

"Eu bem que poderia estar em minha soturna lucubração agora", pensava Sebastião. O filme já havia acabado. Ele desligara a televisão há meia-hora. Ainda tinha a última lata de cerveja na mão. El estava absorto no escuro. Maria acordou, mas saiu de fininho. De repente a televisão explodiu. Uma rosa gigante e falante apareceu envolta por uma luz verde-transparente. Ela perguntou o que ele fazia ali parado. Ele disse que não sabia.
- Eu sei - a rosa falou.
- Ok. Quem é você - ele quis saber.
- A sua sorte.
- Você é bonita.
- Obrigado. Mas nem venha, Sebastião. Não tenho buceta. E o conheço bem, você não tem pique para nada hoje. Está muito bêbado.
- Eu sei, eu sei.
- Sebastião - falou em tom firme a grande rosa - você deve escrever suas idéias e levar ao editor.
- Ele é um sacana filho da puta que brinca de sadismo com putas suas irmãs em pleno sábado. Ele não se importa.
- Você deveria estar escrevendo.
- E você deveria ter uma buceta.

Cobe a Lisa levar uma coberta para o amigo deitado no sofá da sala.

05 Outubro 2009

Sebastião, ressaquinha do sábado de manhã


Eu aproximei o nariz na cafeteira pra sentir melhor que porcaria era aquela. O café estava torrado e o fogo ainda aceso. Cocei meu saco, eu estava só de cuecas e calçava um par de chinelos. Desliguei o fogão, bati na porta do banheiro:
- Você deixou o fogo ligado! - gritei.
- Ta bom! - a menina disse, sem escutar direito.
- Abra a porta!
- Agora não dá.
Olhei as horas e fiquei surpreso. Eram oito da manhã e um baita sábado chuvoso. Desencanei e deitei na cama. Precisava mijar. Tinha um pouco de ressaca. A menina saiu enrolada por uma toalha no corpo e outra na cabeça.
- Sua casa é pequena – ela disse.
- Eu sabia disso. Você não viu ontem? Chapadinha.

Ela foi até a cozinha e eu entrei no banheiro, tranquei a porta. Esperei um pouco enquanto observava, no espelho, tipos de rugas. Ela não reclamou do café. Provavelmente estava um pouco intimidada na casa de um estranho. Escovei os dentes, resolvi, por um impulso instintivo, lavar-me. O único banheiro do apartamento ficava ao lado do quarto. Saí pingando em busca de uma toalha nova.
- Você está sujando toda a casa! - ela reparou e disse com um espanto mais ou menos ingenuamente hipócrita enquanto se sentava na minha cama e ficava a me com mia curiosidade.
- Eu sei disso. Hoje é dia de faxina.
- Ah...
- Não esquenta! - vesti-me e quis saber qual era seu plano.
- Hoje estou bem. Bebi muito ontem. Acho que podemos ficar juntos... se você não tiver nada mais pra fazer.
- Ah meu bem! Nada mais para fazer! Se eu fosse o papa eu faria coisas do tipo a mais do que o normal, mas preciso fazer umas coisas hoje ainda. Minha tarde vai ser livre.
- Beleza.
- Beleza o que? - então eu fiquei espantado. Queria que a guria fosse embora. Na noite passada pude escolher entre uma coroa de quarenta e a menina de dezesseis. Depois pude escolher entre um motel e minha casa. Este é o mal de ser um preguiçoso maldito. Não querer muito trabalho dá em péssimas escolhas, resulta em consequências toscas.
- Fico por aqui... Preparo um almoço, sou boa na cozinha e vi que você tem umas coisas legais na geladeira, no armário. Daí a gente vê o que faz á tarde.
- Putz, vou comprar um pilequinho na volta!
- Ã?
- Nada não. Você mora aqui perto?
- Que nada!
- Ok. Vou nessa e ligo pra cá quando estiver voltando – disse isso, já pensando que estava fodido. Uma guria gaúcha de dezesseis anos me servindo de mulher da casa! Perguntei: - Você é gaúcha?
- Por que? Não!
- Por nada. Tchau, cuide-se. Logo eu volto.
- Tchau.

Dirigindo para a casa do Fábio, parecia que eu montava um jegue manco. Fiz alguns desvios. E que merda de passeata gay era aquela? Justamente num sábado tranquilo tinha que haver uma festança, uma zona com som alto? Os melhores dias são utopias. Estacionei a duas quadras da casa do Fábio para deixar meu carro longe da balbúrdia. Toquei a campainha, o portão se abriu, entrei. Fábio me esperava à entrada. Vestia um roupão de seda. Notei uma expressão cansada, embora feliz, naquele semblante escroto de um careca abastado. O filho da puta só queria me extorquir. Não deixou eu entrar nem pra comer alguma coisa. Pegou meu texto, como havia sido combinado, pois meu computador estava no concerto, e pediu para eu esperar. Fechou a porta. Voltou, entregou-me o cheque.
- Vai estar na revista amanhã mesmo! - disse o bundão soltando um sorrisinho de leve.
- Faça o que quiser com isso. Já tenho minha droga, maluco.
- Está certo – ele me olhava fixamente. Queria se expressar como um ser imediatamente superior.
- O que está rolando aí? Nem posso entrar? Não comi nada.
- Tem uma padaria ali perto.
- O que foi, cara? Eu vim lá de casa direto pra cá.
- Quanto esforço hem! Concerte logo seu computador. Hoje em dia existe internet e você sabe disso.
- Filho da puta. Está rolando uma treta aí.
- Não importa. Beleza? A gente conversa amanhã no almoço com os editores.
Despedi-me, esperei ele se virar para fechar a porta. Botei o pé embaixo e empurrei usando um pouco de força. Ele foi jogado para frente e eu o segui com a cabeça e metade do corpo casa adentro.
- Mas que porra é essa? - eu perguntei, surpreso.
- Caralho mesmo... você hem.
Fábio era um amigo de longa data. Eu sabia de algumas perversões suas com prostitutas noturnas. Mas aquilo! Entrei, fechei a porta. Olhei mais uma vez para aquele saco de carne careca e virei os olhos para a cena. Havia três mulheres na sala. Uma estava de quatro no sofá cumprido e tinha uma garrafa de vodka no rêgo. Outra estava atrás daquela e segurava um chicote de borracha trançada. A terceira apareceu com uma bandeja com taças de uísque e comprimidos de LSD. No mesmo instante eu saquei o lance.
- LSD, cara? Sábado de manhã! Que bosta do caralho é essa? E essas vadiazonas? - Perguntei, calmamente.
- Vai te ferrar.
- Soltei uma gargalhada sincera. Quase comentei que seria mais problemático se eu "o" encontrasse com a garrafa de vodka e não a menina. Fiquei com muito tesão.
- Bom. Preciso ir. A gente se fala amanhã, na reunião... com os edito... - não segurei uma nova gargalhada. Saí rapidamente pela porta. Em direção a minha casa, cruzando novamente a passeata gay, até senti vontade de dançar com aquelas marmanjos que se esfregavam à vontade. Parei em uma lojinha de conveniência num posto de combustível, comprei uma caixa de cerveja e uma cachaça pra fazer caipirinha. Cheguei em casa, encontrei a menina fuçando em meu computador, ela havia decifrado a senha de acesso. Ela comentou que meu violão estava desafinado e queria abrir uma página onde havia um afinador sonoro. Eu não tinha nada para reclamar. Cheguei por trás e a levei pra minha cama.

20 Setembro 2009

NO-VA-SE-ÇÃO

(...)

17 Setembro 2009

Nossos tempos. Dias de amenas liberdades: Tendência humana à carniça

Era de se esperar que num ponto de tempo e espaço entre quinquilhões de anos-luz e quinquilhões de ano-luz da evolução do universo um raio acertasse a árvore que matou o burrinho chinês. Um dia aquilo teria acontecido. Ou deveria acontecer mesmo que o burrinho não fosse aquele chinês, ainda que fosse um burrinho chinês noutros tempos senão este que aqui trato.

O raio caiu. A árvore caiu. O burrinho caiu. Maldita gravidade! Na morte todos caem até que alcançam a posição sublime da perfeita imobilidade, do retorno à natureza; posição, porém, limitada pela gravidade. O que há de sublime nisso não vai além da força da gravidade, que é silenciosa e mortal. Sublime, mas nem tanto quanto o ponto do acontecimento naquele momento exato em que o raio tocou a copa da árvore e as células do burrinho começaram a serem atingidas.
A conjuntura de um momento, um único momento que sozinho some até mesmo mesmo da memória das pessoas, inclusive do dono do burrinho, era a de um tripé mortal e sensacionalmente vital. Mortal, para o burrinho, ou as células que compunham o burrinho, ou a formação estrutural dos átomos que compunham as moléculas que mantinham os formatos das células, ou sei lá. Vital para a vida das coisas, estas que dependem do movimento para que haja acontecimentos, aquela que é a lida dos borrões do universo. A memória nada mais passa do que aquilo que trespassa através de tudo e pertence a pouca coisa.
O dono do burrinho, Joaquim, nem viu a façanha da natureza - natureza esta que é perversa ao ser, por si só, nem um pouco natural em suas entranhas tecidas por algo que talvez possa ser chamado de natural, mas nem é.
Natureza à parte, Joaquim, pai das navalhas de madeira, estava cagando no meio do mato. Foi uma dor de barriga que o acometeu de forma mais do que incoerente, absolutamente incoerente, quando ele descia um barranco à beira do riachinho do seu sítio. Nenhum banheiro por perto; foi ao mato mesmo. Sua bosta era comum, amarronzada e fedida. Mas o fedor não era tão ruim quanto ele pensava que fosse. E este é o ponto. Joaquim imaginava uma coisa que por sua vez não era de fato como seus sentidos sabiam que não era. Joaquim era um desfactuador. Os seres humanos, as pessoas no geral - excetuando os brutos solidários, ou aliás, os plenamente ignorantes que nem chegam a ser brutos no sentido de violentos - são seres desfactuadores. Elas virtualizam além de um equilíbrio natural - e até parece que o equilíbrio é natural mesmo!; pode até ser, mas só se for um único momento, exato e imutável, como o raio do começo da conversa, que dura apenas um momento e nada mais entre tantos outros momentos ao redor daquele momento que o fizeram, casualmente, perfeitamente equilibrado. Virtualizam as coisas a tal ponto de uma pessoa, fictícia, como Joaquim, supor que sente algo que não é verdadeiramente como ele sente. A sinestesia do cérebro é fantástica, aliás, sensacional.
Joaquim, sentado na varanda de sua casa, após o jantar, olhava as estrelas. Imaginou que se as estrelas eram de fogo, elas poderiam feder merda também porque em algum lugar sairia gás, etc. Parou de imaginar aquilo. A bosta no vaso sanitário fedia. A bosta no mato não, no começo, nem tanto depois, muito, alguns minutos mais pra frente; mas só a bosta do homem. A bosta de bicho era atraente, ainda que fosse fedida também.
Na manhã seguinte Joaquim ia até a padaria comprar pão e obteve uma prova para sua teoria. Ele passou ao lado de um setor da cidade em obras e havia lá um esgoto aberto. O cheiro podre que aquela boca nojenta exalava do chão era lindo. Um cheiro lindo. Entrava pelas narinas secas e peludas de Joaquim, velho, idoso, descendente de gaúchos. O cheiro entrava e parecia escorrer pela garganta do pescoço grosso , passava pelo peito. Era um cheiro quente e pesado. Ruim e bom. Carnicento. Joaquim formulou sua teoria: os homens nasceram da carniça e para a carniça voltarão.
Nunca mais Joaquim foi à igreja católica apostólica romana na praça da cidade.

12 Setembro 2009

Causo do peão do mato


- A tia sempre falava pra ir lá pros cafundós do Judas quando a gente não tinha nada pra fazer - Carolina falou isto como se falasse qualquer coisa pra quebrar o silêncio.
- É. É mesmo - disse Jaime.
- Ei Jaime, já sei! E a cachoeirinha da Mariana e do Pedrão?
- Não vai rolar, Carol.
- Pra que tanta chatice?
- Ah, é o calor. Esse calor de merda. E os pernilongos também. Calor e pernilongo. Nada pra fazer. Dor de cabeça. Monotonia.
- A cahoeira pode ser legal; interessante, meu querido! - Carolina comentou.
- Pode ser. Vamos beber cerveja? - perguntou Jaime.
- Ainda é cedo. Acende o béque aí. Se o calor não passar, a gente come bastante com a larica. A gente vai toma um banho junto.
- Po Carol. De novo com essa conversa! Não quero te pegar agora. Só rolou uma vez dois anos atrás.
- Mas você sabe que eu sempre gostei de você.
- Eu sabia. Mas você é muito malandra, Carolzinha.
- Ok - Carol falou, encostando a cabeça no ombro do primo. Depois de um tempo, depois de solfejar um pouco pra passar os minutos petrificados, de checar as quatro paredes da sala, de experimentar a resistência da rede onde os dois estavam deitados juntos, continuo - Mas, agora é época de manga boa, Jaime. Lá na cachoeira, água morna, manga boa e a gente ainda pode chamar a meninada aqui da vila. A gente cresceu junto com eles. Eles são legais.
- Eu acho que a gente deve ir embora logo - Jaime sugeriu franzindo a testa.
- A gente só tá aqui desde terça. Vamos ficar até segunda, pelo menos! Daí passamos o fim de semana. O pessoal, a meninada, a tia, todo mundo vai querer festar e dançar bastante. Pra que vamos embora. Ainda vai rolar muito álcool.
- Beleza. Eu não quero ir embora também. O problema é encarar o calor na trilha pra cachoeirinha. Dá mais de dois quilômetros de caminhada.
- Ah, bunda-mole. Vamos logo. O sol já não tá tão forte - disse Carol.


Os dois primos se armaram contra os perigos do caminho: chapéu de palha e protetor solar contra o sol; repelente contra os insetos voadores e sugadores de sangue; roupas de banho; um isopor com latinhas de cerveja; uma maço de béque pronto. Ao saírem da casa da tia, tia dos dois, no caminho encontraram duas meninas, conhecidas deles desde a época da infância, sentadas na pracinha no centro da cidade. Antes de chegarem à trilha que levava à caconheira da Mariana e do Pedrão, como era chamada por todos, os primos já faziam parte de um grupo de onze jovens querendo se divertir numa caminhada tranquila e num baita piscinão d'água formado por uma cachoeira com mais de dez metros de largura e somente dois metros de altura.

Poucas nuvens no céu. Sol latejante. Pés nos chinelos de dedos, ou pés descalços dos mais jovens do grupo, sujos de terra vermelha; terra do cerrado, onde onça come capivara à noite e cobra come vaca boba; onde tem mutuca, abelha e formiga lava-pé; onde há capim que corta o dedo e folha que dorme ao ser tocada, urtiga e macumbaria. Pois, foi nessa ida à cachoeirinha, uma ida que se compunha alegre e divertida, recheada com piadas novas e engraçadas, inocentes, pois foi nesse passeio contente que dona Laís, a bruxa japonesa mestiça, apareceu. Ela pulou na trilha saindo do meio das árvores de galhos retorcidos. Assustou a todos que andavam quase absortos do mundo. Jaime e Carolina, que estavam a frente do pessoal, foram os primeiros a encontrarem dona Laís. A bruxa, por sua vez, não quisera provocar susto, estava antes em uma alucinante caça a um pássaro misterioso. Ela, nervosa por ter sido interrompida e, aparentemente em transe, conectada a outra dimensão ou ao diabo, ou aos espíritos de qualquer coisa que ainda possa continuar viva após a morte, olhou com olhos de fogo, olhos quentes e curiosos, para os olhos de Jaime. Dona Laís meteu uma das mãos em sua vagina e reitirou um graveto seco. Suas unhas eram grandes e estavam pretas de tanta sujeira, seu vestido branco, de seda, tinha rasgões por diversos pontos, seu rosto era enrugado, envelhicido e manchado pelo sol e era um rosto doído, e ela tinha cabelos grisalhos longos os suficiente para que pudesse se enforcar quando chegasse a hora de encontrar com seu suposto amante, tão comentado na vila, que morava no inferno. A bruxa medonha apontou o graveto seco para Jaime, depois apontou para Carolina, soltou um sorriso que pareceu se sustentar por algum escárnio não divulgado, e depois jogou o graveto para o alto, que caiu, fincou-se no chão e ficou precisamente na vertical. Depois a bruxa desapareceu emprenhando-se no mato novamente. O graveto fincado na terra rendeu uma boa conversa durante todo o trajeto e, até mesmo, por algum tempo já na cachoeira, entre todos do grupo de amigos. "Como um gravetinho seco de madeira fraca pôde cair e fincar-se numa terra vermelha, esturricada pelo calor, dura, com tamanha precisão na posição vertical?", perguntavam-se todos. Por fim, o mais velho deles, um famoso peão da região que não tinha um dos caninos na boca, pois o perdera numa disputa de bar, falou que aquilo era magia negra, mas que tal magia só funcionava em quem acreditasse em magia negra e, depois de contar aquele segredo, abriu o isopor oferecendo cerveja pra todo mundo.

Alguns moleques tentavam pegar lambaris com uma camiseta estendida na borda da água onde não havia muita tremulação e era possível ver o fundo do lago. Outros nadavam exaustivamente. O peão fazia brincadeiras perigosas, pulava da cachoeira e dava "caldinhos" nos mais novos. Carolina, Jaime e uma das meninas da vila, Sara, foram explorar o riacho cachoeira acima. Após algumas curvas, os três encontraram uma sucuri atravessando não muito rapidamente de uma margem à outra. A cobra estava tranquila e parecia que estava, também, bem alimentada. Subitamente, o bicho se dobrou todo para o lado, segurou com firmeza os três exploradores e, enrolando-se neles, parou com a cabeça ao lado da cabeça de Jaime. Jaime sentiu o ar que saía pelas narinas da sucuri. Carolina tremia de medo e Sara estava paralisada. Jaime perguntou o que aconteceria depois. Seu corpo era esmagado lentamente. A sucuri parecia olhar, mesmo que com a cabeça de lado, para Jaime e parecia pensar no que faria futuramente. A cobra mordeu o ombro de Jaime com as presas. Perfurou um pouco a carne, mas nada que exigisse um atendimento médico; nada que um pouco de água não curasse. Depois da mordida, a cobra soltou os três e foi embora. O riacho não era fundo, mal tocava os tornozelos em sua descida suave na parte acima da cachoeira. Jaime deitou de costas e ficou por algum tempo retirando o susto, deixando a água que descia com calmaria, e até com com um pouco de sensualidade, massagear sua cabeça. Carolina e Sara estava sentadas e abraçadas ao lado do rapaz. Os outros se divertiam esquecidos do mundo alguns metros pra baixo, na descida do riacho, no pé da cachoeira.

Jaime abriu os olhos surpreso com o que via. Carolina estava nua beijando Sara, que também estava nua. Ele teve outra surpresa quando reparou que a mordida estava cicatrizada. Levantou-se e, ainda viu-se novamente surpreendido, quando notou que as duas lesbianas lhe davam tesão. Jaime assumira sua homossexualidade cinco anos atrás. Incrivelmente para ele, naquele momento, nada poderia tomar como referência a história de uma vida subversiva. Seu pênis estava retesado e ele queria meter. Carolina, vendo aquilo, abaixou o bermudão do primo. Sara chutou a amiga. As duas começaram a brigar e a rolar pelas pedras vermelhas e argilosas sobre as quais a água do riacho corria. Jaime subiu o calção e conseguiu se controlar. Pediu que as duas parassem. Ele foi até Carolina e a esmurrou com toda força. Carolina caiu de cabeça naquele chão pedregoso e quebrou o maxilar. Sara pulou sobre Jaime no mesmo instante e passou a beijá-lo. Jaime ainda estava com tesão e mal conseguia se segurar por isso. Carolina, mesmo cambalida e machucada, muito machucada, chutou as costas de Sara, que rolou alguns metros abaixo. O chute abalou muito a condição física da sentida. Carolina abraçou Jaime e tentou beijá-lo. Seu queixo se movia de um lado a outro e estava saindo sangue por uma das narinas e pelas gengivas. Jaime queria levá-las embora, mas também ele não era capaz de entender o que estava acontecendo e de suportar racionalmente a situação. Sara, um pouco recuperada, chegou por trás de Carolina, puxou-a pelos cabelos e a empurrou com tanta força que a prima do galante bateu a cabeça na raíz de uma árvore do barranco de uma das margens do riacho e ficou estendida lá mesmo, com as pernas na água e o resto do corpo na terra. A prima estava desmaiada. Sara encostou os lábios na glânde de Jaime. Ela o deitou suavemente e montou sobre ele. Sua vagina era peluda, negra, quente e úmida, era uma fissura muito grande. Sara parecia ser uma montadora de rodeio, segurava o pescoço de Jaime com a mão direita e mantinha o outro braço levantado pro ar. Jaime gozou com bastante pressão. Sara socou o amante, que num reflexo preciso a empurrou e tentou correr para a cachoeira pela margem de terra, não pelo riacho. Sara correu mais depressa e o apanhou. Ela queria transar novamente. Jaime não conseguia se controlar como da última vez. Num outro impulso Jaime se livrou de Sara, enforcou-a com tudo o que pôde, jogou-a no riacho e esperou seu corpo descer até cair cachoeira abaixo. Foi até o corpo de Carolina e jogou-o também riacho abaixo, precisando apenas dar um impulso inicial com o pé. Depois daquilo, Jaime foi, como estva, nu e descalço, contra a corrente e desapareceu.

- Dizem que Jaime, o garotão da cidade que visitava uma vez por ano os convivas da pequena vila que não está nos mapas, o jovem bem nascido e bem criado, dizem que ele esteve o tempo todo sob feitiço da bruxa Laís depois do encontro inesperado na trilha. Dizem que Jaime se encontrou com ela e eles se casaram. Mas eu bem sei que dona Laís é cruel e come todos os seus noivos. Com certeza, na cabana invisível da bruza, camuflada com magia negra, a cabeça de Jaime está pendurada na parede. Ela deve ter retirado os dentes do jovem e os olhos dele também. Aquela mulher é abominável. Nunca ninguém deve olhar diretamente em seus olhos, senão ela traça uma história de vida com um final terrível para quem a encarou. Ninguém escapou de dona Laís - falou o peão para alguns companheiros de viagem.

09 Setembro 2009

Álcool no sangue

Eskobar esticou o corpo querendo se alongar. Olhou o enorme pasto de grama rala e brilhante a sua volta. A realidade parecia ofuscada por manchas amarelas, manchas fracas que davam a impressão de buracos sem lógica no mundo. Não era nada com o que se importar. Alongando, pra lá e pra cá, Eskobar ouviu um cavalo se aproximar, ainda que não visse por perto. De repente apareceu do céu, como se estivesse descendo uma rampa, um cavalo amarelo e uma moça ruiva nua montada nele. O cavalo parou para comer um pouco e a moça esticou a mão para cumprimentar Eskobar. Ela estava séria, com o pescoço levemente inclinado. Ela jogou os cabelos para trás e deu uma gargalhada rapidinha. Perguntou algo em uma língua que poderia ser alemão, ou holandês; Eskobar não soube especificar, nem tampouco entender alguma coisa. A mulher montou novamente no cavalo. Um burro manco terminou de descer do céu e, a mulher sobre o cavalo, segurou a crina do pobre animal coxo e foi embora forçando-o a segui-la. Mais adiante, um batom esquecido próximo aos pés de Eskobar desenhou um monstro no pasto. Era um monstro cor de vinho, bidimensional, nervoso, que pretendia comer Eskobar. O monstro tentou agarrá-lo. Eskobar disparou para o mais longe possível. Quando parou para observar onde estava, viu-se embrenhado numa floresta de eucaliptos e perdido numa encruzilhada de trilhas de folhas secas. Havia tantas folhas ali que nem era possível sentir a terra. Estava muito quente. Eskobar tirou a camiseta, descobriu que podia dobrar o pescoço para assoprar a si mesmo. Mais adiante, na curiosa busca por saber o que acontecia por ali, Eskobar se deparou com uma calcinha manchada com gotículas secas de sangue. Subitamente a calcinha, que preservara a marca da vagina de sua antiga dona, levantou-se e passou a conversar sussurrando com o estranho homem peludo. A calcinha o rodeou em espiral de cima para baixo e de baixo para cima, esfregou-se por seu nariz, parou diante dele flutuando no ar e perguntou-lhe o que era de seu desejo. Eskobar deu de ombros. A calcinha disse para ele seguir uma das trilhas. Eskobar foi direto por ela até chegar a um descampado envolto por eucaliptos e trepadeiras que se torciam e distorciam como se fossem produtos feitos de borracha mole. No centro daquela espécie de santuário havia uma estátua de uma vaca. A estátua era de madeira, exceto a bunda, que era de ouro, e o cu que parecia ser de rubi. O cu exalava um forte cheiro de mel. Eskobar até colocou a mão para ver se saía algum líquido, mas parecia ser um cheiro provindo de outra dimensão. Enquanto ele observava, curioso, a bunda destacada da vaca, em posição de quem está pensando, a estranha mulher ruiva o abraçou por trás. Ela derrubou Eskobar chutando suas bolas. Antes de dar-se por vencido, Eskobar cuspiu nas unhas vermelhas dos dedos dos pés da mulher que gargalhava alto naquele instante. Eskobar abriu novamente os olhos. Estava em seu quarto pequeno e fétido. Alguém havia deixado a janela aberta e o sol batia bem em seus olhos. Estava muito calor.

Eskobar gritou "Quem foi o filho da puta que desligou o ventilador?". Ele foi ao banheiro, mijou, lavou a boca com água e foi à cozinha. Lembrou que era domingo e na próxima segunda ele não teria que ir ao trabalho, pois havia sido demitido semana passada. Tinha trezentos reais no bolso da calça. "Preciso trocar de roupa. To fedendo pra caralho. Merda. Hoje vou beber com a galera. Vou tomar um banho. Quem sabe?". Ele foi à sala, ligou o som. "Que música tosca é essa?". Eskobar foi até o quarto de hóspedes e viu o sobrinho noiado cheirando cola em posição de meditação indiana sobre a cama. "O que você ta fazendo aí, maluco?", ele perguntou. "Só curtindo o domingo, cara." Eskobar mandou o primo tomar no cu e foi à sala. Acendeu um baseado, ligou a televisão e dormiu mais um pouco.

Já bem tarde, ele acordou faminto. Reuniu um pouco de vontade, mais veleidade que vontade, pois ficou dois minutos debaixo da água, passou o champu, lavou o rêgo e o pênis e, mal secando o corpo com uma toalha cheia de fungos, botou a mesma calça e uma camiseta limpa e passada. Disse ao primo que ia sair pra almoçar e depois faria uma visita à sua mãe. O sobrinho disse que só iria voltar pra casa na terça-feira. "To de férias", falou.

Eskobar partiu em direção à casa da irmã. Ele tinha a chave. Entrou calmo, cheio do almoço ainda. Pegou uma cerveja na geladeira. Viu um tênis à entrada do quarto de sua irmã. Ela não era irmã consanguínea. Eles fizeram um pacto de irmandade depois de anos de trepação exagerada que os levou ao ócio e lhes tirou a graça do gozo entre ambos. Eskobar encontrou a porta mal fechada. Foi abrindo e perguntando se podia entrar. Encontrou Rúbia de quatro e um jovem Renato, adolescente, filho da vizinha escrota, metendo com força. Tamanha era a empolgação que o garoto nem quis parar, "mas deve ter gelado o toba", pensou Eskobar, que sem querer incomodar, foi até a cozinha e rachou o bico. Depois colocou o tênis do garoto sobre a geladeira. Entrou em transe ao ficar algum tempo observando o copo cheio de água do filtro. "Você é uma belezinha, doce água. Eu bem que gostaría de ser uma água macho para brincar com você nessa liberdade absurda. Mas, antes, você bem que poderia entrar suavemente em mim e fazer seu trabalho. Estou com muita sede! Mesmo! Bom, vou te beber, água." Depois de beber a água, Eskobar ficou em pé ainda para mais um instante incontrolável estimulado pelo ócio daquele dia. "Mas que diabos é que estou aprontando? A vida é muito mais sensacional do que pica mole e pica dura. Existem as drogas, eu sei. Mas se eu não considerar as drogas e o sexo, posso fazer mil coisas. E mil seria pouco. Posso pular de asa-deltas. Posso cagar no meio da rua em pleno meio-dia. Sei lá, eu preciso arrumar vontade de esforço e, depois, fazer esforço. Quando é que vou trabalhar de novo e em que? Talvez eu volte pra normalidade. Volto a estudar numa universidade. Faço um mestrado. Eu conheço mais coisas que aqueles pulhas sacanas e cretinos e canalhas do congresso. Viro um político. E, afinal, já não sou um? Não somos políticos a vida inteira? Porra! Pensar nesse lance de vida de forma tão ampla me devolve a depressão isenta de impostos e taxas. Vou parar com isso. Pelo menos hoje. Porra, Eskobar, vai tomar uma gela!". Eskobar pegou mais uma cerveja e foi embora. Descia o carro da calçada quando Bernadete, a mãe do menino fodedor, apareceu um pouco preocupada perguntando se ele sabia onde o filho estava. Ele respondeu que não sabia. Pediu desculpas pela pressa, por ser domingo, por ele estar ali, por estar indo embora de onde ele nem deveria ter estado e partiu. "Ela é uma bela coroa", pensou dirigindo.

Comprou uma garrafa de vodka tri-destilada numa loja de conveniência de posto de gasolina. Tomou um longo trago. Estava escurecendo. Eskobar havia combinado com alguns amigos, com a galera de sempre, de encontrá-los no bar do truco. Eles apreciavam as cartas, mas havia além disso sinuca e um inferninho nos fundos, para todos os sexos, com ou sem pelos e protuberâncias mais. O bom daquele boteco era a diversidade e a bagunça feliz. Eskobar foi o primeiro a chegar. Tinha trezentas pratas no bolso da velha calça. Começou a beber cerveja de garrafa. Mais de hora depois nenhum amigo havia chegado porque era cedo demais ainda. Uma menina que mal havia perdido as espinhas da cara e tinha um belo corpo atlético sentou na mesa. Eles se conheciam desde outra noite, de uma festa de aniversário de uma amiga da irmã dessa menina. Eskobar perguntou de onde ela apareceu. "Vim com umas amigas", ela disse. A jovenzinha notou Eskobar demasiadamente chapado, pegou em sua mão e o convidou com uma atuação das mais libidinosas. Apesar da bebedeira, ninguém negava que Eskobar era um sujeito de colhões. "Como é seu nome mesmo, guria?", ele pergutou. "Bernadete". "Putz, é a mãe do menino fodedor?". "Sou a menina fodedora", ela respondeu. Bernadete tinha um cabelo curto, preto escuro. Era muito bonita. Nariz fino, olhos azuis, lábios grossos e bem esticados e queixo sedoso e pontudo. Ela rebolava muito enquanto andava. Foram para um dos quartos nos fundos do boteco. Bernadete fez com que Eskobar não ficasse por baixo. "Você é espertinha", Eskobar disse e continou, "não vou desmaiar, mas com isso você não contava", e, menos de um minuto depois de dizer aquilo, ele se jogou pro lado e vomitou aos pés da cama. Vomitou outra vez e cuspiu. Bernadete afagou suas costas e perguntou se ele estava bem. "Depois a gente acaba com isso, menina. Depois. Agora ta foda", ele disse. "Mas você paga", ela falou e foi embora.

"Caralho. O pessoal não chega nunca. Que bosta", ele resmungou. Eskobar conseguiu chegar em casa. Reparou que segurava a garrafa de vodka como se fosse mais um membro do corpo. Deitou-se na cama e passou a bebê-la rapidamente. Talvez antes de chegar ao fundo, mas com certeza quase lá, um gato que dormia ocasionalmente dentro do forro de sua casa, em cima do quarto, passou a miar como se estivesse parindo. "Deve ser uma gata puta", Eskobar pensou. O bicho miava alucinadamente e Eskobar comia a vodka. Antes de chegar ao fundo da garrafa, talvez lá, Eskobar percebeu que alguma coisa estranha estava acontecendo. Conseguiu ligar pra sua irmã na discagem rápida do celular e apagou. Se havia sobrado alguma vodka, ninguém saberia, pois a garrafa caiu de bico no chão e se estraçalhou.



29 Agosto 2009

Que luz?

1. Diante da assombrosa serpente das florestas úmidas do Norte, reconhecida pelo meu povo como Tropicântia, estava eu ainda limpo e perfumado com a essência das orquíadeas amarelas misturadas à mel que os jabutinos fabricam constantemente. Eu, a cobra; minha face pálida e pouco feliz, as duas presas venenosas. O perigo é previsto e quando se torna perigo real é mais longo do que duas vidas. O perigo, de soberbo, passa a ser digno para se autenticar uma divindade. O perigo, aquele que me cercava e o qual o sangue correndo acelerado por minhas veias alertava-me, era um perigo real; e de real passou a acontecimento perigoso e a uma ocorrência repulsiva. Há um ditado na minha antiga terra: "Perigo aos fugidios, comichões aos lavradios, coçadelas em vulgares, mil bocetas comigo e aos meus pares". Eu estava gelado. A cobra esticou seu corpo horripilante e esquivei-me com a força e a agilidade mais eficazes do que o simples reflexo explicado racionalmente. Encontrei uma rapidez e uma fuga na brecha entre o tempo e o espaço para desfazendo-me no instante do suspiro e o novo fôlego. Dobrei-me a exemplo da cobra e a cobra se dobrou ao meu encalço... Cobra pequenina, desajeitada, que logo descobri ser novata. Pisotei-a e pisotiei-a até que seus olhos repulsivos, esmagados, esbugalhados, deformados, alcançassem ensanguentados os pés daqueles massivos arbustos incrivelmente verdes e portentosos.
2. Após o primeiro perigo, não esperava ter mais situações difíceis pelo caminho ora tortuoso, ora íngrime - ora íngrime e tortuoso, além de em alguns casos ser lamacento e escorregadio por efeito da chuva afoita. Abracei-me ao ar e com o ar avancei pela mata para finalmente cruzá-la. O segundo problema de minha viagem, superando em dobro a dificuldade do primeiro, apresentou-se à mim subitamente. Eu não saberia voltar mesmo que quisesse e não saberia qual direção pegar naquele brejo muito mais do que tão distante de uma vila decrépita com quermesse. Rezei ao demônio da minha terra, aquela mulher com peitos salientes e chupativos. Se ela fosse mesmo a macumbeira das macumbeiras nas noites de orgia, bebedeira e boas conversas, então que estivesse com meu espírito fornecendo-lhe auxílio altivo. E que eu escutasse as boas rezas!, era meu desejo! Que nada! O problema se avolumava em traços abstratos e puramente abstratatos. A realidade se distanciava dos meus olhos de tão confusa que estava. Invoquei uma catapulta mágica que drasticamente não apareceu.
3. Eu estava fora da floresta mortífera. Tinha nas costas uma lança que produzi antes de adentrá-la e uma faca na bainha presa à coxa como armas de ataque e defesa, que ganhei do casal praticante de swing com quem passei minha última noite na última cidade do Norte. Tinha enlatados para mais três dias. Meu objetivo não era fácil. Eu estava fora da floresta, acima de uma montanha enorme que me proporcionava a vista mais bela que meus olhos já possuíram em algum instante. Eu deveria descer a montanha e, logo, foi o que fiz com muito custo e após alguns deslizes que, incertamente não me mataram, destroíram minha capacidade locomotiva por uma semana de esforços exaustivos que se seguiram à minha descida.
4. Felizmente, ao pé da montanha, encontrei Rosana Jalhavona das Trinchas Grotas - como fiquei sabendo ao ler a epígrafe na porta de seu lar -, quem resgatou meu corpo sem minha alma, destroçado de toda as formas e por quem fui severamente e enganosamente amado e glorificado. Dormi sem febre, mas muito cansado, em uma rede que a mulher montara para mim. Acordei ainda à noite com bastante fome e pedi um copo de água e alguma coisa para comer. Sugeri que preparássemos algum alimento sintético que eu levava comigo na mochila. Ela recusou colocando o indicador em meus lábios. Eu continuava deitado na rede e Rosana estava nua, pois logo senti suas coxas peladas esfregando minhas pernas curiosamente já sem calças. Eu não estava em condições de movimentos físicos bruscos, mas tinha tesão. Pedi novamente, como provocação, algo para comer: "Gemada, geléia, pão, bolo." Rosana me beijou na testa e enquanto transava comigo inerte naquele rede confortável, nem a percebi amarrando minha mão aos cordames da rede com um pedaço de sisal. Rosana se levantou deixando meu pênis petrificado. Percebi minha prisão, mas estava muito cansado para reclamar da situação. "Justiça e justiças", fala Rosana num cômodo próximo a onde eu estava que poderia ser a cozinha. Ela me forçou a beber um chá quente numa caneca de alumínio. Tomei e escancarei. Minhas energias foram retomadas a ponto de eu quase poder rasgar as fibras do cordame que me prendia à rede. Transei a noite inteira com Rosana e o efeito parecia se esvanecer ao amanhecer. Dormi como um boi. E lá estava ela, a minha maldição que se mostrava como meu terceiro problema, sobre o qual eu não entendia nada e nunca entendi completamente.
5. Rosana não queria mostrar seu rosto, mas insisti e insisti numa posiçao de plena submissão, até que ela o mostrou. Era uma bela filha de Vênus. Ruiva, com a pele delicada e mais branca do que minhas nádegas. Seu corpo não aparentava ser forte, mas saudável e bem alongado. Havia terra nos cantos de suas unhas, mas não muita, pois Rosana lavava as mãos eventualmente. No primeiro dia, após ela mostrar o rosto, não nos falamos mais. À noite ela voltou e me forçou a beber o chá, o qual quis recusar no princípio. Passamos outra noite de plena fodelança. Aquela fábula estava me fazendo um corpo exângue e causando-me alucinações com pintadelas de sedução vil e masoquismo barato.
6. Na manhã seguinte, o terceiro dia, a deusa com as cores das mais belas flores me despertou abraçando-me contente, com um baita sorriso no rosto. Seus olhos verdes, quase azulados, prederam-se aos meus e ela se sentou ao meu lado. Perguntou inocentemente o que eu faria se ela me soltasse e, eu espantado com a pergunta não esperada, disse que buscaria algo para comer e depois voltaria para minha jornada após despedir-me calidamente dela. Disse após pensar um pouco e, imitando-me, mas já com sua decisão em mente até mesmo antes de ter me conhecido, ela falou que não. Rosana sorriu, levantou-se e seguiu saltitando para seus jardins esquecidos. Levou-me duas maçãs, um prato com três caixos de uvas e um grande pedaço de bolo de fubá. Quando perguntei onde ela encontrara tudo aquilo e ao mesmo tempo quis saber se ela produzia tudo aquilo ao redor de sua casa, novamente Rosana silenciou-me com sua mão suave sobre minha boca e disse palavras que jamais me esquecerei: "Leio nos olhos de minha vida a questão onde andariam os andarilhos da vida. Onde for onde, distante de longes pontes, averiguei as partes de baixo e dançaria com mil folhas, ainda que estivessem secas, a cair sobre meu corpo ativo." Rosana me beijou com força e tive tesão e ao mesmo tempo eu estava tonto e tinha fome. Quase desmaiei e ao ensejo do momento fingi uma falha do meu corpo completa, dando para a jovem isolada do mundo uma bela atuação de desfalecimento. Abri os olhos e a vi choramingando ao meu lado; ela me acaricou e voltou a sorrir. Deu-me ainda naquele momento todos aqueles alimentos para comer com tanto afeto que, sinceramente, quis passar o resto da vida em seus braços; o resto da vida até a própria vida me ter retornado com propulsão de foguete à razão. Foi quando deparei-me exatamente como um maldito prisioneiro e exonerei, por vez, a macumbeira de minha terra de seus trabalhos protetores. Nada fazia sentido.
7. No quarto dia eu tinha sede, estava faminto como um monstro devorador de deuses, e o fétido cheiro de urina ao meu redor e em cima de mim aparentemente acuava Rosana, pois ela não se aproximou nem na noite passada, nem na manhã como já era seu costume fazer. Habilmente ela alongou a corda que me prendia e cortou a parte da rede de tal modo que poderia manter-me algemado e orientado sob seu controle. Rosana levou-me para passear e disse que eu deveria ir aonde quisesse e estar sempre cinco passos a sua frente; aonde ela não quisesse que eu fosse, ela simplemsente não deixaria eu ir, pois meus pés também estavam amarrados de um jeito que não permitiam mais do que passo médio. Ela me obrigou a entrar num riacho. Eu continuava nu, desde a primeira noite do meu resgate e Rosana também andava sempre nua. Ela notou meu pênis reto outra vez, para minha injusta infelicidade, e ela era uma jovem sagaz, audaciosa e sobretudo ávida e desejosa dos prazeres carnais. Ela amarrou um pedaço da corda que me algemava e enlaçava em uma árvore à margem do riacho e o outro pedaço ela amarrou noutra árvore com uma distância suficiente para eu ficar preso em um ponto específico com os joelhos debaixo d'água sem poder me movimentar mais do que um metro e meio para os lados. Rosana se aproximou, abraçou-me e obrigou-me a sentar na areia. Pude sentir com precisão lambaris beliscando minha carne durante o coito matutino e cansativo, ainda que prazeroso. Rosana apertou minha cabeça com suas duas mãos e passou a me beijar com empolgação. Eu a segurei por suas ancas e a movimentava com agilidade. Ganhei meu gozo antes dela, pois daquela vez eu não havia tomado o chá misterioso. Não pude saber quais seriam as consequências do meu ato. Duas noites de transa totalmente perdidos naquele sujo da sala? Uma morte cruel? Um abuso sexual violento? Um abandono de meu corpo para que os animais me comessem? Rosana não falava minha língua, a não ser que quisesse. Eu lhe fazia perguntas e ela não respondia a nenhuma delas. Deixava-me aprisionado sob seu controle supremo como um escravo fraco. Ela apenas disse, ao entardecer, quando preparávamos para voltar, que eu deveria mijar naquele riacho.
8. No dia seguinte, que já era o quinto, fui acordado por Rosana se masturbando aos meus pés. Eu estava amarrado no mesmo local da rede, porém no chão, pois a rede havia sido cortada. Perguntei qual era o motivo daquilo e a mulher de pelos púbicos ruivos urinou em meu rosto. Sua cabana não era fedida completamente, como pude notar no dia anterior quando fui levado a passeio, entretanto, aquele lugar onde eu estava particularmente tinha um odor parecido ao que minha terra descrevia como o cheiro do cu das vacas e dos pássaros na cidade de Concórdia, nas serranias onde vivem os zombeteiros passivos do Leste, que está além do grande oceano das baleias.
9. Rosana deu-me alimento e um pouco de leite para beber de cujo o qual não reconheci de que animal provinha, mas soube refletir sobre sua grossa consistência e sabor degustável. Perguntei se Rosana gostaria de um abraço e quando ela veio em minha direção eu estiquei o quanto pude, notei o barulho dos fiapos endurecidos do sisal, que estavam muito secos, velhos e carcomidos. De noite, quando ela me trazia o chá misterioso, fui capaz de arrebentar as cordinhas que deixaram marcas físicas nos meus pulsos e empurrar a jovem para atrás. Ela caiu de costas em silêncio absoluto. Eu era mais forte, apesar de ter sido mal alimentado. Ela ficou deitada no chão à espera de algo novo acontecer em sua vida largada. Aprontei minhas coisas, minha mochila, minhas roupas, a barraca e meus apetrechos, e abasteci-me com frutas e três cantis de água e um com aquele leite bom. Fui ao encontro do corpo esquálido e belo jogado no chão, beijei aquela testa nédia e aqueles olhos sedutores, e também os lábios carnudos, perguntei se Rosana gostaria que eu fizesse algo mais e, como recusou com um sorriso de lado, fui embora pelo pântano com a lamparina acesa. Não queria encontrar bicho algum que fosse maior do que eu vagando noturnamente. Cruzei o mesmo riacho onde eu havia deixado minha marca escrota e fui adiante. Eu não sabia aonde ir, mas deveria seguir na direção contrária à grande montanha que desci quase uma semana passada.
10. Ao alvorecer, deparei-me com outro problema. Percebi que eu não seria capaz de estruturar todos os meus problemas, porque se o fizesse assim, estruturadamente, eu me limitaria, em abuso, de construir uma vida sem potencial. Eu ainda tinha uma vasta pradraria a percorrer e seria necessário cruzar o grande lago Universo. Eu não seria capaz de prever todos os meus problemas vindouros e nem mesmo de focar minha atenção a um único problema. Ou eu seria um humano incompleto, limitado, ou seria um desumano. Minhas tentativas se pareciam com os poderes de Deus e, por isso, naquele instante passei a crer em Deus. Deus estava em mim, assim como eu estava dentro dele. Ele estava dentro de mim, comigo e existia para mim. Deus era uma representação fiel daquilo que era desumano.
11. Imaginei um cavalo, mas não havia animal algum naquele vasto campo de capim ralo. Naquela região do extremo Norte o vento soprava um ar um pouco mais gelado e havia flores roxas e violetas por toda parte. Lembrei-me, porém, que em minha vida eu passara por ali mais de quatro centenas de milhares de vezes e também já havia percorrido outros campos com outras bagagens por inúmeras tantas outras vezes. Os acontecimentos não eram os mesmos, mas eu, em minha tolice imediata, minha incapacidade absurda de compreender o todo, não seria capaz de alegrar-me com um esquecimento forçado como eu havia tentado obter durante minhas viagens. Nem pedra mágica, nem lendas, nem vontade dariam poder algum além do que eu já tinha. Cruzei o campo pelo caminho mais fácil que eu já tinha em mente. Cheguei ao precipício que servia de portal aos confins da bagaça e pulei sem remorsos no famoso buraco do último canto da Terra. Antes, porém, para minha ilustre, esclarecidíssimas e tola infelicidade, como que por maldição do demônio de minha terra que havia sido esposa de um homem desertor da pátria, eu fui invocado novamente e surgi de repente, antes das gravidades dos outros campos me arremeterem, vi-me idoso com as forças exauridos e embriagado numa cabana, sozinho, ávido por mesquinharias e prazeres carnais e cheio de imprecações falsas. Vi-me como se eu fosse uma estrela no céu da noite; vi-me articulando os efeitos físicos, agindo e falando, também incontrolável, suspirante e moribundo naquela pequenez que eu via, mas não alcançava.

05 Agosto 2009

As balas de Dom Neon Coelho


Uma garotinha bailava do outro lado da rua em pleno flerte com a imaginação criativa. Dom Neon a observava enquanto tomava seu café pingado no pub do prédio onde morava. Engoliu o resto do bauru. Foi rapidamente ao encontro da criança feliz. Ele se aproximou e se colocou de pé ao lado dela. Curiosa, ela olhou pela vitrine para alguém dentro da loja de roupas. Sorriu e acenou e, em seguida, perguntou a Dom o que ele fazia ali. Dom tirou um saquinho branco do bolso e entregou um comprimido de LSD para a menina. Disse:
– Desculpe menina. Não queria atrapalhar sua brincadeira. Mas já que atrapalhei, tenho um presente para você. Se você engolir essa balinha vai dançar uma dança nova num mundo diferente. Pode ficar tranquila, pois sua mãe irá também ao outro mundo. Lá é muito bonito e legal. Tome, experimente.

Dom Neon se sentou no banco ao lado e ficou observando. A menina que havia mastigado seu docinho passou a acariciar o poste. De repente ela partiu para o meio da rua. O primeiro carro desviou e freou bruscamente. O segundo bateu neste e depois soltou uma longa e irritante buzinada. Como a menina continuou avançando, outros carros frearam rapidamente. Na sexta faixa se aproximava um caminhão que não conseguiria parar a tempo. Os motoristas já brigavam entre si fora do carro. Dom Neon correu e puxou a pequena garota. Levou-a rapidamente para a calçada ao encontro da mãe que já estava aflita ao ter ouvido o barulho das batidas e das buzinadas.
- Aqui. É sua filha, não é? – Dom Neon perguntou a mulher.
- Sim. Obrigada. Mil vezes obrigada. Eu nunca deveria ter deixado essa menina sozinha aqui. Como isso foi acontecer? Que merda! – A mãe falava e chorava com a menina nos braços. Os outros foram embora após terem recomendado que levassem a garota para um hospital. – Muito obrigada mesmo. Não sei o que dizer. Estou muito assustada ainda. – Disse a mãe.
- Eu entendo. Não se preocupe. Talvez seja melhor levar sua filha para casa e descansar um pouco você também – Dom falou soltando uma voz meiga.
- É verdade. Hoje eu estou de folga mesmo. Mas ainda não entendo o que deu nessa menina e porque ela está assim!
- Parece que desmaiou.
- Mas continua cantando?
- Quer levá-la ao hospital? Eu a acompanho, se preferir.
- Quero sim. Muito obrigada mais uma vez. O susto foi realmente muito grande! Se puder me acompanhar eu agradeço. Mas acho melhor irmos pra minha casa. A Carmen é muito afoita assim mesmo. Ela deve estar muito assustada e por isso desmaiou.
- Não deve ter sido um desmaio completo. – Dom falou enquanto chamava um táxi.
- Entendo. Mas qual é seu nome, moço?
- Carlos Silva.
- Obrigada Carlos. Obrigada de novo.
- Vamos? Você ainda não me disse seu nome. – Dom disse já com todos dentro do táxi.
- Rebeca. Desculpe o alvoroço. Eu ainda estou tremendo, olhe.
- Não se preocupe. Não se acanhe em chorar também. Eu entendo a situação. Eu passeava à toa por ali e vi toda a confusão. Quando olhei melhor percebi o que acontecia. Fui o mais rápido que pude. Ela já estava na sexta pista.
- Mas o que aconteceu com essa menina? Ter saído da loja já foi demais. Nunca mais desgrudo dessa garota. Ela sempre foi muito elétrica!
- Acalme-se Rebeca. Ela é apenas uma menina. Talvez fosse melhor levá-la para o hospital agora, não acha?
- Não. Vamos esperar que ela acorde.


Logo que chegaram à casa de Rebeca, colocaram Carmen para dormir em seu quarto. Rebeca pediu que Dom Neon ficasse à vontade enquanto ela preparava alguns aperitivos e café. Dom Neon foi até a cozinha silenciosamente. Entrou pela culatra e disse fingindo-se tímido:
- Eu acho que vou recusar, Rebeca. Obrigado pelo convite, mas acabei de receber uma ligação ali e fiquei um pouco preocupado. Na verdade, estou bastante aflito. Preciso ir.
- Não vá. Fique. Eu só gostaria de conversar um pouco com você.
- Mas, já não posso esperar.
- O que eu devo fazer para você ficar mais um pouco? Você mora sozinho? – Perguntou Rebeca.
- Sim, moro num apartamento bem longe do acidente. Se eu ficar aqui mais tempo vai entardecer e não sei se ficarei em paz comigo mesmo.
- Ah, fique, Carlos. Eu lhe imploro. Não conseguirei ficar tranquila com Carmen daquele jeito.
- Tudo bem. Eu fico. Vou só mandar uma mensagem dizendo que amanhã resolvo o pepino.
- Você quer ver um filme comigo? Fiz download dele ontem. – Rebeca quis saber.
- Tudo bem. O que você faz, Rebeca? – Neon perguntou enquanto ela abria a garrafa de vinho sobre a mesa.
- Sou secretária de um médico.
- Esse queijo é muito bom! – Neon disse.
- Sim, comprei em Minas. Quer um vinho? – Ela perguntou.
- Sim, por que não? Que filme veremos?
- Um filme português que eu já queria assistir há algum tempo: O crime do Padre Amaro.
- É um bom filme. Forte e pecaminoso!
- Imagino. Li o livro quando era mais jovem – Rebeca falou e continuou contando a história de forma engraçada e alegre – Eu me masturbava na época com ele.
- Sério? Que loucura. O livro foi muito bem escrito. Mas nunca admiti os conflitos mentais em personagens famosos de bons escritores.
- Entendo. Eu sou cheia desses conflitos.

Dom Neon abraçou Rebeca. A luz estava apagada. Com sua hábil delinqüência, Dom beijou Rebeca e foderam a noite toda pela sala e no quarto da jovem mãe. Nos meados da madrugada, o vigarista saiu deixando a porta aberta e levando consigo algum dinheiro da carteira de Rebeca.

10 Julho 2009

Visita do peregrino ao outro mundo

[trecho de um capítulo]
- Ter a destreza para corroer as situações do tempo é inadmissível para um cidadão – Eskobar falou.
- A menos que a pessoa não seja um cidadão – disse Yussef.
- O que você é, Yussef?
- Sou um peregrino.
- Você não está nem aqui, nem lá?
- Estou aqui agora e, depois estarei lá. Não sou nem daqui, nem de lá.
- Você está cansado de atravessar o deserto?
- Sim, fiz a viagem inteira a pé durante a noite.
- Quer beber cerveja?
- Prefiro um copo de água.
- Você não parece cansado.
- É porque estou num estágio elevado. Se eu continuar assim, encho os pulmões de ar a última vez ainda hoje.
- Seus órgãos não pararam desde então!
- E é assim que as coisas desandam. O equilíbrio não deixou de ser uma idéia e, portanto, nada mais do que uma situação passageira.
- Mas necessária?
- Não necessária. Ocorre com freqüência em relação a tudo, mas não falo de necessidade, de prioridades, de obrigações. Isso fica reservado às consciências. O equilíbrio é passageiro e ocorre com freqüência, pois é um fenômeno natural das coisas que se relacionam no espaço.
- Vá pegar sua água. Eu não vou me levantar pra servir água.
- Vou.

Quando Yussef voltou da cozinha, encontrou Raquel sentada no sofá e Eskobar havia sumido.

- O que está fazendo aí, Raquel? – Yussef perguntou.
- O que mais poderia ser? Eu estava te esperando.
- Realmente, não imaginei.
- Você parece muito abatido.
- Aonde foi Eskobar?
- Ao banheiro.
- Pensei que o maldito fora embora outra vez.
- Quem vai embora novamente é você, não é?
- Sim. Passo por aqui, pois é o ponto central. Já percorri o Sul e atravessei o deserto. Vou para o Noroeste agora.
- Você pode cortar a barba, se quiser.
- Não vou. Dizem que aonde vou pessoas se sentem mais seguras com barba grande.
- Entendo. Você já encontrou um pouco do que queria?
- Eu não queria nada. Precisava querer. Acho que agora eu quero, mas ainda não conheço muito bem o que é.
- Vem aqui. Quero um abraço. E bebe logo essa água!
- Sim. Desculpe.
- Você está mais sério do que antes.
- É uma consequência. Os dias de solidão me tornaram muito seco. No norte é bem provável que conviva com menos animais e mais pessoas.
- Você e essa sua busca por algo... Ainda tem dinheiro?
- Sim, Raquel. Mas a primeira vez que o gastei foi anteontem, no hotel da cidade vizinha, para me limpar e, depois, para comprar seus presentes que o Eskobar guardou.
- Legal.
- Vocês estão se dando bem?
- Sim. Mas acho que vamos nos separar por um tempo. Eskobar está ficando velho e quer sentir vivenciar novamente algumas experiências passadas.
- Eskobar é um herói. Foi a todos os lugares. Todos o conhecem.
- O mundo dele é outro. Não se esqueça de que ele faz parte de outra realidade.
- Outra dimensão.
- Já nem sabemos mais o que é que nós somos.
- Pelo menos ainda temos o chão.
- É. Cristian se afogou.
- Suicida babaca!

Yussef desmaiou no meio da sala. Raquel e Eskobar o levaram para o hospital. Acordou dois dias depois. Já estava bem mais com um aspecto saudável. Sua voz voltara ao normal, cantante e grave, que parecia sussurrar as palavras acorrentadas umas às outras. Ele ficou calado durante seis dias e no sétimo dia resolveu conversar com Eskobar chamando-o às pressas. No oitavo dia, de manhã, saiu do hospital com suas coisas e deixou apenas um bilhete na recepção dizendo: “Hasta la vista.”

08 Julho 2009

Trecho dos textos completos do viajante Yussef, aquele que pirou

Introdução (Conspiração noturna)


Ninguém conhece os interesses que movem cada pessoa. Um sujeito inteligente só recebe o adjetivo “inteligente” porque sabe utilizar a mente para fins mais do que materiais, para fins carnais. E ele obtém resultado; então é inteligente: pensa, raciocina, cria hipóteses e, seja por intuição ou escolha, ou um e outro, ele realiza objetivos. Este sujeito, que é inteligente, é inteligente e age. Um indivíduo que possui conhecimento variado sobre diversas coisas não é inteligente até o instante em que age inteligentemente. E o verbo “agir” é genérico. Está relacionado com qualquer ação que exerça efeito. Portanto, há pessoas que pensam e possuem interesse em saber “coisas”, mas só serão inteligentes se raciocinarem utilizando tudo o que dispõem para agir... todo o conhecimento de que dispõem para agir – seja construindo uma usina hidrelétrica em Marte ou discursando os assuntos mais políticos no miolo das vidas. O agir é amplo. Os efeitos sobre cada cabeça pensante, inteligente ou não, que possua um corpo para agir, são vários e distintos. A inteligência das pessoas varia gradualmente conforme a sofisticação ou eficiência (depende apenas sob qual perspectiva a inteligência é usada para conhecer sua eficiência), intensamente variante. E as pessoas se relacionam entre si! Nasce o que chamamos a torto e à direito de sociedade. Isto é a grande loucura da vida! Não vou dizer que a loucura é viver em sociedade, nem o que é loucura, pois, a princípio, nós podemos entender que ela é qualquer subversão mais ou menos espantosa percebida na sociedade. A grande loucura também não é – também não quero dizer isso -, mas até que pode ser o fato (e isto é apenas um “fato”) de seres humanos inteligentes conviverem com outros seres humanos inteligentes.

Todos sabem que quando um alguém quer a maçã da macieira, ele vai até a árvore e arranca-lhe a fruta e come prazerosamente, agradecido de si. Se outro alguém também quer a mação, ele faz a mesma coisa que o primeiro. Numa situação a - histórica, de primeiro momento, primeiro contato, os dois sujeitos se tornam amigos originalmente, pois a macieira está farta e já quer doar às almas tanta maçã em seus galhos. Os sujeitos nem têm experiências de vida e não pensariam, ainda, em guardar para si as maçãs ou matar, ou expulsar, um ao outro para que as maçãs sobrassem apenas ao vencedor. São pessoas bacanas. Por instinto, ou por qualquer efeito de uma ação externa – e esta ninguém sabe se é exercida por alguma inteligência sobre-humana ou pelo acaso –, um dos sujeitos brincava toda vez após comer a maçã, exercitando o corpo. O outro dormia. Certo dia, havia somente uma única maçã. Os dois se olharam. Sentimentos estranhos e avessos a camaradagem esquentaram-lhes o sangue nas veias. Aquele que brincava era mais forte e bateu no outro. O outro perdeu a maçã para seu companheiro de conversa debaixo da macieira. Ambos tiveram filhos mais tarde. Aquele que perdeu a maçã ensinou seu filho a nunca comer a última maçã. E neste ponto eu devo parar com a historinha. Não pretendo construir uma idéia de verdade absoluta, portanto não posso inventar um final para o conto iniciado. Antes de tentar dar um fim – o que eu não pretendo – seria necessário dizer várias coisas sobre a situação. Não havia e nem nuca houve apenas uma macieira na região. Nem somente duas pessoas em todo o mundo. Nada pode ser desvinculado com tanta simplicidade do que realmente (ou praticamente realmente) é. Havia milhares de macieiras e centenas de famílias. Em cada árvore um grupo se reunia para comer as maçãs. Maçã também nunca foi dieta principal desse pessoal fictício. Eu poderia dizer que eles aprenderam a cultivar o pé de maçã; que os dois, que brigaram, ensinaram seus filhos a não brigarem ou se matarem antes disso; que o filho daquele que bateu ofereceu metade da última maçã quando o outro a recusou; ou que ele era alérgico à maçã e preferiu caçar desde cedo; ou que o filho do que apanhou resolveu desenvolver estudos de retórica e, com sua habilidade ímpar naquela aldeia, foi capaz de atrair um grupo, de convencer pessoas e formar uma facção que, por fim, matou o jovem filho do primeiro campeão e se tornou um líder admirado por ser medonhamente atrativo e feio ao mesmo tempo.

A treta é saber que não e fácil organizar nada, pois há, pelo menos sempre, muitos “ou...”, muitos “se...”, muitas situações semelhantes umas com as outras, mas não iguais. E o mais louco é saber isso e ainda assim tentar estabelecer a ordem perfeita. Na relação de semelhantes com semelhantes, as ações sob os níveis de inteligências que movem os corpos, (níveis pessoais de inteligência) e os resultados de cada ação são diversos e imprevisíveis. Acredito que daqui a mil anos, num mundo completamente “globalizado” (se for dês-globalizado, talvez não sirva), haverá possibilidades de “algumas previsões”, como sempre houveram – mas sempre limitadas à sociedade em questão. Porém, quanto a todas as previsões: jamais! Jamais para uma cabeça humana! E se existir tal humano, ou ele não será mais humano tal como eu entendo um humano, ou eu já estou louco e não entendo bulhufas de nada, ou será uma exceção com vocação para uma super memória combinada a um super raciocínio duas milhões de vezes mais eficiente, no termo de previsibilidade computacional, do que um trilhão de terabytes funcionando no mesmo instante para um único fim.

A grande loucura a qual pretendi chegar, para sobre ela discorrer pelas próximas linhas, é essa loucura gritante: não há sentido nas ações feitas nessa sociedade demasiadamente complexa. Não há! Não sei por que ingiro grãos de cereal e tomo leite toda manhã. Eu não sei de onde vêm os cereais. Desconheço a origem do leite. E, pelas coisas mais santas que há para cada concepção de cada um, isso seria ótimo se fosse o único imbróglio. Problemas surgem quando há vários des-sentidos espalhados pelo mundo. Por que há uma rua onde eu devo andar? Por que eu devo aceitar todas as sugestões que existem no mundo? E não importa se a sugestão é protestar e fazer greve e causar revolta até estourar uma revolução ou trabalhar feito um escroto que engorda e sua, engorda e sua, e come e trepa e bebe álcool para voltar ao trabalho contente com a diversão escassa, com as coisas todas escassas. Tudo no mundo é uma sugestão. Gritar quando sinto uma dor foi uma sugestão que acatei, porque assim pareço normal. Senti dor. Doeu. Estou no meu direito de gritar. Mas realmente precisava gritar? O problema surge quando eu grito e em seguida penso: Por que gritei? Nada me fez gritar e não ser o impulso memorizado de que devo gritar nessas situações. A dor foi grande. E se eu quisesse sorrir? Impossível. Mas e se eu quisesse? Na minha terra, eu só poderia sorrir – se eu tivesse condições para isso – após gritar ou resmungar ou ranger os dentes. O problema está em eu querer descobrir de onde vieram os cereais e o leite com os quais me abasteço toda manhã e alguém me falar: “Deixa disso, você está atrasado pro seu emprego.” Aceito a sugestão que enfocou meu emprego, meu atraso e, por último, indiretamente, colocou no meio da conversa a minha pesquisa mal iniciada e já falecida.

Terei pesadelos porque tomei a decisão de acatar uma sugestão sem pensar sobre ela. Na grande loucura da falta de sentido, falta história básica. Faltam os nexos das coisas com as coisas. Queria responder a essa pergunta, mas não vem ao caso: De que adianta eu viver, se não vivo? Não sei o que é viver. Tudo fulano me responde não explica a essência da vida, pois ele só sabe exemplificá-la associando-a com utilidades. O que sicrano me conta é que a vida, em essência, é encontrar o nirvana. O beltrano me alerta sobre uma vida estranhamente perigosa.

Entendo que era interessante ter uma dúzia de milhão de filhos por dia nua época remota. O “planeta” – diga-se o mundo humano – precisava encher sua superfície com cabecinhas de gente. Encheu: Bacana! Depois de estar cheio, basta! As ações precisam mudar. Não pode porque muitos morrem, não é? Beleza! Mas, depois de estar cheio, ter conhecimento o bastante para fazer com que as pessoas vivam até os cem anos e tecnologia, em todas as áreas, para produzir comida pra tanta gente... Por que ainda é preciso ter uma infinidade de filhos? Para criar gente que sobra? Como eu disse que tudo é sugestão, acerto dizer que a felicidade também é uma sugestão. E a felicidade constituir uma família e ter filhos não passa de pura e simples sugestão muito bem acatada. Onde está a inteligência? Qual o sentido disso? Vou falar outra coisa para fortalecer a idéia:

Parece-me que as pessoas têm a tendência de se cristalizarem. Um bebê não possui nada. Quando ele cresce, ele apreende com uma facilidade incrível as coisas novas do mundo ao seu redor. Ele não tinha nada, mas passou a ter. Uma história de sua vida começa a pesar sobre suas costas. Ele já está cristalizado culturalmente. Com o tempo, com seu desenvolvimento, no processo de sua “socialização”, o bebê cresceu fisicamente e aumentou conhecimentos que o habilita a exercer técnicas no mundo muito eficazes para coisas de diversos tipos. O que aconteceu? Cadê o problema? O problema está onde poucos enxergam e, o mais cego é o bebê crescido. O bebê entendeu que suas técnicas, e tudo o que se transformou num hábito, são bons. Ele não treinou nenhuma técnica de desconstrução, aliás, de esquecimento de toda sua história impregnada em seu ser. Ele não tinha nada. Passou a ter muito, mas não sabe trocar. Envelhece. Fica caduco, em muitos casos. Esteve se cristalizando a cada segundo de sua vida. Marionetes! Somos marionetes! Eu nunca aprendi a pesquisar de onde vêm os cereais e o leite que me alimentam quase toda manhã. Quando tento fazê-lo, sinto dificuldade! Esmoreço diante da dificuldade de agir nessa tal pesquisa porque há tantas outras coisas que me entretém, tantas outras sugestões tão bem acatadas pelo meu espírito que nem me esforço para saber o que são ao certo. Quem seria eu? Neste caso: nada! E se eu tentasse saber? Não saberia com facilidade! E é possível saber? Se ninguém sabe do ponto de vista de quem pergunta...! É tentadora a idéia de associar essa “cristalização” aparentemente natural – mas que pode ser driblada com métodos de ensinos mais ramificados – com a tendência física que tudo tem de se congelar, ou seja, cristalizar. Um dia o sol esfriará! Toda a galáxia está esfriando! A água esfria! À noite, o tempo esfria! Sem movimento, tudo esfria. O movimento exige força e a força se esvai. Vejo-me ouvindo Bach, concerto per due violino em ré; vejo-me ouvindo – porque não sei escutar música (o que não me impede de tentar aprender qualquer dia desses) – e morrendo e, enquanto escrevo essas linhas, começo a pensar num porquê. Eu poderia estar escalando algum morro, mesmo à uma da madrugada. Eu poderia estar defecando, dormindo, dançando balé. Mas estou aflito com essas inquestões mal digeridas. Eu quero as questões, mas também quero resolvê-las. Talvez acatar ás sugestões, dentre as centenas de grandes sugestões do mundo, seja uma boa idéia. Matemos a perscrutação infantil e a plasticidade do ser humano! Não sabemos viver, pelo menos eu não sei e nem os que estão à minha volta. Pelo menos no meu ponto de vista e, pelo menos, a maioria das pessoas que consigo me lembrar agora de relance.


Assim eu pensava, enquanto olhava para o céu à procura de uma estrela diferente. Uma estrela que se movesse. Uma estrela mágica. Eu pensava isso e olhava para o céu e, num pensamento mais profundo, na segunda voz, ou terceira, eu aparentemente conversava com o universo. Por um lado, eu falava, fingia escutar e entender e respondia ou perguntava eu mesmo. Por outro lado, eu dizia a mim mesmo, numa quarta voz, que eu era maluco. Que diabos eu queria ali, perdendo tempo daquele jeito? Nada! Respondi: Nada... Eu estou perguntando o que me vêm à cabeça. Faço questões automáticas e qualquer coisa, uma intuição, um pulso eletromagnético que vêm dos “memes”, ou de um espírito da Terra, ou de qualquer coisa, me daria as respostas. Hermetismo é o caralho! Eu estava absorto na situação. Poderia indagar até mesmo para que meu corpo estava servindo naquele momento. Imaginei que fosse para bombear os fluidos que faziam minha cabeça funcionar, para que a consequência daquela simbiose, que era a minha razão, existisse.

Resolvi fugir do deserto porque estav lá há um bom tempo. Estava frio. Emborquei o último gole gelado da vodka. Quase engasguei. Que loucura infernal. Saí bravo daquela toca por ter falado infernal e não saber porque falei essa palavra. Com a mochila cheia de coisas, ouvindo uma tenebrosa música de Mozart, segui na direção Norte. Ao amanhecer eu já deveria estar gastando meu cartão de crédito em algum hotel. Eu ainda não conhecia as cidades do norte. Era a primeira vez que eu cruzava um deserto a pé. Não quis olhar para o céu novamente. Era noite, estava frio, eu tinha pouca água, um cartão de crédito e muitas folhas para compor um grande diário. Minha primeira ação seria aprender a conviver com estranhos, pondo-me na situação de um.

28 Junho 2009

Jacó, os trovões de seu templo e o acaso

I


Jacó estava no quintal de sua casa, em pé, bebendo um copo de leite. Ele observava as estrelas. Estava calor. Um meteorito caiu no matagal da chácara vizinha. Ele pulou o muro e foi até o local. A atmosfera estava gelada próximo ao ponto de impacto. Havia um fedor intenso. Jacó abanou a fumaça com a camiseta. O meteorito parecia ser um grão de ervilha. O meteorito havia perfurado o corpo do cachorro que estava preso à corrente e morrera imediatamente. O pequeno objeto espacial ainda estava quente quando Jacó tentou tocá-lo. “Seu nome deve ser Zadig”, ele disse baixinho. “Assim eu me lembrarei de voltar aqui depois”.

Na manhã seguinte, antes do sol raiar, Jacó terminava de enterrar o cachorro. A chácara ficava longos dias sem cuidado. Os proprietários só freqüentavam-na nos últimos meses do ano e o caseiro passava noitadas a quilômetros da cidadezinha. Jacó cravou uma epígrafe na terra, onde resumia a história tal como havia acontecido sob seus olhos com palavras secas. “Cadê Zadig?”. A ervilha do espaço desaparecera. Ele procurou em cada centímetro através das frestas do gramado, cavoucou a terra com a mão. Não existia nada além de terra, grama e formigas. “Talvez as formigas a tenham levado. Mas, por que fariam isso?”.
“Jacó. Jacó. Ei, Jacó”, seu nome estava sendo gritado.
“Que foi?”.
“Vem aqui”.
“Não posso”, ele gritou também em resposta enquanto procurava pelo meteorito.
“Vem logo”, uma segunda voz desconhecida falou.
“Bom. Já vou indo”, Jacó disse por fim. Quando chegou a sala principal de sua casa, ele viu uma desconhecida sentada no canapé. Ela era elegante e estava bem vestida e falava de maneira muito pomposa. Aparentava ser uma excelente oradora. Jacó apertou sua mão e se sentou ao lado da esposa.
“Vejo que vivem muito bem por aqui”, a estranha disse.
“Sim”, Jacó falou.
“Jacó, a Rute tem uma proposta. Ela veio tão cedo assim...”, dizia Luciana, esposa de Jacó, quando foi interrompida por Rute:
“Eu vim bem cedo mesmo, mas o assunto exige isso. É de máxima consideração. Preciso falar com vocês dois. Represento uma indústria extremamente importante na área de tecidos e lhe faço um convite: Visitar a loja que inauguraremos na próxima semana. A data está escrita neste cartão de boas-vindas. Conto com a presença dos dois”.
“Era isso?”, perguntou Jacó.
“Sim”, Luciana respondeu.
“Desculpe-me o incômodo...”, dizia Rute.
“Entendo suas desculpas. Você quer ter tempo de passar em todas as casas do bairro. Se eu estivesse dormindo, não atenderia”, Jacó falou.
“Desculpem-me. Senhor Jacó, não precisa ficar assim. Sua mulher não parece estar brava”, Rute disse.
“Ela disfarça bem”, falou Jacó.
“Não penso que ela esteja disfarçando”.
“Pois tenho certeza de que ela está.”
“Você reparou que ela está imóvel?”, Rute perguntou subitamente.
“Como assim? O que você tem Luciana?”
“Ela não vai falar nada pelos próximos mil anos”.
“Que mil anos?”
“Os próximos”.
“Ninguém vive por mil anos”.
“Agora só resta um”. Depois de dizer isso, Rute sacou um punhal da bolsa e cortou rapidamente os pulsos. O sangue escorria e empoçava o chão de tacos. Jacó tinha um problema em demonstrar seus sentimentos e permaneceu sério diante do ocorrido. Sua cabeça tentava remontar friamente o que havia acontecido. Como ele não entendeu nada, não pôde criar sensação alguma, nem pavor, nem angústia. Estava apenas curioso.


II


Pouco depois de se levantar e ver que o corpo mórbido de Rute já estava absolutamente exangue, Jacó sentiu o chão estremecer. Sua casa passou a esfarelar-se e, gradativamente, pedaços do teto desabavam e caíam quase como que se estivessem dentro de um tanque d’água. Jacó foi ao quintal. A terra do quintal começou a amarelar lentamente. Um raio de cor amarela se destacava no espaço e tocava e acertava forçosamente o pé de manga e, a partir dessa dali, todos os mínimos detalhes, chão, destroços da casa, céu intocável se tornavam amarelos. Jacó pulou o muro. Somente ele mantinha a cor viva de um corpo quente. A partir do corpo de seu corpo, irradiando em sua volta num raio de dois metros mais ou menos, por onde ele andava as coisas retomavam as cores originais. Quando ele se distanciava do local, tornavam-se amarelas novamente. Ele percebeu que apenas o sítio onde o meteorito caíra também não tinha tomado a cor do sol. O mundo inteiro se tornara uma maquete onde existia apenas uma única cor, a amarela, e o jogo de sombras que delineavam as formas, ainda que Jacó tropeçasse em muitos obstáculos, pois era complicado percebê-los nitidamente.

Jacó resolveu pular o muro de volta para sua casa. Se ele se aproximasse de Luciana, talvez ela voltasse à vida. No meio do caminho sentou sobre o muro que separava seu quintal da chácara alheia. Havia todas as cores de antes no lugar do meteorito e onde ele enterrara o cachorro. Ele olhou para o céu, nem quente, nem frio, nem agradável, nem medonho. “Mas que diabos!”. Uma árvore começou a crescer onde o meteorito caíra. “Então era uma semente. Mas que coisa! Espero saber o que acontece.”

Jacó desconhecia a árvore. Ela cresceu rapidamente. Sobre o muro, ele percebeu que a árvore, que dobrava a altura e a largura a cada minuto, estruturava-se em várias camadas. Havia, pelas suas contas, dezessete copas quando ela parou de crescer. Em praticamente todos os galhos nasceram frutos dourados, que se destacavam no mundo amarelado. A árvore tinha cor de árvore: tronco marrom-escuro e folhas verdíssimas. E ela tinha os seus frutos dourados, semelhantes a figos gigantes. Jacó ouviu trovões. “Mas que diabos! Vai chover agora?”.

Preparando-se para experimentar devolver a vida à Luciana, Jacó avistou um deserto sem fim de amarelo. Não existia céu. Não existia chão. O espaço era um espaço sem dimensões. Ele estava praticamente num desenho de cartolina amarela. “O que devo fazer? Talvez eu sinta fome daqui a pouco e precise dar um jeito”, pensou naquele instante. Antes, porém, de agir, Jacó deliberou sobre as possibilidades. Resolveu, enfim, descer do muro, o qual também desapareceu com a saída. “Agora não existe mais nada ao meu redor, a não ser eu e essa cor amarela, a árvore e a gravura”.

Jacó foi ao pé da árvore. Perguntou a ela se ela o entendia. Não escutou resposta. “Talvez... se eu desenterrasse o cachorro...”. Jacó, ao tentar desenterrar o animal morto em sua lembrança, encontrou a placa de madeira com sua frase alheia a tudo, simplesmente solta. “Bom, agora eu só tenho essa placa nas mãos para me recordar das coisas do mundo e essa tal árvore que nunca vi antes na vida. Não vou mexer na árvore por enquanto. Talvez, se eu andasse e me distanciasse daqui, surgisse algo novo.” Jacó caminhou para longe daquele ponto. Quanto mais ele caminhava, andando de costas, mais sua calma aumentava e a árvore continuava à mesma distância dele. “Eu devo estar drogado. Se o meteorito era um meteorito, pode ter trazido um gás ou alguma coisa desconhecida que me causou esse efeito. Talvez as pessoas até estejam me assistindo no mundo de verdade e eu não perceba nada. Se for isso, então já levaram meu corpo para algum hospício. Mas eu me sinto tão leve. Isso até que é bom.” Jacó deixou a epígrafe tombar. A epígrafe, que já desapareça de suas lembranças, desaparecera da existência.

“O que eu devo fazer? Por que essa árvore está aqui? Por que eu estou aqui? Vou morrer algum dia? Como pode haver chão se já não existe mais coisa qualquer, além da árvore, de seus frutos dourados e essa cor amarelada que cansa meus olhos?” Após a última pergunta feita em voz alta já nem chão havia mais. Jacó tentou tocar a árvore, mas seu corpo já não existia, talvez, há um bom tempo, ainda que o tempo também não existisse mais. “E agora? Onde estão minhas mãos? Estou tão leve. Só me resta a cabeça? Melhor dizendo que não me sobrou nada porque não possuo mãos para tocar minha cabeça.”

Jacó, mesmo assim, aproximou-se da árvore, e abocanhou um dos frutos. Instantaneamente a profusão de imagens que rodava como um filme surreal e editado com todas as cenas possíveis, havendo cortes intempestivos, apareceu diante de seus olhos. “Que miscelânea. É melhor organizar isso”, ele disse. Pouco a pouco Jacó refez seu corpo. Depois, resolveu imaginar-se sem corpo, pois era mais fácil agir. Apenas em espírito, ele reconstruiu cada pedaço do mundo e aonde quer que ele fosse o mundo acontecia. Onde ele não testava intencionalmente o mundo, parado no tempo ainda. O mundo esperava sua passagem para acontecer. Jacó brincou de rodar as imagens, como num filme, por bastante tempo. Aparentemente, Jacó ainda passeia pelo espaço que ele compôs com suas cores e suas idéias. Onde ele estivesse o mundo se movimentava, não à sua vontade, mas ao seu desejo; não sob suas ordens deliberadas, mas somente por ele existir e pensar. Cada piscada de olho poderia representar um fim e um novo começo nas coisas que aparentemente aconteciam. O mundo ainda se tornava amarelado a cada fruto não digerido. Jacó ainda ouvia alguns trovões, embora não soubesse de onde eles surgissem.

12 Junho 2009

Fossa das insignificâncias

Alberto saiu à tarde porque levantou depois da hora convencional do almoço. Para falar em verdade, ele não sabia mais o que eram as convenções, aliás, sabia o que eram, pois as conhecia, mas não as praticava naturalmente. Alberto olhava o relógio quando foi abordado por uma mulher maior que ele; uma mulher equina. Ela retirou bruscamente a mochila de suas costas. "Ei, moça, que diabo é isso?", ele gritou e segurou firme em sua mochila já nas mãos da outra. "Solta minha mochila, idiota", ela disse cerrando os dentes. "Essa mochila é minha. Larga a mão". Quando Alberto conseguiu retirá-la da ladra, esta berrou a todos os cantos: “Peguem o ladrão. Ladrão. Ele roubou minha mochila." Alberto entendeu que era uma desvairada, totalmente sem noção, com dores psicológicas muito fortes. Ele ainda perguntou, antes de virar-se, se estava tudo bem. "Está roubando minha mochila", ela gritou mais uma vez.

Ambos esperavam o semáforo fechar a passagem dos carros para atravessaram a rua, pela faixa de pedestres. As pessoas rodearam-nos e dois guardas civis apareceram. "O que está havendo?", disse um deles, com um bigode grande sobre os lábios.
"Ele roubou minha mochila, seu guarda", ela falou com ímpeto.
"Ela diz que eu roubei sua mochila. A mochila é minha há mais de três anos", disse Alberto, esculachando a situação e vendo-se num momento um tanto quanto vexatório. "Devolva a mochila para a moça", o guarda falou seriamente.
"A mochila é minha", Alberto tornou a falar.
"Desconfio", disse o guarda.
"Então tudo bem. Segure a mochila aí. Vou dizer o que há dentro dela."
"Então diga", o segundo guarda falou.
"Há uma blusa marrom, um caderno de dez matérias, um remédio pra dor de cabeça. Minha agenda está aí dentro! É impossível essa mochila ser dela", Alberto falou.
"Se a mochila não é minha, acha que eu não tenho bolsa por quê?", a mulher disse. Continuou: "Eu esperava o sinal abrir e ele arrancou de mim com tamanha força que só pude gritar. Provavelmente há testemunhas."
"Alguém aqui viu o caso?", o policial de bigode perguntou. Mas ninguém respondeu. Até que, por fim, uma pessoa da multidão falou que não estava atenta no exato momento.
"Pois bem, não sabemos o que aconteceu aqui. Tudo fica limpo se você devolver as coisas dessa senhora, meu amigo", o segundo guarda falou com alguma resignação, olhando para a desaprovação do bigodudo.
"Mas... eu devo ficar sem minha agenda, meu remédio?", Alberto disse.
"Fique calmo. Nós conhecemos esse joguinho. Se insistir, você terá que nos acompanhar até a delegacia. Ok então?".
"Que maldição. Nada okay", Alberto respondeu. O guarda mais alto, de bigode, grudou a mão no pescoço do jovem enquanto o outro punha a algema.
"Obrigada, seu guarda", falou a mulher, tomando a mochila nas costas e atravessando a rua.

Os guardas deram alguns socos na barriga de Alberto e o deixaram a cinco quilômetros do ponto do roubo, todo espancado, com os lábios cortados e manchas de sangue na camiseta branca. Ele ainda tinha a carteira e a chave de casa para sua felicidade. "Por essa eu não esperava. Cacete!", resmungou sentado no banco de uma praça, aos farrapos.

Com o dia perdido depois de uma épica aventura desonrosa, decidiu voltar caminhando pelas calçadas tumultuosas. Ao atravessar uma rua de terra – pois estava num bairro bem afastado do resto da cidade –, uma rua antiga e descuidada, viu ao fim dela, a mais ou menos cem metros, um senhor dentro de um bote, que remava alucinadamente. "Seria alguma loucura?", pensava Alberto. Na outra rua, olhando para o mesmo lado, pôde avistar o mar aberto. Foi até a praia e ficou a vistoriar as ondas bem de perto. Ao seu lado esquerdo, bem próximo, ele viu duas meninas beijando um garoto. Eles provavelmente tinham entre doze e quinze anos, não estavam com trajes de banho, pelo contrário, todos usavam maquiagem bem pesada no rosto e pareciam bem à vontade com suas vestes escuras que isolavam todo o corpo até o pescoço. Alberto olhou pra sua direita e viu algumas pessoas jogando vôlei. O dia estava belo, o sol bastante forte e, contraditoriamente, o tempo estava imediatamente parado. Tirou as calças, perguntou ao casal promíscuo de adolescentes se poderia deixar aos seus cuidados, e, tendo ganhado confiança, pulou no mar.

De volta ao caminho para casa, sem ter nenhum afazer planejado, Alberto passou na padaria, comprou dois pães franceses e uma nova agenda. Pouco antes de subir, viu pelo no espelho do elevador o reflexo da mulher que roubara sua mochila. Ele subiu, desceu e a encontrou a sua espera. Ela entrou junto a ele em seu apartamento. Explicou-lhe que tinha um sério problema mental e que o roubo havia sido uma cena bem montada, pois algo dizia que a mochila deveria sair das costas de seu dono por algum tempo. "Você me sacaneou, filha da puta", Alberto disse, tomando chá ao lado dela, sentado no mesmo sofá, em sua casa.
"Eu tinha meu direito", a mulher disse.
"Agora está tudo bem, não é?", ele perguntou um tanto aflito e ainda estranhado por causa da situação.
"Não. lembre-se de mim. Eu me chamo Javaína." Depois de falar o nome, ela se dirigiu à janela, abriu-a e pulou do nono andar. Foi incrível. Alberto correu ao seu alcance, mas não conseguiu detê-la. "Incrível", ele repetiu e repetiu por um curto tempo transcorrido. Abriu a garrafa de vinho que tinha no armário, tomou-a por inteiro com pequenas goladas na taça. Depois, ele mesmo resolveu pular. Enquanto não chegava ao chão, numa fração de dois segundos, reparou que não havia corpo algum.

02 Junho 2009

Em termos de casta paz

28/05/2009

Como se fosse uma coceira no pé, sutil e constante, que eu não pudesse coçar. O anoitecer tombava sobre as pessoas, impermeável, invariante. Quem lograsse – e com certeza muitos o faziam naquela hora – avistar dinheiro perdido sairia no lucro. Em frente à loja de frutas naturais, ou a frente da barraca de frutas, onde a escolha dependia apenas do público, estava um velho senhor em pé, batucando sua bengala na calçada, apoiando uma caixa de sapatos com meia dúzia de moedas pequenas e tocando gaita. Velhas senhoras, feias, e feias, passavam adiante seus olhares para uma vista longe. Velhas, velhos, sacanas, sarcásticos, irônicos, comuns, incomuns, preguiçosos, cansados, enxutos, robustos, moços, moças, jovens do geral quadro no mundo desconhecido, todo tipo de gente, passava não passeando, mas indo, com as vistas apontadas ao longe; um longe aparentemente inalcançável. O velho de botina preta e roupa de velho, calça leve, camisa leve e um agasalho mais pesado, tocava a gaita. Era alguma sonoridade proveniente das regiões nordestinas onde há forró, pé de serra e rima bonita a qualquer hora. Era uma feliz melodia, apesar dos olhos vermelhos daquele homem decrépito, velho, negro e encurvado, que batucava a bengala com habilidade suficiente para fazê-la rimar com o sopro da gaita. O velho não era uma flor, nem as pessoas eram abelhas.


Dentre os desconhecidos que se perdem, sem âmbitos, habitualmente desacomodados num meio-termo, infiltrados ou na loja de frutas naturais, ou na banca de frutas, ou na lotérica ao lado enquanto testam a vida, eu passeava estranho aos passos ligeiros dos outros indignos de si. Eu tinha cinco reais no bolso da camisa. Observei o tempo que eu havia levado até chegar na calçada da loja de frutas. Eu tinha em mente um plano de comprar as frutas e voltar para minha casa a poucos metros de lá. Observei o velho negro, com roupas desfiadas, batucando sua bengala, dei de costas, mas fiquei parado fingindo ler o anúncio de descontos à entrada da loja. Fechei os olhos. A música era boa, a melodia, encantada. Realmente, e para minha felicidade, que já não ouvia nada tão natural e belo ao mesmo tempo, a gaita estava afinadíssima. Entrei na lotérica, paguei uma aposta com a nota de cinco e dei o troco ao senhor. Já de costas apenas ouvi num interlúdio seu agradecimento que, talvez, fosse sincero.


Mas não importava ser sincero ou não. O senhor da gaita e da bengala poderia ser sincero e saber coisas que eu desconhecia, ou o contrário disso. Por exemplo, no caixa de supermercado, eu diminuí a corrida do meu tempo e imiscuí uma espécie de paz na cabeça. Por isso, consegui me atentar com perspicácia elevada ao pessoal da loja. Retirei um tomate caído no chão. Nem sempre faço generosidades, mas minha perspicácia me ofereceu a idéia de que alguém poderia pisar no tomate. Não quis ajudar a loja, mas evitei para outra pessoa um acidente provável. Pouco depois de pegar as bananas, as maçãs e um pão de forma, dei minha vez de atendimento no caixa à uma senhora bastante idosa. Um dia eu também serei idoso, apesar da minha inclinação ao suicídio.


O velho olhou para mim quando saí da loja de frutas naturais. Talvez ele tenha me reconhecido, pelo jeito de andar, pela massa corpórea ou por outro motivo que eu não conheça ou me lembre de destacar. Eu o agradeci pela boa música e ele continuou tocando, e eu tomei o rumo de casa a poucos metros de lá.


De Eskobar C. B.,
com aquela irreverência

29 Maio 2009

Monólogo atemporal (Segunda carta)

01 de Janeiro, 01

Do deserto árido
Para Sebastiano

Um milagre aconteceu: você acordou. O que era aquele sol? E aquele vento a esfregar sem dor a pele do rosto? E o que era a coceira nas nádegas causada pela areia quente? E a sensação toda inversa, ora tranquila, ora exaustiva? De um negro avisível para um mundo preenchido com inúmeras, incontáveis variações. Perguntava-se pertinente. Havia areia entre os dedos dos pés e nos lábios, trazida pelo vento e colada pela secura. Os olhos não conseguiam visualizar o clarão no céu diretamente. A única coisa que permanecia do amundo profundamente escuro era seu nome: Se-bas-ti-a-no.
Você iniciou uma caminhada na direção em que o sol se punha. Como sabia que rumo tomar? Ora, você não se lembrava, mas recebera muitas informações antes do despertar. A informação era tanta que, quanto mais você caminhava sobre aquelas dunas de areia, seu corpo sugava mais atenção de você e gradualmente não era possível lembrar tudo. Você era capaz de manipular uma linguagem, possuía um corpo sólido e vivo e idéias que se formulavam sozinhas, durante a caminhada solitária. Mas sua história se principiara no momento em que os olhos foram abertos e o azulão do céu sem nuvens foi visto.
Quanto mais você se esforçava por andar, sabendo que chegaria a um lugar diferente, mas desconhecendo como seria o tal, você cansava e perdia o fôlego. Recuperava-o como que por mágica e tornava a cansar. Num momento estranho suas forças, completamente esvaídas, deixaram seu corpo tombar no chão macio. Aquela prostração lhe acionou um sentimento avesso à paz de até então, um sentimento sem descrição, que lhe inchava as veias e enrijecia o corpo, estimulava-o a não gritar, mas resmungar enfaticamente palavras sem significância, embora deveras sensíveis. O mundo pareceu rodar e você quis continuar a todo custo. Pelo esforço excessivo, a raiva causada com a prostração e o desmaio posterior, você esqueceu praticamente todas as informações primevas. Restara-lhe, além do corpo nu, um vocabulário pobre, um tipo atlético e dois olhos curiosos.

Um choro de bebê o acordou. Você soube, no mesmo instante, que a criança clamava, faminta, pelo leite da mãe e por isso gritou: - Ele está faminto! Acudam-no. Voltou deitar-se, com as pernas ainda enfraquecidas. Você tinha uma espessa barba e estava mais magro. Mal conseguia se mexer. Em meio ao choro do bebê, você perscrutava na memória como soubera aquilo. O que era a fome então? E o choro em si? O que eram as transformações pelas quais passara seu corpo? Uma mulher vestida numa túnica e com um avental por cima entrou apressada. Seus olhos bateram em você por um mero segundo, mas você percebeu isso como se fosse algo a se preocupar. O que era aquele rosto? Por que tantas expressões? Nada disso você entendia com clareza, embora, de certa forma, parecesse familiar, no fundo da mente. O coração quase saltava pela boca. A mulher se sentou na cadeira ao lado do berço, retirou a touca branca que usava, abriu um zíper na túnica e o deixou o bebê tomar o leite. Você ficou olhando para o rosto da mulher e perguntando-se se ela deveria ter um nome.
- É um zíper especial. Mandei fazer na Rute, uma amiga minha. Assim posso cuidar do bebê rapidamente quando preciso voltar pros meus afazeres – Ela falou sorrindo. Sua voz era de veludo. Você recebeu na cabeça a idéia de um veludo verde a roçar a sua face e depois, levemente, todo o corpo. O tempo não andava e quanta estranheza havia! – Você tem algum nome?
- Sebastiano – disse secamente, produzindo a primeira expressão de afeto no rosto, ao olhar o bebê que se acalmava e parecia sorrir com os lábios encostados no seio da mãe.
- Sebastiano. Eu me chamo Vera. E este garotinho aqui é o Luan.
- Luan – você repetiu. Uma sensação de participação subia pelas veias da garganta e você queria tomar um pouco a palavra. Primeiro, para fazer perguntas insensatas, depois, um pouco mais pensadas, até que tivesse aprendido a arte de investigar. E, segundo, você queria saber quem era ela, coisa que nunca foi muito bem explicada – Então é Luan. É um garoto que está aprendendo a sentir essa vida.
- Todos os bebês começam nessa fase – Você ficou estupefato com o todos. Não esperava por aquela palavra.
- O que é isto? Por que antes de eu fechar os olhos, e de cair, e de sentir algo se quebrando aqui dentro, vi um céu azul e agora vejo isso? Desculpe, mas nem sei por que peço desculpas. As palavras estão fluindo. O que é isto? Que lugar é este? O que você faz?
- Fique calmo. Você está muito atordoado ainda. Precisa se alimentar bem.
- Por que – perguntamos atônitos.
- Porque você esteve adormecido por quase dois dias. Meu marido o encontrou ontem com o corpo quase tombando pra dentro do precipício. Lá embaixo tem um lago, sabia? Se não morresse da queda, morreria afogado – Morrer! Você ficou pensando na palavra morrer – Ele encontrou você. Viu que estava nu e muito abatido e o trouxe pra nossa casa. Eu ainda estava no trabalho. Quando cheguei levei um tremendo susto. Você precisa se alimentar bem.
- Entendo. Estou enfraquecido – murmurei.
- E como está. Você parece ter fibra, mas perdeu muitos quilos. Precisa se revigorar. Ontem meu marido saiu perguntando pela vizinhança e alguém disse que viu um carroceiro o jogou e sumiu na neblina da manhã. Ele encontrou o tal carroceiro e descobriu que você parecia um bêbado que pedia água. O carroceiro, então, disse que largou você, pois estava com muito medo e que não pôde deixar dinheiro algum porque você não tinha nenhuma roupa.
- Eu preciso comer, então?
- Sim, precisa, e muito. Ah, você perguntou o que eu faço também. Eu sou professora de português no ensino fundamental.
- O que fazia antes de vir pra cá?
- Como assim? Ah, pra cuida do bebê? Eu estava na minha cozinha particular fazendo pão caseiro.
- Então o cheiro vem de lá! – você exclamou.
- Sim. Este vai ficar especialmente muito bom.

Ela colocou o bebê adormecido no berço novamente e pediu para que eu dormisse mais um pouco também, pois depois eu comeria um mingau bem fortificado. Em seguida, saiu do quarto, fechando a porta. Você queria entender, pelo menos entender, as questões que sua cabeça formulava. Mas, alguns minutos depois, os olhos pesaram e você dormiu novamente. Tudo era negro, como algo que lhe parecia familiar. Era agradável. Suas sensações se multiplicavam ao longo do corpo e era muito bom.

27 Maio 2009

Monólogo atemporal (Primeira carta)

Prefácio

Não há possibilidades de escrever sobre tudo. A única sabedoria justa que eu possa ter – e quis ter – é sobre meu corpo, minha mente, minha alma. Por isso, escrever sobre mim é, ao mesmo tempo em que ludibrio milhares de verdades desconhecidas, escrever sobre tudo. Escrevo sobre mim aqui.



Primeira carta a mim - Sema data ainda

Você se chama Sebastiano. Eu o ajudarei, ao longo das próximas indefinidas datas, a construir você após os sonhos que não consegue recordar. Portanto, a primeira coisa que você deve conhecer é seu nome: Se-bas-ti-a-no. Você possui apenas este nome e nada mais além desta palavra. Não existe um corpo seu, nem pensamentos. Sua memória, sua alma, sua existência rodopiam em volta de Se-bas-ti-a-no.

Num segundo qualquer lhe dói sua cabeça. Sangra o nariz Você está deitado com os olhos abertos, junta as mãos sobre a barriga, seu corpo está esticado. Abre os olhos, mas não há dimensões. Tudo o que você enxerga é uma negritude invariável. Tateia-se, descobre a carne, a pele, experimenta as articulações. Parece flutuar no éter.

De repente seu corpo começa a tremer. Está frio. Você se esfrega para aquecer o sangue. Não tem pêlos, está nu; encolhe. Há gravidade, há chão, você tem um peso. Sua massa significa algo. Aprende a piscar os olhos quase secos, congelados e cegos. Um barulho atinge seus ouvidos e os machuca, mas você não consegue se esconder, não consegue fugir ao som infernal. Um agudo profundo. O efeito lhe causa tremor contrário ao tremor do frio. Sangra o nariz, escorre sangue pelas têmporas. Você descobre a voz tão enfaticamente a ponto de quase perdê-la.

O primeiro grito forma uma estridência uníssona e depois, em meio ao sangue que escorre e preenche de vermelho o chão invisível, rodam em sequência, a uma velocidade indescritível, bilhões de palavras em sua cabeça. Todas parecem se ligar a Sebastiano. Cada letra, cada sílaba, frase. Você parece inventar o canto em meio a profusão de linguajares. O que havia, que antes não existia, era a partir dali, um corpo atlético, mas ferido, capaz de sentir o frio e de esquentar-se, ouvir o barulho e fugir a ele, produzir sons. E você pensava as palavras e modificava e as agrupava em classes. Todas se ligavam ao nome Sebastiano. Você não era homem, nem mulher.

No escuro profundo você continua sangrando e grita muitas vezes, como que para afastar uma espécie de dor. Abre os braços, equilibra-se em pé. Levanta a cabeça em relação ao corpo. Sua lógica era insuperável e algo, no fundo imprevisto de sua mente carregada, você pergunta “Está pronto? Está pronto?” e questiona-se “Estarei pronto? Estarei pronto?”. Não há resposta, mas é preciso escapar ao nada. Você não encontra significados, pois não existem. Você parece querer significar, talvez por uma imperfeição da harmonia, ou um erro fatal das mutações universais. “Que experimento serei eu? Você é um experimento? Não sei. Há de haver significados. Meu sangue cria a rapsódia. Com meu sangue chorarei o infinito além de mim.”

Sebastiano, o nome, se perde e cristaliza-se em aglomerações confusas de linhas entrecruzadas que não formam nem uma reta, nem retas, mas estruturas sem complementos que se ajuntam à força.

Da poça formada pelo sangue aglutinado aos seus pés surge outro corpo. Sebastiano aquieta-se. Você, calado, encosta o queixo no ombro do outro e repete as palavras iniciais. Você narra ao outro sua história e vê nele o mesmo fenômeno. “Que poder!”, você pensa. O outro, quando o vê, tapa os olhos com a mão. Você está seguro dos acontecimentos. Sebastiano, nem homem, nem mulher. Sebastiano, o primeiro, funde-se ao segundo. O corpo se faz diferente. Há membros sexuais. Há clarões longínquos no negro confim daquele espaço. Há sombra, um chão da cor do todo, escuro impenetrável, intragável. O mesmo barulho, o mesmo estouro e novamente o sangue escorre. Parece não haver fim à tortura sanguinária.

Um terceiro Sebastiano surge e de seu cuspe aparece um quarto. Os dois outros se fundem e o fazem com o dobro da velocidade com que foi feita a primeira fusão. O fenômeno se repete várias vezes. O primeiro se angustia pelo segundo e, este, por todos que pode ver, até que surgem Sebastianos desconhecidos pela incrível quantidade de corpos espalhados. Um terceiro, híbrido, funde-se a outros que mais antigos que passaram por modificações. Alguns se aproximam dos clarões, outros ficam no mesmo local. O primeiro já se perde na loucura de si e é colocado num altar. O chão é feito de cabeças. O céu se forma com seu corpo estendido sobre os outros, o qual reflete a luz difundida pelos clarões distantes. Todos sentem e vêem os acontecimentos que parecem fluir mais rapidamente a cada nova e novas e distintas fusões.

Sebastiano, elevaram você além de seu corpo petrificado. Surgiram espécies de composições corpóreas muito variantes e incomunicáveis. As bilhões linguagens que se formaram transcendiam ao princípio. As cristalizações, surgidas pela junção da multiplicada massa – e que não parava de multiplicar-se – ajustavam previsões. O primeiro Sebastiano, você, eu, era sempre jogado para um posto acima, encontrava-se sempre isolado dos outros. Além do céu era seu limite, sozinho. E os muitos de você se encontravam, formulavam-se, como em si foi feito uma vez.

Sebastiano, você abriu os olhos. As cabeças se tornaram sólidas. Você ardia abaixo de um fogo. Não sangrava facilmente. Um suor desconhecido o incomodava. Era uma parte de um todo. Ali você estava, transmutado, além de seu limite, sem fôlego, deitado na terra seca. Sebastiano é seu nome. Suas lembranças, não as deve deter, pois eu, nós, você as construirá. Este é o sentido de observar tudo.

26 Maio 2009

BOA IDADE

Branco bebia cerveja encostado ao balcão. Era um velho bem conhecido na pequena cidade do serrado mato-grossense, chamada Ruinouro. Restavam-lhe alguns fiapos na cabeça da outrora cabeleira amarela e lisa. Fiasco entrou no bar, era conhecido como o grande bebum. Um sujeito magricela que enverga para os lados com o peso do corpo. Bateu nas costas do velho Branco, que vestia uma casaca de linho. Era noite e estava bem frio; era inverno e havia muitos riachos ao redor da cidade.
- Noite boa, seu Branco – Fiasco falou.
- É – Branco respondeu, sem tirar os olhos do copo quase vazio.
- Não vai de pinga hoje, homem?
- Hoje é quarta-feira. A aposentadoria já vai acabar; fim do mês.
- Me vê um copo, Basílio – Fiasco pediu ao sujeito atrás do balcão que estava sentado, seu Basílio, que era tão velho quanto Branco.
- Vê se pega aí, rapaz – Basílio disse.
- Ara. Sujeito empacado – Fiasco comentou.
- Pegou peixe hoje, ô Fiasco? – Basílio perguntou.
- Peguei, mas não foi muito. O rio já esvaziou, mas a peixaiada não acordou pra vida ainda. Bando de vagabundo.
- É. A sorte diminui com o tempo – Branco comentou.
- Que diminui o que? Eu vou é tomar é uns gorós pra ver o resultado disso – Falou Fiasco.
- É só o que você faz, né? – Basílio disse.
- Larga de conversa e vê logo esse copo e mais uma garrafa aqui pros companheiros – Fiasco disse.

Tochymaya, mistura de japonês com índio, era um peão pinguço. Entrou no bar em direção aos tacos de sinuca. Pegou um e chamou Fiasco pra disputa, que aceitou o convite. Branco falou:
- Vou embora dessa pocilga. Até mais Basílio.
- Até.
- Já vai, seu Branco? Toma mais um pouquinho aqui com a gente – Tochymaya disse.
- Já vou. Tchau.

Branco atravessou a avenida, seguiu por uma ruela até o fim da quadra. Bateu palmas. Algumas galinhas correram na direção do portão. Estava escuro. O poste não tinha luz. Dona Maria abriu a porta para clarear o caminho e seu Branco entrou. Ela fechou a porta. Os dois se sentaram no sofá de couro velho na saleta. A televisão estava ligada, mas ninguém dava atenção ao programa. Branco desviava o olhar da velha meretriz. Por fim, ele disse:
- Sabe o que é, Maria?
- Sei, ué.
- Eu vim pro fim da idade.
- Eu entendo, Branco. Eu já não tenho menina mais. A imundice pegou mina clientela. Nem o boteco consegui tocar.
- É, eu sei. Tem toda essa velha história.
- Você veio pra tentar.
- Vim. Abre as pernas.
- O tanto que eu conseguir. Já sou velha como você.
- Quase não consigo. Se eu morrer também, que morra.
- É.
Branco definitivamente não foi mais visto no bar de Basílio. Depois do encontro soturno com dona Maria, os dois se ajuntaram. Branco se tornou um aidético. Ambos experimentaram nadar uma última vez pulando da ponte do rio dos papagaios.

24 Maio 2009

TRAJETO DESENLACE





Ao voltar pelo mesmo caminho
nunca o vejo como o via,
surge em mim um relampejo
uma tristeza,

uma alegria,

sanfonação de sensações;
ou, nada disso; nem um pouco disso...
... apresenta-se o remanejo,
uma nova trilha
sobre a velha trilha,
um traçado estranho,
abarcado nas pedras antigas

que eu pintara

com cuspe e sangue

circulares e quentes no cerne da alma.

É o desconhecido que reconheço.
Aprender exige desconfiança,
exige ferimentos,
requer massacre e tortura.
Pois não há felicidade,
nem contentos,
nem sentimentos alguns
senão houver intervalos,
trancamentos, sanções
em tempo,

em tempos.

Surgem bolhas de idéias,
cheirosas canções harmônicas
numa fileira de superstições
para dizer: - E há o fim.
Depois, sabe-se

que não houve (nunca?) algum fim,
nem ouve-se falar de um destino.
Há o começo.
Depois, há o tempo que é eterno
e o sono infinito,
mas não antes de escutar,
com exímia atenção adquirida,
as baladas noturnas
sob a claridade de todo o redor.
E nem há fim...
nem há começo...
nem presente, nem passado, nem futuro...
há um haver, um ser,
um estado de querer
e a névoa fina sobre tudo.


ANTES DE EMPACOTAR


Eu estava deitado na cama. A única luz era a do abajur leviano. Fazia uma claridade frouxa, que cansava meus olhos de leitor. Até aquele instante o quarto estava em pleno silêncio, as paredes eram imóveis, macia era minha cama e eu, ajeitado para tombar e dormir, já tomava distância do mundo físico. Num outro instante, sem entremeio, uma baladinha sinistra, seguida pelo ribombar de centenas de tambores africanos com um acompanhamento especial de flautas escocesas, disparou. Parecia tudo desabar, levantei-me de súbito sobre a cama, quase bati a cabeça no teto baixo daquela alcova que cheirava a porco frito. Na sexta página do jornal vi meu nome. Que diabos meu nome fazia ali? Corri da esquerda pra direita e já não entendia sinal algum. Quem diabos eu era pra ter meu nome no jornal que lia toda noite? Que diabos acontecia?

Fui à cozinha, servi um copo d´água e o deixei cair antes do primeiro gole. O chão estava frio, era inverno. Naquela noite, em particular, geava. Eu havia perdido completamente a concentração. Botei as meias grossas nos pés, enfiei os dois sapatos de sola emborrachada e saí com pressa sem trancar a porta. Eu sabia por que meu nome estava no jornal e por isso mesmo não consegui ler o maldito texto.

Cheguei a casa do maldito patriota Joaquim. Era um rapaz de trato fino, sociável, parceiro. Bati várias vezes e com força em sua porta. A mulher quem abriu. Sem dar atenção a coitada, entrei forçosamente, furando a calmaria daquela madrugada gélida. Fui ao escritório do Joaquim. Ele trabalhava na tradução de dois artigos acadêmicos do alemão para o português. Não se se era porque ele estava anestesiado pelo excesso de trabalho ou porque era um maldito filho da puta que levantou seus olhos sarcásticos, com uma leveza fora do comum para o momento, pitou no cachimbo, repousou-o sobre uma pedra de cristal, juntou as duas mãos apoiado com os cotovelos sobre a mesa, fechou os lábios com ironia e eu me acalmei. Luciana perguntou o que era toda aquela agitação. Eu disse que não era coisa importante. Ela voltou para a sala, onde assistia a um filme de terror.
- Joaquim. Que bosta é essa? – Perguntei.
- Que bosta? – Ele falou com secura.
- Essa bosta – Ergui a mão e nem me dei conta de que não segurava a folha do jornal – Você tem o jornal de hoje?
- O seu jornal noturno?
- Caralho – Não sabia se brigaria com ele por ele saber até mesmo meus hábitos noturnos ou por ele saber do que se tratava e não ter dito nada antes – É, porra!
- Bom, como você sabe...
- Sei é o caralho, Joaquim. Eu vou ter que ir embora dessa pocilga.
- Vai nada! A coisa foi feita com tranquilidade.
- Você tem fodido com sua mulher, Joaquim? Sabe o que é foder alguém?
- Não precisa gritar. Já é bem tarde, eu preciso acabar com a tradução de um artigo em alemão; é difícil, é complicado e exige paciência. Vá até meu quarto e peça pra Luciana arrumar o quartinho lá pra você.
- Caralho. Qual quartinho o que? Eu vou tomar umas doses de vodka nessa cidade. Depois disso...
- Você está nervoso por conta do texto no jornal?
- Estou, porra. Joaquim! Joaquim? Por que você botou aquela merda lá? Era só não colocar, rapaz.
- Eu achei interessante.
- Preciso dum copo de água.
- Tem na cozinha. Você vai dormir aqui em casa hoje. Beba a água, arrume sua cama com a ajuda de Luciana. Eu ainda tenho muito trabalho pra fazer.
- Veado!

Fui à cozinha. Tomei um copo d’água. Abri a porta do quarto em que Luciana dormia e falei: - Lu... Luciana! Onde eu encontro roupas de cama?
- O que você quer, porra? – Ela falou.
- Roupas de cama. Vou dormir aqui hoje.
- Como assim? – Ela acendeu a luz. Vestia uma camisola de seda. Calçou as pantufas, xingou mais um pouco e pediu pra eu segui-la – Por que você veio aqui desse jeito?
- Pra brigar com seu marido veado.
- Veado não, po.
- É um veado filho da puta.
- Concordo em algumas coisas com você.
- Você sabe o que ele fez?
- Nem me passa pela cabeça. Já viu que horas são, seu idiota?
- Desculpe, Lu. O Joaquim mascarou. Ele publicou no jornal uma babaquice sem tamanho. Fiquei muito nervoso. Vim pra cá e acho que não tranquei a porta. Nem estou com as chaves. Putz.
- Você é maluco.
- Que merda.
- Lá é seguro. Ninguém vai pensar em assaltar aquela maldita pocilga. Mas conta agora. O que ele fez de tão babaca?
- Colocou minha crítica literária sobre o livro do Maciel.
- E você pirou por isso? – Ela perguntou rindo.
- Foi. A gente combinou muito bem. Eu nunca mais falaria em público sobre o Maciel. Assim eu degenero minha imagem.
- E que porra de imagem você tem?
- Oras, eu tenho uma imagem.
- Com aquelas firulas e linhas tortas que coloca nos papeis coloridos?
- Não só com aquilo.
- Você veio até minha casa para me acordar assustada duas vezes, atrapalhar meu marido, que é seu amigo e encher meu saco com piadas infantis? Do que você está afim? Sexo? Eu estou cansada, mas sabe que seria uma boa idéia?
- Sabe que não seria uma idéia ruim?
- Tem lençol, fronha, travesseiros, um edredom e um pijama naquela porta – Ela falou apontando para o alto dum guarda-roupas.
- Ok.
- Quer mais alguma coisa, senhor?
- Enquanto eu arrumo aqui, você pode trazer um copo d’água pra mim?
- Filho da puta. Arrume logo e sem gracinhas. Vou lá buscar – Ela disse.

Quando Luciana voltou, eu estava nu atrás da porta. Fechei a porta depois que ele colocou o copo sobre o criado-mudo. Abracei seu corpo e dei-lhe com força. Ela não reagiu. Abaixei uma alça de sua camisola e coloquei meu joelho entre suas pernas. Ela sorriu baixinho. Luciana pulou pra dentro de mim, apertou minha cabeça com as duas mãos, deu um beijo em minha testa e disse: - Recomponha-se, filho da puta!
- Foi mal, eu queria me acalmar.
- Sua água está ali. Vou dormir e não quero saber se a porra do mundo vai acabar amanhã. Jornal é só um jornal, idiota.
- É, você está certa. Acho que eu queria foder com você.
- Vai cagar. Boa noite.
- Boa noite – disse e gritei, por fim – procure bem o pintinho do Jeremias.

Dormir muito bem. Comecei a sonhar com o corpo maravilhoso de Luciana requebrando a minha frente. Caí num poço sem fim e me veio à cabeça um pensamento sem noção. Pensei que quanto mais coisa o ser humano tenta aprender, mais portas para o desconhecido ele abre. Depois imaginei hominídeos que não eram humanos mais; havia um cabeçudo, outro só com braços numa cadeira de rodas, outros ainda só com pênis e vi uma infinidade de seres com qualidades únicas. Pensei: “Foda-se o jornal, eu farei melhor outro dia.”

07 Maio 2009

Alguma vantagem

Nestor acompanhava com os olhos, da direita pra esquerda, a pomba que se jogava com um peso incrível de um telhado a outro. Seu cigarro acabou e ele distraiu-se ao perceber que sugava ar puro. Não tinha mais nenhum palitinho nos bolsos; nem dinheiro, nem carteira ou documentos. Lembrou-se de ter saído de casa apenas para fumar. Um conjunto de roupas velhas, utilizadas apenas para dormir, ainda cobria seu corpo. Ele estava na calaçda, em frente ao prédio de seu cubículo tido por lar. Procurou a ave que desaparecera em liberdade. O vento fechou o portão de aço atrás de si. Não havia interfone para chamar algum vizinho, nem porteiro. O portão não abria sem chave pelo lado de fora. Nestor deixara as chaves em seu apartamento. Não estava frio. Ele foi até o bar do outro lado da rua, pediu uma cerveja, como de costume, mas avisou que só pagaria a conta à noite e explicou a situação.

Sentado, bebendo cerveja, esperando alguém entrar no prédio, ou esperando sua amiga Flávia aparecer, como combinaram, ele avistou novamente a pomba. Poderia ser um pombo, foi seu pensamento naquele instante. Mas para as aves tal distinção não caberia em idéia. Uma faz e o outro faz, tudo é a mesma coisa, enfim.

A vendedora perguntou se ele queria outra cerveja. Nestor recusou.

Flávia apareceu, ele se levantou, afirmou que voltaria, e foi ao seu encontro. Eram quase dez da manhã. Eles se cumprimentaram e tudo foi explicado. Flávia o levou para sua casa, a cinco quilômetros dali. Depois, concordaram nesse ponto, encomendariam uma nova chave com algum chaveiro de rua. Nestor não quisera recordar que seu apartamento ficara de portas abertas e que os moradores do prédio não eram nem um pouco honestos.

Flávia foi à padaria comprar frango assado em roleta. Nestor apareceu na rua fumando, com a mesma roupa velha. Talvez, se ele considerasse o tempo de uso de sua vestimenta naquele dia, ele ainda estivesse dormindo. Então uma pomba surgiu no céu, sombreando sua cabeça. Aproximou-se como que se não conseguisse voar mais e, exatamente sobre sua cabeça, caindo a uma incrível velocidade, a pomba defecou e Nestor abriu os olhos. A porta estava aberta. era hora de levantar, segunda-feira, seis da manhã.

13 Abril 2009

A noite que cai; uma montanha; um novo dia

É de se discutir os efeitos de liberdade mental que a noite causa à nossa cabeça. Digo nossa, porque tais efeitos não afetam apenas a mim. Por que falo isso? Porque ontem à noite fui atacado por alucinação incontrolável.

Minhas têmporas doíam incomensuravelmente e eu as pressionava com o dedo indicador e o médio. Como não acabava com a dor fazer só aquilo, eu respirava com força e assoprava bem lentamente o gás quente expelido pelos pulmões. Eu estava sentado na praça dos cavalos pretos, em um banco de concreto, ao lado de uma sibipiruna que deixava tombar uma resina melequenta. Certa brisa destoante remexeu meu cabelo cumprido, pelo qual eu me considerava um desleixado seboso. Salivei, estimulado por sensações diversas. Dentre elas, além da brisa fungando minha cara, havia o contraste entre a resina da árvore e a dor de cabeça, misturado ao pôr do sol. Eu tive tesão e meu pau endureceu. É interessante como em momentos como aquele, raramente tidos, é possível observar um lindo crepúsculo, sentir cheiro de comida caseira e ser tocado pelo vento puro e inocente, mas, no entanto, ao mesmo tempo não apreciar nada, porque a cabeça lateja de dor, o desejo sexual leva toda a atenção ao pau, por causa do mulherão encorpado que passa a sua frente sem ninguém tê-la dado tal função e tudo aquilo que deveria ser belo, torna-se paisagem de fundo horrível por ser negligenciada, e estar ali interrompendo a criação de laços mais firmes com as coisas carnais.

A mulher me viu e, incrivelmente, me reconheceu. Acenou de longe. Com sua voltinha singular iniciou a caminhada na minha direção. Ajeitei as pernas cruzadas e botei as duas mãos sobre os joelhos. Fingi sentir dor na nuca, massageando-a, como que para explicar indiretamente o porquê de eu estar na praça sozinho, relaxando. Eu não lembrava quem era ela, mas Luciana, como se nomeou para mim, agradeceu o mês passado na chácara do Yussef. Eu agradeci a ela por me dar uma notícia boa.

Ao sentir-me confiante em mim, depois de escutar uma notícia que me levava em boa consideração, expliquei o que fazia ali, onde morava e perguntei as mesmas coisas para Luciana. Quando ela se despachava, num toque de sensibilidade convidei-a para jantar lá em casa, sugerindo que relembrássemos a festa na chácara. Ela adorou a idéia. Despedimo-nos. Mais tarde ela bateria à porta de casa. Peguei seu número para o caso de haver algum imprevisto ou de mudarmos os planos. Ela não ficou chocada e isso fez com que minha dor de cabeça sumisse. A coincidência ruim é que perdi o pôr do sol e a noite chegou num piscar de olhos. Como já observado, pouco depois de notar a existência da noite como poucas vezes o faço, minha mente funcionava com mais leveza e eu tinha capacidades de buscar lembranças e de raciocínio muito mais eficazes.

Mas eu estava pensando demais naquilo. Enquanto enxugava o saco depois de sair do banho pensei em analisar Luciana. Pensei em observar seus movimentos, suas atitudes e maneira de falar em relação à tarde. O nome Luciana se pareceu familiar; como que se eu o tivesse repetido por mil anos todos os anos passados, uma vez por hora. A lembrança dela na chácara eu não consegui recuperar. Eu ainda deveria mudar os planos. Haveria uma festa na casa dos Laraia e eu não tinha comida pra preparar na minha. Telefonei para Luciana pouco depois do banho e ela concordou em sair comigo, mas não queria ir à festa. Ela sugeriu que fôssemos ao Variantes. Eu não conhecia por dentro, mas sabia que o Variantes era um prostíbulo de primeira linha, caro e bem decorado, com mulheres da pós-vanguarda e, muitas, estrangeiras fascinadas por dinheiro e frequentadoras de programas semanais pornôs em mansões de sócios. Liguei pro Gil e fomos os três juntos em seu carro. Ele dirigindo e eu de peguete com Luciana atrás. Logo no começo ela quis ficar no amasso. Eu só deixei a mão sobre sua coxa, sem movê-la. Eu tinha que encontrar pique pra noite que viria. Pois apesar da mente que se expande à noite, ela própria ainda se subdivide em várias etapas complexas. O Gil estacionou num posto, comprou duas cervejas. Ficou com uma e deu a outra pra Luciana. Depois de uma boa rodada, perguntei se já não deveríamos ter chegado ao Variantes e ele falou que mudaram de plano. Mas quando? Eu nem perguntei, só pensei em perguntar. Olhei pela janela e reparei que estávamos na rodovia. Luciana me deu um gole de cerveja e cinco minutos depois - foi o bastante - eu conversava com a lua intimamente.

Meu corpo sem forças foi colocado de bruços no chão. Parecia ser um pasto com grama cheia de barro ou esterco onde enfiaram minha cara. Eu não sentia cheiro de nada. Então, com um tremendo esforço, virei de lado e vi Gil segurando um pedaço roliço de madeira, de mais ou menos dez centímetros. Eles me ajudaram a colocar meu corpo de barriga pra cima. Foderam sobre minha pica que nem se movia enquanto eu os assistia de camarote. Luciana gozou duas vezes sobre meu rosto. Depois se deitaram ao lado. Ela falou alguma coisa que não entendi, devido à interferência sonora dos vaga-lumes. Gil abanou a cabeça. Nesse momento eu conseguia virar o pescoço e movimentar um pouco os dedos da mão, mas estava muito noiado. Gil entregou o pau à Luciana e foi ao carro. Aquela mulher, com uma baita boceta de égua muito atraente, virou-me sozinha e me deixou naquele lugar desconhecido.

Acordei tonto, sem dor de cabeça. Foi difícil ficar de pé e muito doloroso. Minha boca estava seca e meu rosto pálido. Não conseguia cuspir uma saliva sequer. Não consegui saber quem era Luciana e Gil só pôde ter sido comprado por ela. Mas eu estava muito longe, talvez mais longe do que poderia imaginar. Dado o efeito da droga que ingeri, perdi a noção de tempo. Segui meus passos por uma linha reta até avistar uma casa rústica no pé de um pequeno morro.

Havia plantações de banana, mandioca, morango, e um pouco de uva ao redor da casa, tudo muito organizado, em lotes com placas legendadas. A casa aparentava ter sido reformada no mesmo dia. Entrei e comi um pedaço de bolo posto sobre a mesa, já que não encontrei ninguém. Desmaiei.

Acordei duas horas depois. Muito pirado. Eu estava completamente anestesiado. Continuava sem conhecer o local do meu paradeiro, sem me lembrar de Luciana, estranhando a atitude do meu velho amigo Gil, o boêmio, e entendendo menos ainda a relação de macumbaria com aquela casa reformada e todo o resto. Eu tentei, sentado, alcançar uma posição de respeito, o que foi impossível e deixei os ombros tombados pra frente e a boca aberta. Alguém veio por trás de mim e colocou um espelho à minha frente. Eu realmente estava de boca aberta e não tive reflexo pra me virar e ver quem era.

Encobriram minha cabeça com um capuz negro, despiram-me, injetaram alguma coisa nas minhas veias. Eu não tinha muita coisa pra falar e se tivesse, não lembraria minutos depois quando acumulasse força pra falar. Meu pau enrijeceu com toda a potência. Era uma vagina que roçava nele. Dessa vez eu ouvia muito bem, diferentemente da noite passada. Ouvi sirenes de carro de polícia. Entrou uma voz de homem seguida por uma voz de mulher. O homem cochichou qualquer coisa. Eu percebi que outra mulher se juntara à festa sobre minha pica. Imaginei ser a policial. Meia hora depois tiraram o capuz da minha cabeça. Eu vi um pedaço de pau todo ensanguentado na mesa a minha frente, uma seringa de vidro com uma baita agulha colossal e um liquido amarelado dentro dela em alta dosagem. Vi alguns comprimidos e um copo de água pela metade. Eu perguntei ao sujeito que estava escorado na parede e me olhava com tranquilidade o que era aquilo. O sujeito falou que eram ferramentas. Então perguntei pra que serviam. Ele me apontou meu bucho, que estava todo remendado. Tentei não me assustar, mas até mesmo o pau que ainda estava duro sob efeito de alguma droga murchou rapidamente.

Fui levado a um hospital. Com o efeito da anestesia passando, senti dores mortais, mas alguém de lá falou que eu ficaria assim por algumas horas, pois meu sangue estava extremamente intoxicado. Deixaram-me sozinho, entretanto notei que alguém me observava do outro lado de uma enorme parede de vidro. Eu sentia meu corpo mais leve. Eu estava estranho. Respirava com dificuldades. Estava exangue. Uma enfermeira indígena com peitos gigantescos entrou e disse conhecer Luciana. Amarrou-me na cama do hospital e sumiu por onde entrara. Pensei se realmente existira a chácara do Yussef. Tentei me lembrar do Yussef, mas o sujeito me fugia da memória. Eu estava amarrado, não podia tocar meu próprio corpo e com o tempo, naquela posição desconfortável, passei a não existir mais. Gradativamente sentia-me mais leve. Alguns órgãos meus foram retirados, eu tinha certeza. Perdi a movimentação dos pés, dos dedos, das mãos, dos braços, da cabeça, dos olhos. Eu começara a esquecer quem eu era. Fui jogado, muito, muito tempo depois, numa rua, sem língua, sem memória, sem cadáver. Eu era um espírito preso à uma carne irracional.

Deitei-me. Acordei-me. Deitei-me. Acordei-me. Ás vezes eu mordia o vento. Fiz esse ato inúmeras vezes, insensível às intempéries. Quando recuperei toda a lembrança, ou se não a recuperei, inventei-a, percebi-me acorrentado numa espécie de chão acolchoado, envolto por paredes estofadas e uma pequena janela de poucas polegadas por onde entrava um pedaço de luz. Ouvi barulhos de portas se abrindo. Eu estava extremamente fraco. Pude sentir ainda algumas pessoas me carregando gentilmente a outro lugar. Pude ouvir minha história antes de adormecer. Outra vez acordei e deram comida para mim. Em que época eu estava? Que lugar era aquele? Eu precisava beber água, tomar um banho, falar com minha filha. Meu corpo fedia e eu não o reconhecia. As imagens se confundiam na minha cabeça e eu tendia a voltar ao antigo estado, mas lutei bravamente contra, como se tivesse passado por ele inúmeras vezes. Olhei ao redor e a sala parecia com uma sala simples de hospital. Um senhor entrou no meu quarto, ligou um gravador digital e fez perguntas sobre as minhas perguntas que eu fazia enquanto dormia. Ele me contou tudo o que eu falava no meu sonho sem fim. Apesar de ter retornado à realidade, eu tinha uns remendos na barriga e não conhecia suas origens.

21 Dezembro 2008

A saliva da rosa

Alberto passou um bocado de tempo sentado, refletindo, pensando no que ele deveria fazer pra passar melhor o tempo. O tempo não lhe concedia privilégios à toa, segundo afirmava a consciência, gasta pelas repetições enfadonhas de atividades corriqueiras, e hábitos enfadonhos de lucubrações sem nexo. Ele precisava criar insídias. Mas era um bom mancebo; bom pelo sangue do pai, de uma geração milenar de homens bons, bonitos, porém bons. E porque tinha esse gênio, que lhe caracterizava por natureza um ser bom, tornara-se desde o princípio da existência um sonhador. Levado a ser assim, um sonhador, por viver num mundo levemente desajustado em relação às suas idéias. Também pelo mesmo mundo tornara-se um sujeito sonolento, sonhador, é claro, mas aparentemente preguiçoso e sonolento. Assim se explica como todos perderam o respeito por ele. A explicação que ele costumava dar a si mesmo, naquele silêncio de quem um dia poderá tornar-se mártir por receber todos os males e injustiças, era a que seu corpo não agia de forma condizente com o que os outros inconscientemente pediam, ou seja, seu corpo funcionava muito bem durante poucas horas ao dia; nas outras, ele necessitava descanso e isso perturbava a todos que não podiam descansar. "Daí percebe-se a fusão de mimos inúteis em sua criação", comungava seu tio sempre que conversavam pelo telefone.

Pois bem. Alberto sentado há muito tempo na expectativa de receber algo divino, como tudo o que ele sabia - sapiência que não considerava própria, mas presente de forças além da compreensão -, viu, de fato, uma luz; uma idéia daquelas que faz com que o sujeito diga 'Eureka' e rapidamente queira desenvolvê-la de uma vez só, num crochê de um único fio, a fim de não perdê-la para o vácuo grandioso a que tudo atrai.

Apertou o botão que liga o "lap top" e passou a pisar com os dedos sobre as teclas. Cada digitada, promíscua, monstruosa, era uma cuspidela nas letrinhas potencialmente frágeis. Após escrever dúzias de parágrafos, com a tarde esvaindo-se pelo postigo da janela, apagou-os todos, sem remorso. Parou para pensar num título, que não encontrou de forma alguma. Daí surgiu-lhe uma pergunta: "Como mudar a situação da pobreza infeliz que vejo por aí?" Ele poderia dar comida ou bebida ou dinheiro para os mendicantes. Mas nada adiantaria, "é como se eu desse um prato de comida uma vez por semana para um faminto e ele continuasse faminto nos outros dias da semana, o que causaria ainda mais dor e sofrimento, diante da espera pela mísera comida", pensou o jovem.

Então Alberto começou a escrever, com o intuito de destacar, ao menos, a situação de pobreza da cidade onde vive; o pouco que conhecia, que ele já considerava muita coisa, muito desumano e muito normal para um mundo que se dizia mutável, transigente e humanamente divino. Seu texto permaneceu sem título, assim como a necessidade que os mendigos sentem, que é sem nome. Começou dessa maneira:



Na cadeira do ônibus público, fui envolto por um paradoxo singular: estava sendo chacoalhado para todos os lados por vários efeitos da física, tais como inércia, aceleração variável, aceleração retrógrada, entre outros, mas tinha uma vontade irreprimível de dormir, talvez devido ao barulho constante, mais alto do que meus pensamentos, tão bruto e amedrontador; e eu estava tão habituado a ele, ao barulho, que nem me dava conta de que próximo a um perigo eu deveria ficar alerta. O ser humano predador estava sendo extinto. Era noite e chovia. Pela janela, longe da mulher que estava ao meu lado, longe dos outros no mesmo veículo, tão próximos a mim, eu assistia ao mundo. E naquele horário, quase madrugada, só restavam os mendigos, desolados, cansados, sem ter para onde ir, pois as ruas e os cantos eram seus abrigos.

O ônibus parou em respeito ao sinal vermelho do semáforo. As pessoas ou dormiam ou estavam compenetradas em seus imbróglios desinteressantes. A mulher ao meu lado procurou as horas. Suas mãos eram belas, atraentes e cheirosas, tinham unhas bem polidas e pintadas de vermelho. Olhei-a nos olhos e ela me respondeu com a seriedade de quem só pensa na cama do lar. Tudo não durou mais do que três segundos. Voltei com os olhos para a janela e lá estavam os mendigos. Uma mulher sentada na escadaria de um prédio revirando lixos plásticos. Quem sabe encontraria ali um cobertor, uma capa daquelas que protegem os colchões ortopédicos, tão caros e relaxantes. Ela vestia uma blusa de alça fina que tombava para o lado e mostrava seus peitões gigantescos, de fêmeas que amamentaram muitas vezes no deâmbulo do mundo. O peito ora tapado, ora à mostra desviava minha atenção para as mãos negras, sujas e fedidas. Seus pés descalços, calejados, com unhas enegrecidas já estavam acostumados a pisar sobre poças de mijo e bosta de gente, de outros mendigos. Ao lado, uma senhora, com pano na cabeça, saia preta, blusa de manga comprida, unhas pretas... Não eram "sexys". Olhei novamente para a mulher ao meu lado. Ela tinha cabelos lisos, bem tratados e cheirava bem. Eu até quis boliná-la ali mesmo, no balanço estressante do ônibus. As duas mulheres, que eram mulheres também, como a que estava sentada ao meu lado, tinham rugas, braços gordurosos. Provavelmente passaram mal e vomitaram um dia antes ou fariam isso logo mais. Olhavam para os lados atentas, cuidando as duas meninas e um moleque de uns seis anos, com os dois dentes da frente faltando, e atentas também a qualquer perigo, que era constante. Eu gostaria de saber para onde iriam eles. Talvez eu pudesse tentar uma conversa incompreensível presenteando-os com uma vodca.

O ônibus arrancou. Reparei que atrás daquelas pessoas havia um prédio do HSBC, um lugar carregado de dinheiro dos outros, mas não dos mendigos, que não os tinham. Os outros que guardavam suas economias naquele prédio, que nem era tão grande e pomposo, talvez nem fossem até ali e apenas mandassem seus funcionários fazer esse trabalho de tirar e pôr ou, com a informática, fizessem tudo virtualmente. Então fui observando que os mendigos se reuniam em certos lugares para formarem ali uma convivência, um laço social. Talvez não estejamos perdendo nosso instinto predador, apenas não temos mais presas difíceis senão nós mesmos. O que pode definir o senso de um predador, de um canibal eufêmico? Talvez quem tenha mais dinheiro, mais poder, dinheiro e poder e política como carta na manga! Não sou capaz de responder charadas. Precisava de uma cerveja. Lembrei das dívidas que já fiz e de como sou tão novo de idade. Eu também era um mendigo em potencial. Morava sozinho numa cidade grande, tinha apenas um pai, tão distante e preguiçoso quanto eu, que nem sempre me enviava dinheiro. Um tio me ajudava financeiramente, mas era uma quantia desvalorizada. Eu era um mendigo em potencial. Poderia facilmente exaurir-me, falir e não ter mais onde morar ou o que comer. Eu viveria com aquelas mulheres e comeria em foda, em fome e em sede a gordona dos peitos à mostra, a senhora mais idosa e às duas meninas. Eu seria um pérfido sem bondade ou maldade, sem razões, sentimentos ou querências. Eu seria sujo e malquisto, estaria esquecido por onde já passei, amontoado com almas, mijos e bostas, até que Deus sob encomenda do Estado mundial passasse sua vassoura entre nós, areiazinhas da reles.

A nossa sociedade é democrática. À tarde todos andam pelas mesmas ruas, pelas mesmas praias. Na hora do almoço, ainda no trabalho, passei a sentir um cheiro de merda. Olhei para as solas dos tênis e não eram os meus. Procurei de onde vinha o fedor que me seguia loucamente. Havia um mendigo a minha frente, mal vestido, com as mãos segurando a bunda. Ele deveria estar cagado. A cidade é democrática e concede a qualquer cidadão o espaço público, até mesmo para cagados, mendigos e etc. Afinal, eles são outras pessoas assim como eu, o policial, o prefeito ou o juiz.

Mas, então, comecei a definir essa igualdade e cientificamente não é assim. Na praia, cagam os mendigos debaixo de uns coqueiros que ficam a cem metros de onde as pessoas passam o dia e se bronzeiam. Também lá há banheiros que provavelmente não são públicos, pois se fossem estariam destruídos e cobrariam mais de dois reais por mijada. Um mendigo não poderia ir a um lugar desses, se dois reais for seu lucro semanal variável! As pessoas que andam nas ruas, nem são tão ricas ou tão poderosas e são as que dividem espaço com os mendigos. Mas nas mesmas ruas há lugares onde mendigos são proibidos e outros onde até mesmo eu sou proibido de entrar. Sou em potencial quase mendigo. Os que têm dinheiro ficam, nesse caso, exatamente nesses lugares onde nem mendigos e nem eu freqüentamos.

O ônibus estava próximo de casa. Aproveitei para conversar com a mulher sentada ao lado.
- Me chamo Alberto - falei e estendi a mão.
- Rebeca.
- Dia cansativo hoje?
- Nem me fale. Todos são! - ela disse abanando a mão.
- Onde você trabalha? - Perguntei isso, mas queria construir uma conversa que levasse ao meu pensamento. Queria saber a opinião dela.
- Numa loja de roupas.
- Vendedora?
- Sim. Gerente.
- Lá aparecem muitos mendigos? - perguntei com várias interjeições, onomatopéias e gesticulações.
- Bem... Eles não entram nesses lugares, se é o que quer saber. Mas um fica sempre ali por perto. A gente da loja costuma juntar um dinheiro daqui e outro dali e dar pra ele.
- Melhor ajudar pelo menos um, já que não se pode ajudar a todos, não é?
- É o que fazemos lá na loja. E você, o que faz a uma hora dessas?
- Volto pra casa. Trabalho num café. Cuido do que entra e sai.
- Humm, legal. Puxado isso, não é?
- Dinheiro dado! Risco as encomendas que saem e anoto as que chegam e se faltar alguma coisa, relato a falta. É de uma rede tão grande que as faltas já são calculadas no fim do mês.
- Você só trabalha?
- Sim. Sou formado em geografia e tenho uma especialização em economia. Fazia pesquisas até um tempo atrás, mas dei um tempo. O trabalho me paga bem, apesar de ser uma função medíocre. E você?
- Sou formada em administração. Não gosto muito do meu, não. Há dias que fico maluca. Hoje, por exemplo, estou tão cansada que nem sei se consigo chegar em casa.
- Entendo. Todos passamos por mal bocados. É um ciclo.
- É.
- Eu moro sozinho num apartamento ali na avenida. Tem dois quartos. Se você quiser ficar lá hoje.
- Sério? Isso é maluquice. Você é doidão.
- Tudo bem, isso foi muito...ousado. Convido você pra tomar uma cerveja.
- Ta certo. Me de seu número - falei meu celular.
- Mas vamos agora. Em algum lugar mesmo. Duas pessoas sempre se dão bem juntas com uma garrafa de cerveja e compartilhando uma boa conversa.
- Estou muito cansada.
- Eu pago a rodada. A cerveja só relaxa. Quer dizer, relaxa se for em moderação. De qualquer forma, também chamo um táxi e te acompanho até sua casa ou até onde você achar melhor. Afinal de contas, não sou nenhum maníaco. Só quero aproveitar mais a noite. Você é a gerente, pode chegar um pouco mais tarde uma vez ou outra.
- Já que insiste. Então vamos. Ainda sou nova pra ficar com essas babaquices.
- Pois então.

Fomos até o primeiro boteco. Um boteco caríssimo, mas estrategicamente próximo ao meu apartamento. Havia uma balada no segundo andar. Mas preferimos ficar pelo balcão. Depois seguimos com a cerveja para uma mesa com poltronas macias e fodásticas, no sentido sexual mesmo.
- Você é tão bonita - falei olhando para sua boca carnuda, carnívora, libidinosa. Depois peguei em sua mão, acariciei-a e continuei com o único discurso que me vinha à mente, tão barato e de senso comum que me achei um sujeito completamente tosco, mas continuei - Suas mãos, tão experientes e bem cuidadas! - e segurei-a firme. Passeei com a outra mão por sua coxa, pela barriga e subi até o pescoço, segurando-a e indo até ela. O instinto humano é ainda um predador, no sentido másculo da palavra. Meti a língua até o esôfago da mulher. A outra mão já estava dentro de suas roupas, entre as pernas.
- E aí - eu disse quase sussurrando, um bom tempo depois - minha casa fica perto. Vamos até lá. Dá pra ser à pé mesmo.
- Vamos. Amanhã... Minha folga.
- Maravilha.

Entramos, apontei meu quarto, fui ao banheiro e antes mesmo de eu sair da mijada ela já tinha ido à porta me buscar. Jogou-se na cama, abriu as pernas, eu as coloquei sobre mim e fui com tudo. Fazia todo o movimento como se eu fosse um mendigo faminto, como se eu comesse aquela negra com as tetas pra fora, como se eu massacrasse uma flor de seda com a ponta da língua, uma rosa quente e morna que se descabelara da roseira, e eram mil sensações que me subiam por todos os nervos e me davam mais energia pra eu fazer mais e mais, sem ficar cansado, a cada segundo, a cada ponto de existência. E Rebeca adorava aquilo, sem Deus, sem consciência. Ela simplesmente queria tudo, queria mais. Abracei-a, ela cruzou as pernas em volta de meu corpo, beijamos-nos ali entrelaçados pelo lençol da cama. Ela estremeceu, eu estremeci, lambuzamos-nos a noite inteira vertiginosamente.

Bêbados e exaustos, rolamos um pra cada lado e ficamos esquecidos de nós mesmos, como no ônibus. Tudo voltava ao normal e o normal não era bom, somente uma neutralidade das diversas sensações. Lembrei que eu não me incomodava com os mendigos, nem os olhava mais. Não lhes dava atenção. Eles estavam em suas condições. Eu até poderia contar piada e rir diante de um magricela faminto. Mas quem seria eu, então? Um corpo que vive sem sentido no planeta onde tudo está vivo! Se assim for e se a vida for feita da fusões das sensações, nem a consciência serve para mudanças em prol de igualdade, mas sim para melhorias quanto à realização dos interesses próprios de uma pessoa. Quis dizer meus pensamentos pra Rebeca, mas ela dormia profundamente. Eu já pensava em esquecer essas idéias também pra voltar ao trabalho na manhã seguinte. Não havia mais respeito. Amanhã eu despertaria esta rosa com minha saliva e isso nos traria novamente boas sensações.

11 Dezembro 2008

O Velho dos Velhos

3. O homem sem cabeça


A menina caminhava rapidamente sobre a linha traçada no imaginário, sem olhar pra ninguém, nem desejar nada, a não ser a vontade de chegar em casa, tirar os tênis sujos, a meia de algodão suada, despir-se e ficar muito tempo debaixo do chuveiro. Catarina costumava pensar, em situações como essas - em que um desespero sob uma única vontade impede que qualquer pessoa pense outra coisa senão aquilo que ela mais precisa e quer -, que a força da água à temperatura natural, nem quente, nem gelada, mas refrescante, pudesse dar mais energia como que se tirasse do cerne uma capacidade excepcional de agir, raciocinar e viver, como que se pudesse simplesmente, depois do banho demorado e sensual, acabar com o marasmo de um cansaço que embora supérfluo era muito mais do que uma simples fadiga diurna devido ao calor.

Assim, a poucos metros de sua casa, Catarina esbarrou em um velho, depois dum tropeço que foge à lembrança do tempo e do espaço. O velho, aparentemente muito magro de fome - ainda que não fosse um mendigo como aqueles que ficam em um ou dois locais da cidade pedindo esmola à esmo - caiu de bunda no chão. Ele tentou se levantar enquanto Catarina o olhava, um pouco assustada, e sem saber por onde ir.
- O velho dos velhos - o senhor disse.
- Como é? - Ela perguntou.
- Pode me chamar de o velho dos velhos. Sou pra lá de oitentão, por isso que não tenho mais a força de antigamente. Se eu lhe dissesse que me joguei a sua frente pra sentir o prazer de um tombo e acabar com sua alucinação, pois bem vi que você estava tão absorta que nem a queda da lua, a de Roma ou o fim do sol chamariam sua atenção... Pois bem, se eu lhe dissesse que fiz o que fiz, você estranharia. Eu só queria puxar uma conversa - falava o velho com sua voz firme e num volume alto, pois havia um trânsito infernal naquele horário e quase nada se ouvia. O sol no céu limpo misturado ao mormaço derretia tudo e todos estavam muito podres, fedidos e estranhos aos olhos dos outros - Mas é melhor que eu diga que sou velho e já não tenho a juventude. Não um idoso jovem, mas um velho velhaco, desde sempre..., quer dizer, desde muito tempo. Você, então desatenta, me derrubou. Agora, será que poderia ajudar a este velho escroto?
- Ah. Claro. Tudo bem. Desculpe, é que eu não vi o senhor.
- E há tenta gente, tanta confusão, tanta balbúrdia nesse pandemônio, infernal, demoníaco, que jovens como você, assustados com o mundo incompreensível, sem apoio algum, desorientados, sentem-se únicos numa 'pudicância' filha da puta.
- O senhor está bem? Eu preciso ir embora, estou cansada. Ainda há muito que fazer.
- O que há pra fazer? Você vive numa cidade grande, atravessa a rua e antes de atravessá-la sabe que estará do outro lado se nenhum acidente acontecer, mas sabe da possibilidade de um acidente. Quando está do outro lado, descarta o acidente e pensa que chegará em tempo, mesmo que um pouco adiantada ou atrasada, ao lugar onde você queria chegar. Você tem um celular, as horas, um aparelho de música, informação barata e cara em todo lugar que está. Não importa ter isso, pois sabe, se é que você já pensou que sabe, que ao fim de tudo, você já previra todas essas coisas. E se pensar além, você pode ver que isso nem é loucura mais, pois foi tudo tão bem planejado, tão bem estipulado... o mundo trabalhou, desde seu nascimento, pra que você se limitasse a um só paradigma grande, a uma noção de aventura dentro de uma redoma de vidro. A redoma de que falo é o sistema composto de interligações hierárquicas entre si que tecem uma rede intransponível. A humanidade está se separando. Algumas pessoas vão evoluir além de nossas expectativas, outras vão se atrofiar ou permanecer no estado normal. Outras ainda vão involuir, isto é, vão ter funções esporadicamente mecânicas que com o tempo nem serão de uma espécie humana e seus cérebros servirão aos pratos dos novos deuses do poder maior. Não fique aí concordando comigo, você nunca pensou nisso. Você estava desesperada pra fazer alguma coisa. E o que era? Vou dizer o que era. Era sair desse mundo em que vive, dessa teia, e ir para sua casa imaginar, confabular, pois assim você percebe que o mundo não é só isso e que ainda há aventura e que o nosso dom, o dom humano, é viajar, explorar, liberar adrenalina, seja como for. Você só consegue isso em sua casa e ainda consegue. Logo mais, esse instinto será exterminado e ninguém sentirá isso, esse cansaço estranho que você sentia antes de me derrubar, até que eu a trouxe para o mundo concreto, mas a levei para uma teia ainda desconhecida. Mas se você prestou atenção ao que eu disse, até mesmo maluquices como essas como a de encontrar um velho exótico no meio da calçada, próximo a sua casa, é normal, pois o mundo fabrica isso e aos montes. Você, para de ser educada. Olhe-me fixamente, concorde ou discorde em sua cabeça apenas. Não posso lhe dar soluções, apenas a observação empírica. Para o resto, use sua criatividade, se é que ainda a tem.
- Tudo bem. Eu preciso ir.
- Não quer ir até aquele bar comigo tomar uma cerveja?
- Não! - disse Catarina, franzindo a testa, porém mantendo-se imóvel.
- Vamos! Eu faço novamente o pedido. Não poderia assediá-la, não com esse corpo mumificado.
- Ta certo. Mas sou menor de idade. Não ligo se der algum problema. A culpa será toda sua. Eu quero a cerveja que você vai pagar.
- Fechado.
Atravessaram a rua, misturados a dezenas de outras pessoas desconhecidas e foram ao bar. Pediram uma garrafa de cerveja e dois copos.
- Você não deveria beber assim - Catarina disse.
- Eu já estou morto. Mas por que você diz isso? Realmente teme que algo aconteça a mim?
- Não. Não sei o que eu acho na verdade.
- Eu sei. Ninguém sabe. Tudo o que nós queremos ou conhecemos para podermos querer foi criado para nós. Você já viu algum pé de maçã?
- Não.
- Mas gosta de maçã?
- Sim.
- Se em algum dia, quem tem o poder, ou o poder que se toma às vezes para autocontrole quisesse fazer uma interferência na vida humana, ele mudaria uma função cultural e faria, de forma midiática ou sei lá como, com que você e tantas outras pessoas não gostasse mais de maçã. E você e as outras pessoas não gostariam, pois nem saberiam o que seria uma maçã.
- Concordo. Mas, por exemplo, se eu tenho desejo de sair ao ar livre pra passear. Isso não se tira de ninguém. O desejo, eu digo.
- É verdade - o velho falou - Porém, isso está disponível a você e você sabe que se não fizer isso, seu corpo fenecerá.
- E o desejo de foder?
- Olha garota, nós estamos falando de instinto, de biologia também, agora. Isso é desejo da espécie, desejo que nós sabemos que precisamos porque podemos sentir e vivemos próximos a eles. Sem eles ou coisa do tipo, não sobreviveríamos, mataríamos uns aos outros. Eu, por exemplo, com a velhice, aprendi a controlar meus instintos, mas ainda tenho vontade de foder, apesar da idade. O que as mulheres, na mesma situação que a minha, não sentiriam mais. Olho pra você e vejo seu corpo magrinho, suas pernas suculentas, seus olhos profundos, nariz aquilino... Boca macia. Fico extremamente maluco. Mas, na verdade, controlo meus instintos ou me perderia na loucura de tanta vontade que sentiria. Preciso equilibrar.
- Você foderia comigo se eu quisesse?
- Não foi você quem disse que é menor de idade e não pode essas coisas?
- Não sou menor de idade. Falei pra ver se o assustava. Moro sozinha. Vamos à minha casa, vou preparar um café e um lanche. Você parece faminto!
- Eu estou bem. Mas convite como esse é sempre bem vindo. Mora perto? - o velho perguntou.
- Sim. E lá em casa quero saber o seu nome.
Eles foram à casa de Catarina, uma descendente de família portuguesa, tinha mãos finas e olhos verdes. O velho a empurrou para o sofá, logo depois que entraram no apartamento. Catarina vestia uma saia, abriu as pernas mostrando tudo por dentro. Tudo estava inteiro e limpinho. Era uma legítima brasileira. O velho demorou um pouco pra pegar o tesão enquanto lambia as pernas da moça, seu dedão e o peitinho pequeno e bem moldado. Catarina apertou as bolas dele e ele entrou na fissura quente e úmida. Para o velho, os dois minutos no sofá foram maravilhosos.
- Você não é grande coisa – falou Catarina.
- Você é demais, menina!
- Bom, ao menos teve lábia pra me flertar, não é?
- Se você diz.
- Tem casa aqui perto?
- Sim, moro em frente à praia. Qualquer dia pode ir pra lá. Mas agora preciso descansar um pouco.
- No lugar do café, vou preparar um chá e depois tomar banho.
- Tudo bem. Vou deitar aqui mesmo e sentir seu cheiro um pouco mais.

30 Novembro 2008

Meus amigos

Aguardem. Esqueçam tudo o que há aqui e aguardem. Em breve haverá novas coisas - e coisas boas.

02 Novembro 2008

Contolarias avessas

O nascimento do salvador


Maria adorava ovos de codorna, por isso resolveu ir ao fundo de sua casa pegar alguns debaixo de uma chuva torrencial; meteu-os na barra do vestido em forma de concha. Chegou à beira do fogão pingando ainda, com o cabelo enorme colado à testa. Jogou os ovinhos dentro de uma panela de barro que já se aquecia sobre o fogareiro de pedra. Sua cozinha não era grande, mas apesar do pouco espaço e de as paredes finíssimas que amplificavam qualquer ruído, Maria não reparou em José chegando atrás de si. Como o vestido ainda estava molhado e na pressa Maria não pudera se secar de forma alguma, já que deveria cuidar dos ovos na panela, suas pernas estavam à mostra de toda a extensão das coxas para baixo. José, vendo aquilo, pensou que Deus percebera a geometria do prazer e acatou ao ouvido esquerdo, aquele que só escuta, nos homens decentes, os desejos intempestivos. Porém, ao lembrar-se do dia em que o pai de Maria, dono de algumas cabras, prometera cortar-lhe a língua se ele a tocasse antes de sua bênção, José parou bem ao lado da mulher, com quem deveria passar algumas noites de pleno diálogo existencialista para se conhecerem de igual maneira e deu-lha um bom dia expressado com o falso sorriso. "Maldita religião", pensou o carpinteiro. "Eu bem que já poderia estar pensando noutras coisas, brincando com meu filho lá pro lado das montanhas. Maldita criatura de Deus que nos vem aqui pra nos importunar. Por isso sou do capeta. Mas tenho que manter a calma. Acalme-se José". Maria o cumprimentou.

José foi apressado para o outro lado da casa e levava consigo uma maçã que encontrara caída no chão. Observava a chuva com imagens profanas de sua mulher, quem ele ainda não tocara uma só vez. Ele viu, de repente, bem ao longe no horizonte cinzento, um redemoinho, ao qual atribuiu às forças demoníacas que sua religião tanto culpava pelos males das plantações. O redemoinho estava tão distante que parecia ser algo divino. "Se muito perto, coisa do diabo. Se muito longe, algo divinal", disse baixinho e mordeu a maçã encardida. Lentamente a chuva foi se enfraquecendo e onde antes reinava um redemoinho solitário passou rapidamente de uma pequena clarabóia a um céu inundado de azul forte, como se Deus escutasse as palavras de José e quisesse que ele saísse de casa para ter uma conversa com ele. José, pensando dessa forma, apenas gritou que voltaria logo para Maria e foi ao local distante.

Uns vinte minutos de caminhada o levou até um pedaço de areia desértica deformada, apresentando-lhe o futuro surreal de seus descendentes. Deus nada disse, mas mesmo assim José conversou com ele e em sua loucura abismal passou à tarde sentado sobre uma pedra entre o sol e a brisa até que a noite fosse aparecendo. José recostou-se sobre uma parte fofa daquela areia. Debaixo do pôr do sol, com a areia ainda quente a engomar-lhe as costas, José se masturbou. Ao gozo final descuidou e um pouco de seu esperma caiu-lhe sobre as calças. Ainda deitado, esperando que a noite assombrosa o engolisse de vez, ele meteu as mãos na areia, limpou-as na camiseta de lã crua, cruzou as pernas esticadas e fechou os olhos. Pouco depois Maria gritava e parecia correr. José sentou-se abruptamente e percebeu que estava certo. Maria ia ao seu encontro desesperada. Falando alto de muito longe, sem que ele pudesse ouvi-la. Ela se aproximou inocente, tão jovem, sentou-se com as pernas abertas sobre José sentado. Certamente Maria sentiu algo novo, mas não se incomodou, pois a vida era absolutamente natural, justamente por causa das proibições sem sentidos, que somente os poucos sacerdotes compreendiam e sabiam explicá-las. Maria não se resignou, mas logo depois sentiu uma alteração hormonal e percebeu o que acontecia, pois era, apesar de tudo, um pouco mais instruída, já que tinha a boa idade de dezesseis anos. Maria ficou de pé à frente do marido, olhava para o céu escurecendo.
- José, uma pessoa estranha bateu à porta de nossa casa. Disse que vinha do deserto. Vestia uma túnica e era tão belo. Tinha olhos azuis. Era loiro. Era tão forte! José - falava Maria - ele me contou que Deus tanto queria que eu tivesse um filho e que realmente eu terei um filho. Disse que, demoradamente, que o nosso filho, que nós criaremos juntos, será o salvador do povo. Seu nome deve ser Jesus. José, eu vou parir um filho, que é o filho de Deus e você nunca deverá me tocar. Aquele sujeito era um anjo, enviado pelo Senhor, para dar-me esse recado. Pouco antes de sua partida eu fiquei exausta e esmoreci rapidamente. Só pude vê-lo sair voando pela janela. O anjo disse que daqui a três semanas voltaria a me ver e eu deverei vir ao deserto, sozinha, para encontrá-lo. José, e agora?
- Como você me achou aqui, minha mulher?
- Ele contou que você estava aqui no deserto.
José pensou que o sujeito o vira ali e inventou suas lorotas. Provavelmente era algum vendedor, um daqueles tolos que aparecem de repente nas horas inoportunas.
- Tudo bem, mulher. Nós faremos a vontade do Senhor, nosso Deus.
- Devemos ser humildes em sua criação - falou Maria.
- Que assim seja. Vamos pra casa agora. Nossa cama nos espera.



A máquina do tempo: baseado histórico

Jesus passeava em tempo livre pelos lados da montanha com alguns amigos de infância. Lembrou-se, por acaso, do falatório de sua mãe sobre ele ser o Filho de Deus, o Salvador, o Todo Poderoso unitário. Aquilo já o importunava há muito tempo. Ele tinha então trinta e três anos. Reuniu seus amigos à nascente de um rio, pois queria explicar um plano que tivera no último sono de ter. Falou:
- Meus amigos. Algo de estranho aconteceu comigo hoje de manhã. Como sabem, e é nosso segredo, todos os dias acordamos com nosso membro sexual enrijecido e não sabemos porquê diabos os sacerdotes proíbem que nos toquemos. Madalena, eu acho que posso começar com você, mas espere, pois vou explicar meu plano. Eu quero que vocês todos tirem suas roupas para fazermos tudo o que temos vontade. Então nós vamos até à aldeia daqueles pescadores bêbados que se tornaram nossos amigos. Claro que lá estaremos vestidos novamente para não causar nenhum constrangimento àqueles que ainda não sabem o que nós sabemos. Eu converso direitinho com os malucos de lá, eu os convencerei a seguir meu plano. Enquanto isso vocês vão organizando tudo pela região. Eu chamarei teatralmente os pescadores de apóstolos e nós nos reuniremos sempre pra fumar essa erva aqui que é muito boa. Com o tempo espero ter aglomerado muitas pessoas à esse modo de vida alternativo. Depois aquele grandioso império que odeia o povo de nossa região que se vire. Eu farei tudo nos conformes, tudo dentro da lei deles, mas implantando um fruto de nossa sabedoria em seus corações.
Todos os amigos aplaudiram e tiraram suas roupas. Fizeram muitas coisas prazerosas e lavaram-se no rio. Ao fim do dia Jesus estava determinado a morrer pelo seu plano. Ele usaria o poder da propaganda que o grande império usava, mas atingiria o maior ideal de todos, que é o amor, dentro do próprio povo e não por meio de símbolos ou coisas que se distorcem ao longo do tempo e morrem, pois são fixas. Ele estaria no coração de cada um através das gerações, pois ele seria sempre adaptado às novas gerações.
Jesus foi até sua casa, brigou com a mãe, falou para o pai ficar esperto e continuar com seu trabalho até que ele fosse para o céu eterno. Em seguida chamou sua mãe, ainda brava com ele, para um canto e perguntou sobre aquele anjo que ela conhecera antes de seu nascimento.
- Mãe, Maria - falou Jesus - o sujeito era do império. Ele flertou e ganhou você facilmente. É claro que depois do meu nascimento e que você passou a conhecer melhor meu pai, você percebeu isso. Eu entendo. Você, então, vai me apoiar para sempre, pois serei mesmo o Grande Deus desse povo abitolado. Veja como minha fala é mansa e educada, apesar de meu jeitão grosseiro. Mas sei que serei realmente o Deus por muito, muito tempo, pois tenho as visões do futuro. Agora vou sair para convocar meus aprendizes e ajudantes.
Jesus foi embora sem ressentimento. Antes, porém, passou em uma casa afastada. Lá encontrou um senhor, ao qual deu sete moedas de prata que ganhara da irmã de um soldado do império. O senhor agradeceu, chamando-o de filho. Seus cabelos brancos finíssimos brilhavam sob a luz do sol. Os olhos azuis olhavam fixos em Jesus. Eles se abraçaram e Jesus foi embora de vez.

26 Outubro 2008

Flertosarias

A PRIMEIRA ESTÓRIA


"A estrondosa loucura deve ter um princípio, que racionalmente pode ser compreendido, que deve estar além da simples percepção sensorial. Talvez ela venha da pressão psicológica sobre a desorganização. Mas como conceber que algo venha de algo como a desorganização que não é um axioma? Este conceito é a desconexão, a incerteza sobre a certeza de algo que não é pleno, é uma idéia fragmentada sobre a consciência aflitiva, saturada com a aflição da consciência de si. Todas as formas de loucura surgem enquanto há consciência. Portanto, foi-lhes de encontro a loucura, a partir da vetusta investidura global dos deuses que geraram, sinestésicos, um só Deus e bombas de açucares para os "indímanos" lamberem", pensava Nomálio enquanto não decidia se entrava outra vez em casa ou se não entrava daquela vez.

Nomálio entrou em casa, foi ao quarto. Tirou duas notas amassadas do bolso, uma de dinheiro e a outra, um guardanapo, de escritos à caneta e jogou-as sobre a cama. Os pés dançavam levemente e ele percebia o embalo vez ou outra, confundindo com tropeços que achava conseguir controlar. Olhou a luz, tonteou e caiu sentado no chão. Sacudiu a cabeça e pétalas amarelas encetaram uma flutuação à força de entidades anímicas. Suas mãos estavam sujas de graxa; ele não se lembrou de onde surgiu a sujeira. Sentiu um cheiro estranho, forte, pesado; um cheiro de gás, de peido, de bafo ou vômito. Cheiro de desatino. Ouviu um barulhinho calmo. Voltou à sala.

No único sofá da casa havia uma moça deitada. Seus cabelos espiralados puxavam-na com a gravidade para além dos braços do móvel, envergando o universo absoluto; não claros, mas clareados, seus cabelos cacheados cheiravam creolina. A mulher, apesar de muito bonita, fedia. Nomálio passou o nariz peludo pelos pés, entre os dedinhos com unhas pintadas, por uma perna, subindo pelas pernas. Por mais belo e atraente que aquele corpo morto pudesse ser em cima de seu sofá manchado, ele fedia. Suas mãos ataráxicas abriram a boca da moça, ao que rapidamente uma profusão de sons arrebataram-no. Ele viu a proteína de mil demônios circundarem aquele rosto angelical. A testa bem delineada e lustrosa soltavam beijocas suculentas para seus olhos estrábicos. A moça sorriu envergonhada, mas ainda assim estava morta. Seus cabelos de medusa o petrificaram. Nomálio caiu no chão vertiginosamente.

Então já era manhã de um dia sem afazeres quando os olhos resolveram se abrir. Nomálio a viu deitada no sofá. Ela chorava com os olhos fechados, tampando a face com as mãos. Ele tentou se levantar rapidamente e ir à cozinha; imaginou-se enchendo um copo com água, trazendo para a mulher tão bonita algum remédio, uma panacéia poética que seria encantada pelos raios de sol quente e pelo vento fresco... Nem sol quente naquela casa de janelas fechadas, nem copo d'água. Nomálio sentiu uma brisa e viu a porta destrancada. Ele ainda estava deitado no chão, impotente, confuso com a noite passada. Virou-se, colocou as mãos sobre a barriga e enquanto aparentava ser também ele um corpo morto, olhava para a mulher choramingas sobre o sofá manchado. A luz da cozinha estava acesa: pôde perceber. Cruzou também as pernas:
- Sabe? A luz da cozinha está acesa - Nomálio disse e fechou os olhos.


A SEGUNDA ESTÓRIA


Sua casa parecia um panteão voduísta para corretores soluçantes, parecia um campo de lamentações das alas infernais de Alighieri. Nomálio cortou o cansaço e se levantou. Não existiam valores que o impossibilitariam de tomar um fresco suco de laranja. Entrou na cozinha, pegou os ingredientes para fazer o suco e foi à pia. Enquanto descascava a laranja, perguntou:
- Conseguiu dormir essa noite?
- Não. Tive pesadelos.
- Eu também. Não lembro como fui parar ali no chão.
- A porta estava aberta!
- Acho que piramos com aquilo.
- Com toda certeza! Nessas festinhas da Julia a galera curte fartura.
- Preciso relaxar.
- Termine o suco!
- Vou pro chuveiro depois.
- Eu também.
- Ouço algum barulho estranho, você também?
- Não. Deve ser alguma loucura ainda.
- É.
- Vamos ao clube curtir uma piscina hoje?
- Podemos.

Nomálio lavou as mãos e foi até a sala carregando o jarro de suco e um copo. Os gelos tilintavam ao bater nas paredes de vidro. "Vamos aos germes", pensou Nomálio e sentou-se no sofá, ligou a televisão e esticou as pernas. Alongou bastante os tendões dos dedos dos pés e bebeu de uma só vez o primeiro copo, agradecendo com uma onomatopéia asmática e berrando feito um garotinho: "Venha, sente-se aqui ao meu lado. O suco mata o calor". Ela se sentou no sofá e concluiu que precisavam comprar papel higiênico. Ele disse que em seu sonho havia um cheiro estranho que surgira do céu. Ela lhe contou que no pesadelo que teve, suas mãos se transformaram em tetas carnívoras que devoravam seu rosto por tortura e não por fome. Abraçaram-se.


TERCEIRA ESTÓRIA


Eram duas da tarde. O calor estava insuportável. O almoço ainda não saíra. Nomálio pegou Larissa pelos braços. Foram ao chuveiro. A água desceu libidinosa. Larissa, a mais bela morena da vizinhança, pegou-o tão duro, esfregou sabonete por todos os lados, meteu-o por entre os lábios suavizados pela experiência. Uma cutucada na parte morna vibrou os dois corações e a água caía mágica. Seu dever era misturar a vontade com a necessidade. "Domingos são sempre domingos. Não adianta, portanto, chegar num domingo como esse e querer resolver os problemas do mundo, por mais que ele seja problematizado por nós, ociosos do século contemporâneo. Os touros bufam pela brabeza e nós bufamos por uma perda. Os touros se apresentam com a testosterona e nós pensamos insensíveis. Os touros são felizes na natureza e na mesma natureza nós pecamos contra nós mesmos. Somos dois seres numa engomação alheia, somos virtualismo sobre uma carcaça concreta e tangível. Para vivermos, ao menos para vivermos, é necessário imiscuirmo-nos pelas veredas do prazer; o prazer supremo". Larissa, sua amiga de colegial, chupou-o, virou o rabo para ele e apoiou-se no azulejo do banheiro. A água escorria por seu corpo, pingava pelo pelinho de sua boceta. Nomálio agarrou-a com as duas mãos, para não perdê-la jamais, e foi direto à fissura macia. Fizeram o esquenta-esquenta. Ele estava prestes a gozar, ela também. Já sabiam o ponto de cada um, ao modo que se entrosavam sempre numa harmonia cósmica. "Segura", ela falou. "Segura dentro".

É bem provável que nenhum dos dois visse a mesma coisa, devido à alta temperatura que fazia vibrar os gases da atmosfera. Vestiram roupas de banho, colocaram alguns apetrechos, como um frasco de protetor solar, dois chapéus, duas toalhas, etc. Trancaram a porta. Cumprimentaram o pessoal da casa da frente. Beijaram-se, entraram no carro. Nomálio disse:
- Vamos ao clube com minha gorda Fabrícia lá?
- Não. Praia!
- Maravilha!

07 Setembro 2008

A Vida de Eskobar

{Cap. 1 - Como vieram ao mundo as ascendências}

(I) À periferia da conotação


Durante quatro horas fiquei sentado, escutando ou tentando escutar o que o palestrante dizia. Eu estava com fome, mas com mais sono do que fome e com muita sede e ainda com mais desgaste físico do que tudo. Minhas anotações eram desenhos à caneta, rabiscos de "taquigrafia modernista", coisa de vanguarda. Deixando de lado as palavras indecorosas e cansativas do professor doutor, olhei para minha mão direita como quem confere se ainda é a mesma de sempre, aquela que fora mão na infância e que seria mão até a morte. As rugas estavam mais profundas, as marcas bem delineadas demonstravam uma palma suave e vermelha com partículas brancas de gordura debaixo da pele. Esfreguei-a contra a outra mão debaixo da mesa, por entre as pernas cruzadas, sem fazer muito alarde. Eu queria desistir, mas pensava que se eu ficasse ali eu memorizaria alguma coisa para escrever mais tarde. Ao jornal, eu só precisaria levar essa matéria e poderia trabalhar na notícia que me interessava. Seria um esforço gratificante. Voltei a prestar atenção, após esfregar os olhos com as mãos quentes.

Descansando as vistas, outra vez, voltei a ver minha mão direita. Percebi naquele instante que a mão pode ser uma espécie de guincho, de guindaste e servir como gancho, presa mortal para a comida de um homem das cavernas. Pressionei o indicador contra o polegar e repeti a ação algumas dezenas de vezes. A mão do ser humano - tive epifania -, gloriosa, é indispensável. Tentei imaginar-me aleijado, sem mão, impraticável, mas lembrei de suicídio. Impossível estar sem as mãos.

Contudo, para mim, mãos eram mais do que ferramentas de percepções óbvias. Minhas mãos traziam à minha mesa meu alimento diário. Sem elas eu não poderia escrever para o jornal, masturbar-me no banheiro ou no quarto ou tocar na pele alva de Rosa, com a suavidade que, segundo ela, só eu tenho. Lembra-me, de fato, o suicídio.

Descasquei aquela voz enrugada do professor doutor que não sabia do que falava, pois agia feito um larápio que daria a bunda, de sua namorada, na esquina, à meia-noite ‘friolenta’ de inverno chuvoso, para ganhar algum dinheiro extra. Bati com a mão fechada, na mesa, bati com a mão aberta, levantei-me sem olhar para as pessoas, agindo naturalmente, pensado que eu estava nu e segui para a saída. Eu escreveria qualquer coisa, eu daria conta, seria de praxe; não me seria permitindo determinar minhas próprias matérias no trabalho, eu riria, aceitaria o dinheiro da forma mais fácil, não iria gostar de encrenca com o chefe.

Na verdade, ‘desconstruindo’ todo aquele ‘virtualismo’, eu estava de volta ao mundo. Estava fora do anfiteatro medonho. Peguei meu carro, enviesei por algumas dobradiças coletoras e saí numa movimentada arterial da minha cidade. Numa ruela escondida entre prédios, vi um boteco atraente. Fui até lá, estacionei na calçada com o bico do carro virado pra rua, pois seria mais fácil sair depois. Novamente eu estava no ‘virtualismo’ desesperador e viciante.

Fui até o balcão, retirei um trocado do bolso, colocando-o sobre a prancha de atendimento e pedi um chope. Maravilha de chope! A cerveja desceu feito néctar dos deuses. Os nós e as dores das costas foram lentamente desaparecendo. Até puxei conversa com o senhor de trás do balcão. Depois, compondo um tripé, encetei um diálogo com uma morena de porte atlética e baixinha.

O senhor do balcão levou duas canecas de cerveja, ficou lá participando como agente passivo da conversa. Eu dizia uma letra, um fonema, a mulher remexia os lábios carnudos vorazmente, liberando a sonoridade de suas ‘linguadas’ rebatidas no palato umedecido pela cerveja gelada. Eu fugira, rugindo por dentro, de uma palestra infindável de um sujeito que não fechava a boca, mas ali não estava nem um pouco cansado. Aquela mulher muito atraente me despertava a libido.

Mal começara a noite, na verdade. Fomos para um motel próximo ao bar. Sônia, a caramujinho, como disse-me que chamavam-na, pediu um filme que eu não conhecia e uma champanhe no gelo. Bebemos a garrafa inteira. O filme era um 'trash' pornográfico, em que um cavalo negrão metia secamente numa égua ruiva. O gemido da moça do filme foi tão verdadeiro, tão quente, esganiçado. Encostei a mão na ‘prexeca’ de minha dama, lentamente. Ela anuiu ao pedido indireto, levantando a saia e pulando para cima de mim. Retirei sua blusa vagabunda com minhas mãos suaves. Abaixei sua calcinha e minhas calças. Sônia me lambeu antes de meter os lábios grossos na minha pica duríssima. Eu rosnava como um gatinho. Sem querer, gozei; talvez tenha sido pelo tesão da cerveja e, pelo mesmo motivo, Sônia pirou sua lucidez, concedendo uma vadiagem pouco amena para a noite. Soltou um murro na minha cara e depois outro e mais outro. Eu não podia responder àquela velocidade animalesca. Quando ela terminou de me esmurrar, olhei-a bem nos olhos, os quais me ordenavam que eu me deitasse quieto com mensagens explícitas de sexo brutal. Recostei a cabeça no travesseiro. Sônia desceu na boquinha da garrafa. Rebolou e utilizou seu pompoarismo irônico sobre minha parte central, enquanto segurava minhas mãos no alto de minha cabeça. Eu gozei novamente, mas segurei a euforia. Sônia, uma cadela preparada para a vida de mulher sem sorte, de mulher não burguesa, não gemia, mas urrava às vezes. Sua cabeleira sarará balançando, seu cheiro de sovaco suado, sua pele morena e reluzente no quarto do motel, suas costas femininas que eu via pelo espelho do teto, seu pescoço, suas mãos quentes, as coxas pressionadas em minha carne mole e ‘coceirenta’, toda essa física misturada à minha flor condoída de uma crise existencial surtiam um efeito similar ao agonizante e ao mesmo tempo prazeroso cutuco de um demônio fêmea sarcástico e depravado.

Era madrugada, estava tão quente quanto havia sido o dia todo. Levantei da cama com os lençóis amassados. Observei aquele quarto de motel com minúcia. Queria testá-lo, saber se ele poderia me servir noutra ocasião. Pensei que sim, oras. Fui ao banheiro e vi alguns pacotes de camisinha. Não me preocupei em ter me coçado na carne viva e quente daquela morena sem usar preservativo. A noite foi mais valiosa do que qualquer sífilis.

Liguei o chuveiro e fiquei pensando por alguns minutos com a testa na parede enquanto a água caía. Lavei-me rapidamente e decidi que eu preciso voltar para casa. Eu tinha que terminar a matéria do jornal. Fui ao quarto, comecei a me vestir. Sônia acordou com um pouco de ressaca e torta. Fiz massagem em suas costas. Quis fodê-la novamente, mas ela poderia cobrar algum dinheiro e sairia caro demais.
- Você é bom nisso, cara - Sônia disse. Eu não respondi. - A gente poderia marcar mais encontros, o que acha? - Ela falava mostrando sua língua vermelha e carnívora, prendendo-me a atenção naquela musculatura bucal.
- Pode ser - eu disse, afinal.
- Você fuma?
- Não, não fumo.
- Por que está se vestindo?
- Preciso vazar.
- Já?
- Eu preciso.
- Você me leva pra casa?
- Prefiro te dar algum dinheiro.
- Pensei que você era um solteirão em busca de uma namorada.
- Pensei que você fosse uma puta.
- Droga.
- E então?
- Deixa uma grana pra eu voltar.
- Tudo bem. Eu coloco um dinheiro bom na sua calcinha que está jogada ali ao pé da cama e pago toda a despesa lá embaixo. Você pode ficar aqui até o prazo acabar, se quiser.
- Acho que vou aceitar a oferta.
- Fechou então.
- Obrigada.
- Tchau - despedi-me, beijando-a uma última vez.

Guardei o carro na garagem. Minha casa era uma herança de família. Coisa rara atualmente. Entrei, tranquei a porta e minha esperança de trabalhar se foi. Talvez eu nem fosse ao jornal na manhã seguinte. Consegui tirar de supetão os tênis e a camiseta antes jogar meu corpo na cama. Quando tombei, minha alma saiu voando livremente pelo mundo. Eu havia desistido de escrever naquela madrugada.



(II) O pontapé ‘bio-mongolóidico’


Ao despertar, senti uma dor imensurável no lado esquerdo do corpo, do pé à cabeça. Tentei alcançar o telefone, o que foi impossível, pois quando estiquei o braço, perdi totalmente o controle sobre meu membro. Levantei-me e fui até o espelho, berrando. Minha pele borbulhava. Tirei a roupa. De repente tudo se anestesiou e passei a sentir uma tremenda fome. Fui à cozinha, joguei a caixa de cereais numa tigela enorme, coloquei leite e comi. Não havia mais dor, porém eu sentia a pele estourar bolhas, ferver incansavelmente. Eu não olhava os ferimentos que apareciam, apenas comia, atendendo aos pedidos do corpo. Uma voz distante, ainda que dentro de minha cabeça, dizia-me para comer e não me preocupar, que estava tudo certo. Eu não me preocupei. Apenas comia meus cereais.

Abri os armários, bebi mais leite. Tomei dois litros de água, comi bolachas, uma barra de chocolate e todas as minhas batatinhas fritas. Enquanto não houvesse dor, estaria tudo bem. Não havia sangue também. Uma força inexplicável derrubou-me. Fiquei deitado e tremulando. Porradas saiam do meu lado esquerdo. Senti as camadas de minha pele se abrir, despregando-se em fibras gelatinosas, pois eu as via muito bem. Meu coração disparou. Meu braço e minha perna enegreceram. Essa abertura jorrou sangue que foi enchendo as pequenas veias que surgiam ao meu lado. Caí no chão. Meus órgãos, meu corpo todo estava sendo replicado. Uma gosma se esparramava pelo chão cheirando esperma. Não suportei aquilo. Meu cérebro ‘desbirocou’ e eu adormeci.


[Sebastian ficou deitado durante horas no chão de sua casa. Tinha sangue ressecado que escorrera pelo nariz. O lado esquerdo de seu corpo estava cheio de ferimentos e queimaduras, mostrando a carne vermelha e amarelada. Dois dias se passaram desde o incidente]


Abri os olhos devagar, fechando-os em seguida por não suportar a luz do sol que atravessava a janela. Quando me acostumei à forte claridade, dei-me conta de que estava deitado em minha cama. A cabeça doía um pouco. Eu tinha o corpo todo enfaixado e sentia, por baixo dos curativos, uma pele com rachaduras. Levantei com esforço e fui até o espelho. Todo o lado esquerdo fora danificado. Minha boca tinha um enorme rasgo, do meu peito, minha coxa, minhas bolas, toda a parte daquele lado do corpo tinha ferimentos, notei depois. Mas eu não sentia dor, ainda que exaurido, devido a grande atividade biológica que se passara ali em meu quarto. (Soube mais tarde que eu havia sido duplicado).

Fiquei assustado quando a porta começou a se abrir. Levei um susto maior ainda quando eu vi um estranho tão familiar vindo em minha direção com um copo de leite e um prato com pão e manteiga. Eu aparecia a minha frente. Eu havia cuidado dos meus ferimentos, mas eu estava inteiro. Eu não sentia aquele corpo, que era meu. Prendi os olhos nele e não parava de pensar em como eu não poderia estar pensando naquele corpo e em como eu estava, em plena consciência, num corpo meu além de mim.

Meu corpo sem sangue e minhas tripas sem alimento; eu não poderia fazer um esforço sequer. Eu me alimentou durante algumas semanas e, ainda pelo efeito da separação que, mais tarde, seria explicada com pormenores, precisei de um tempo para me adaptar e aprender a aproveitar a situação. Demos um nome ao segundo Eu: Eskobar.

24 Agosto 2008

Muito longe

Havia sonhos que perturbavam Elias, porém ele nunca havia sonhado. Sentiu um arrepio, naquela tarde em que acordou melecado de suor, tomou um copo d'água, abriu a janela. Ao pôr do sol, muita gente ainda caminhava afoita lá embaixo, sobre as calçadas. Sentiu mais repúdio do que amor pelo seu apartamento, botou uns tênis e saiu pela porta dos fundos, para descer pelas escadas; queria exercitar-se. "Eu nunca tive um sonho, um sonho pleno, um daqueles que se tem ao dormir profundamente", pensou. Entrou numa pequena rua pensando naquilo. Já estava quase escuro. Quando ele dorme profundamente apenas dorme e, imagina, pelos filmes, pelos livros, pelas histórias que ouviu, que é como se ele desmaiasse. Dorme e sonha no momento antes de desmaiar e sonha no momento pouco antes de levantar, quando sabe novamente de sua existência, quando está semi-acordado e só falta levantar para concretizar a realidade. Pensou então, ao ver uma silhueta acender um fogo, um risco no escuro que não o aceitava em troca e ia-se rapidamente; pensou que seus sonhos não passassem de idéias descontínuas, idéias ou pensamentos que ainda não sentiam o peso da realidade concreta, mas já sabiam de sua existência de um mundo com leis físicas. Passou a mão num afago aos olhos fechados; seus olhos ardiam, ele os sentia fervendo, e quando os fechava era como se eles voltassem a se resfriar; olhos superaquecidos, ferramenta inútil num domingo. Ele não saberia andar de olhos fechados; ele não tinha mundo, nem paz, para olhos fechados.

Mandou-se em marcha, atrás de um destino para seu corpo. Não havia destino. As estrelas, explosões tão distantes, davam-lhe apenas o vento gelado de suas sobras e ele sentia frio. O que era sua carne? Gordura sobreposta, pelancas, ossos, fibras. Ora pensava em ter uma boca titânica, que pudesse engolir tudo, pessoas, cidades, os planetas, os céus, as estrelas, tudo, tudo dentro dele, tudo em paz, ora não cria na sua condição de vida. Ele não poderia estar lá, andando, seguindo adiante. Ele cortava um espaço sobre um tempo, a medida de um referencial que ele não sabia o que era. As estrelas estavam muito longe, assim como a Lua e o Sol. Concluiu que a noite vinha ao seu encontro lhe consolar, num desatino que violava as leis inalteráveis.

Parou numa loja de conveniência de um posto de gasolina. Certa vez, recordou-se enquanto esperava na fila de um orelhão, teve uma memorável epifania. Não sabia ao certo se ele obedecia à epifania, mesmo que inconscientemente, mas tornou-se um errante, um viajante, alguém impróprio para o todo. Há anos, olhando para o crepúsculo, resmungou que ele não deveria interferir na vida dos outros. "Somos todos, deuses que se melecam de suor, urinam; somos igualmente flatulentos, arregaçamos as mangas para depois cairmos num sono eterno. Eu não deveria interferir nas decisões dos outros, não deveria dizer o que era para o outro fazer! Preferia sentir o cheiro das matérias, o cheiro dos nomes, o cheiro das cores", disse.

Tentou ligar para algum amigo, mas quem? Disse obrigado para a pessoa que estava atrás dele. Ela queria lhe bater. Perguntou se ela queria tomar uma cerveja junto a ele e a pessoa se recusou. Comprou uma vodka na loja do posto e sentou-se numa das mesinhas: carros a todo instante, pessoas conversando limitações que ele, em sua altivez branca, não compreenderia facilmente. Sua língua era a língua das aves fundida a língua dos homens e, o rio no qual ele se margeava estava bem longe do mar de toda aquele gente.

Debruçou-se, como que se precisasse novamente desfazer-se, descompor-se. Imiscuído nas suas vicissitudes virtuais, em estado de vigília e de nádegas ancoradas, cutucaram-lhe, pobres homens sem pigmento, assombrosos, que por indolência ou insapiência, que por uma decisão tomada à esmo, queriam jogá-lo como fazem a uma bola de futebol.

Remontado, ansioso pelo sol que surgira, ele deveria ir para casa? Ele não tinha casa senão o próprio mundo. Sua casa era de paus, cimento, tijolos e aluguel. Quem pagaria seu aluguel? Pensou que aqueles como ele, os outros pudessem pagar; os outros, parecidos consigo, estariam sendo chutados e sobre eles estariam cuspindo, enquanto rodavam e cuspiam e defecavam juntos, num só tempo de vida, num piscar de olhos, iluminados pelo mesmo sol. Quem agüenta trabalhar para isso? Quem agüenta não saber nada ao conhecer muito? Ajustou-se, partes por partes, para a ponte. Notou, com temor, pouco depois de se arrastar alguns quilômetros, que em sua perna havia sido feito uma fissura, que já estava cicatrizando. Ele estava tonto. Para onde iria? Talvez ligasse para algum amigo, mas que amigo? Todos envolvem o amor nas peripécias do destino. Que destino? Tudo é interesse. O sol estava muito longe. Talvez, pensasse naquele instante, talvez se ele se jogasse da ponte - tão perto, já ao alcance da vista - seu peso levasse essa bola atmosférica para lá e o jogasse nos seus sonhos, como é feito com as sacolas plásticas fétidas ao caminhão de lixo.

07 Agosto 2008

A Revelação de um Anão

Primeira Parte

Eu saí de casa bem vestido, usando uma roupa limpa. Troquei as calças, a camiseta, as meias, a cueca, peças que há dias precisavam ser trocadas. Estava um homem novíssimo. Dirigia-me para uma exposição de arte pós pós-moderna. Antes de ter saído do lar ainda, atenciosamente telefonei para Cátia. Não queria aparecer em público, num dia tão raro por eu estar bem cuidado e saudável aparentemente, sem festejar depois com alguém que tenho muita estima e admiração deveras.

Era sábado, havia chovido de manhã, mas como em todos os verões de toda região que conheço no país, o sol já ardia novamente sem nuvens para amenizar seu fulgor. A umidade unida ao calor fervia-nos, via-se o vapor levitando do asfalto das ruas e calçadas, um vapor quente, aquecendo as folhas das árvores, ou fritando-as, estuporando minhas narinas, angustiando-me por agonia que me fazia sentir ao açoitar minha pele. Era, enfim, um sábado de verão formidável, no qual entre o vapor e o sol eu vislumbrava os parques com as folhas de seus vegetais ainda secas, por culpa do inverno tão seco que, felizmente, já se despedia; as pessoas suadas, a música da convulsão urbana super-atiçada, bailavam-me à vontade.

Desci do táxi cinco ruas acima para me restar algum dinheiro depois. Dei uma nota bonita à moça do guichê e entrei no saguão. Era enorme por dentro, tão grande em extensão quanto em altura e profundidade no mapa que analisava. Li o aviso à entrada, havia três alas. A primeira era logo onde eu estava, continha quadros das mais variadas espécies. A segunda, segundo o cartaz, ficava “abaixo do solo, abaixo do magma, abaixo da lua”. A terceira estava nas alturas e, tão entusiasmado, nem terminei a leitura. Sentei-me numa cadeira ao canto à espera de Cátia.

Ela apareceu bonita como sempre, esplendorosa e inabalável. Abracei-a e logo quis ir mais afundo, puxando-a pela mão, mas ela empacou e quis conversar:
- Está bonitão.
- Hoje dei atenção a tudo, lá em casa, inclusive a mim, nos mais minuciosos detalhes.
- Isso é muito bom. Seria melhor se fosse assim uma vez por semana.
- É verdade, concordo, mas já notei, com estudos científicos, que ao menor suspiro de verve, perco-me e confundo-me incontrolavelmente e só quando estou esgotado é que retomo minha humanidade social.
- E isso aqui é o que, afinal?
- Uma exposição! Não havia lhe contado?
- Você disse que estava no banho, enquanto falava comigo, desligou na minha cara.
- Oh, desculpe. A música estava muito alta.
- O que escutava na hora?
- O Fortuna! E, não se escuta música, ouve-se. Música é a expressão universal dos sentidos, é a base indestrutível para termos a razão tão frágil que possuímos.
- Tudo bem, não precisa ficar exaltado.
- E então vamos ao fundo disso, minha adorada?
- Sim, mas como se chama a exposição?
- Alfinetes dantescos e tormentosas auréolas.
- É mais uma daquelas exposições com obras de gente maluca, mas sofisticada e estilosa, com influências do modernismo?
- Mais ou menos. Na verdade, talvez, isso possa ser atribuído como a pré-coisa, pré-definição do que virá daqui a alguns anos.
- É uma premissa? Nova era?
- Pode ser.

Enganchei meu braço no braço dela e fomos passeando de tela em tela. Pouco depois parei e respirei fundo, fiquei encantado com uma pintura de um safado chamado Eskobar C. B. Seu último nome estava abreviado! Entretanto, o que mais me chamou a atenção, e que ganhou totalmente meu gosto, era a harmonia do composto de cores. Eu nunca vira tal aquarela em azul, roxo e verde. Era um homem, ou uma mulher dançando? Ou um chapéu dadaísta ao estilo do cachimbo de Magritte? Reconheci ao fundo um copo com erva de tereré. Pude concluir que o sujeito era da minha terra e depois eu o procuraria para uma prosa. Andando mais um pouco e para além dali, Cátia quem nos parou daquela vez. Encantou-se com as abotoaduras gloriosas, douradas, de um uma camisa de capim. Eu soube apreciar também aquilo, mas não foi o bastante para o que encontraria mais tarde. Próxima a escada que deveríamos usar para descer até a ala subterrânea, quis chorar ao ver um girassol esquartejado, com um fundo castanho-avermelhado empobrecendo a situação. Meu sonho de rever um girassol, como havia acontecido na infância, foi praticamente extinto ali. Apertei com força a mão de Cátia e entramos no túnel declinado.

Parecia não ter fim e comecei a acreditar que iríamos para abaixo do centro da terra. Como as lâmpadas estavam bastante espaçadas, passávamos por pedaços da escadaria pouco ou nada iluminados. Temia o pior, mas era bobagem, pois Cátia afirmava não haver o pior em lugares onde se paga pelo lazer. Acreditei fielmente!

Ao chegar lá, notei que era muito quente e abafado, recoberto com paredes de pedras maciças. Ouvimos ecos estranhos e distantes. Gritei perguntando se alguém estava por ali e uma voz diferente respondeu para pegar a trilha à esquerda.
- Mas se é um eco, a voz que veio pode ter ricocheteado na parede às nossas costas e, portanto, ela veio dali. Mas a voz pode não ter rebatido e sabemos exatamente a direção da qual ela veio e, dessa forma, devemos entrar à direita, uma vez que suponho que nosso interlocutor esteja de frente para o buraco ao qual gritou convidando-nos.
- Ou por outro lado a voz rebateu em todo canto e chegou até nós. Não saberemos se é direita ou esquerda. Vamos fazer o mesmo que alguém provavelmente fez ao entrar aqui e encontrar esse alguém.
- Beleza.
- Lembrei de um livro que li aos dezessete. O Azul do Filho Morto.
- Do Mirisola?
- É. O sujeito era uma peça. Sua fantasia existencial era encontrar o buraco.
- E ele encontrou?
- Não se sabe. Ele achou vários buracos, mas o buraco ideal, eu acho, não é o que encontramos, mas o que fazemos, em nossa testa.
- Cátia, você é suicida?
- Não.

Encontramos a pessoa que gritara, finalmente, depois de caminhar bastante. Era um velho barrigudo. Ele segurava uma garrafa de água mineral. Cumprimentou-nos gentilmente, desviando logo sua atenção para o lado. Mudamos de posição para trocarmos nossos braços enganchados havia já um tempo cansativo. Ao lado, além do pequeno grupo de pessoas que se fixara ali, fora montado uma espécie de palco e lá estavam dois artistas sentados em banquetas. Um deles, nu e pintado de vermelho, levantou-se e bicudou furiosamente seu camarada, nu igualmente. O camarada sacou uma faca de algum lugar e furou seu agressor. Vimos sangue e um dedo, um ombro e um lábio inferior rasgados. Algumas pessoas gritaram de susto. Os dois atores se abraçaram e começaram a fazer sexo, como se nem ao menos sentissem dores físicas. Pareciam estar a sós sobre o palco de pedra forrado a feno. Estava escuro. A silhueta do povo a minha frente se distorcia, redobrava e voltava ao encaixe natural. Imaginei que a fumaça esverdeada que tragávamos continha uma porção de droga gaseificada. A situação estava empolgante e alucinante. Mesmo após anos de investida na adolescência, não conhecia aquela droga. A maior droga, concluí, era a situação e o desespero. O velhinho perto de nós se sentou no chão. Chamei Cátia e saímos.

Nunca pensamos da mesma forma, nem provavelmente sentimos o mundo do mesmo modo, porém ambos necessitávamos correr e assim, percorremos o percurso todo de um túnel solitário. Entramos numa sala resfriada, climatizada. O chão era estofado e havia almofadas, bandejas com frutas demasiadamente atraentes e suculentas, tubos gelados de cerveja, vinhos, aos montes, acoplados em nichos das paredes. Plantas podadas, bem arranjadas, postas em cada ângulo daquele cômodo de incontáveis lados. Bebemos e comemos e quando, de repente, alguém ligou uma valsa, dançamos feito apaixonados.

Segunda Parte

Deitamo-nos cansados num canto daquela sala, esperando algo acontecer. Fumávamos um baseado encontrado entre as frutas. Soubemos depois ser aquela a sala do anão. Talvez já tivesse anoitecido e amanhecido, pois horas depois, após termos dormido duas vezes, soltei um beijo em Cátia e ela retribuiu contente. Interrompemos a paixão no calor do momento quando o anão entrou. Era um homúnculo verdadeiro. Trajava bermudas que nele eram calças, vestia uma camisa bem alinhada e usava um chapéu panamá. De maneira incomum esteve longo instante parado olhando-nos, sem ter no rosto alguma expressão além da seriedade. Seria ele um artista também ou um maluco, um visitante, um assassino, alguém que se perdera? Cumprimentamos-lhe convidativamente para que ele se unisse a nós; estávamos leves demais para pensar em costumes; retornamos aos beijos e às pegadas.
- Posso sentar ao lado de vocês? – perguntou-nos o anão.
- Claro, o lado não é nosso, afinal – respondi, querendo não ser muito mal educado, mas sem dar trela demais, logo que percebi ser ele um otário.
- Venha, sente aí – disse Cátia, tão eufêmica, retirando-me de cima dela e se arrumando. Ela puxou o pitoco do baseado – Ta afim?
- Não, eu já estou velho – falou o anão. Eu só pensava em me calar.
- Você estava passeando pelos túneis?
- Não, não é bem assim. Vocês não leram o cartaz na porta, não é? Há quanto tempo estão aqui?
- Há muito tempo – disse Cátia – Só temos comido as frutas e fumado esses baseados. Já deve ser Domingo.
- Sim, já é Domingo. Eu venho lá de cima. Sou o criador dessa sala. É uma obra-prima, não é?
- É um trabalho de arte, então? – falei.
- O que mais seria, num lugar onde se expõe as obras de arte?
- Mas como é isso, afinal? – Cátia perguntou.
- Vocês andaram por todos os túneis?
- Não.
- Imaginei. Essa aqui é a última. Naquela porta vocês encontram o elevador para saírem daqui. Já foram à parte de cima?
- Não.
- Já leram Dante?
- Claro, sim.
- Vocês entraram e viram pinturas, então resolveram descer, não foi?
- É o que estava escrito para fazermos à entrada.
- Não, não dizia. Vocês imaginaram, pois ao lado da escadaria havia outro cartaz, em contraponto ao primeiro, avisando para ir ao inferno ou ir ao céu. Poucos desceram. Havia também um documento onde quem descesse deveria assinar um termo de responsabilidade e aceitação. Aqui é diferente, aqui não é céu. É uma exposição para a carne humana e não para a mente.
- Estamos fritos? Vamos ser mortos? Cátia perguntou, com tom irônico na voz..
- Não. Vocês estão perdidos e não vou ajudá-los em nada. Vocês precisariam de um guia que conhecesse o céu para levá-los de volta ao mundo normal.
- Ah, então a gente fica aqui mais um pouco e você volta pro seu casulo ali no escurinho – eu falei calmamente.
- Não, vocês não podem mais ficar aqui. São uns desavisados mesmo. Vou levá-los ao céu e os deixarei lá para que se virem.
- Oba! – falamos.

O anão foi a um pilar, apertou um botão para chamar o elevador. – Nós entraremos aí? Cabemos? O elevador suporta? – perguntei. Ele disse que sim e fomos então, muito apreensivos.

- Sabem, vocês talvez entendam o que isso represente, já que são uns birutas desligados do mundo, pelo que vejo.
- Mais ou menos. Apenas não queremos gastar a energia toda para o sistema diferente daquele que criamos após termos uma imaginação suficiente para tanto.
- Sabe por que há o trabalho? Para a sobrevivência. Mas e quando o trabalho de cem pessoas dá sobrevivência básica para elas e mais novecentas? As outras novecentas vão fazer o que?
- Mais trabalho – Cátia disse.
- Certo e esses outros trabalhos chegarão a uma nova área que antes não era nem pensada como possível, pois não se conhecia, nem havia se deduzido. Foi uma conseqüência do trabalho de uma que servia para ela e mais outras pessoas, do trabalho de cem que servia para cem e mais outras novecentas pessoas, que fez com que a tecnologia de todas as mil pudesse crescer. Note que as outras novecentas também vão trabalhar para elas próprias e para as cem pessoas basilares da tal sociedade estabelecida, aperfeiçoando todas as pessoas em conjunto. Mas com o tempo o número vai crescendo e há leis universais que impedem durante um longo tempo que todas as pessoas explorem o vácuo, outros planetas, outras áreas, pois a tecnologia ainda não permite. Algumas pessoas vão ficar sem trabalho e qual vai ser o sentido da vida dessas pessoas? Bom, essas pessoas vão questionar o sentido da vida e originalmente precisarão convencer aos outros de que o que fazem é importante, já que para os outros, a vida está boa, mas claramente, por dedução vivenciada, pode ser aperfeiçoada. No final, sempre por conseqüência inesperada de um avanço mecânico, técnico e programático, descobriu-se que na física universal, isso também acontece. Há o princípio, os átomos. Esses átomos, após inúmeras experimentações avulsas, vão se aglomerando até que uma parcela do vácuo seja preenchida por átomos. Os agrupamentos formam novos agrupamentos que formarão mais agrupamentos cada vez mais complexos. E acreditem, são muitos os átomos. – O elevador chegou, mas ficamos até o anão terminar. – O fato é que toda a existência humana é baseada nos princípios mais básicos, pois todos os princípios são construídos a partir das conseqüências das formações do início. O universo não tem suas leis definidas, pois define novas leis de tempo em tempo. Porém, as leis já definidas são muito difíceis de serem alteradas, pois como já estão definidas, são elas que formaram, conscientemente ou não, as novas leis que só existirão sobre as leis definidas. Pela Teoria da Associação Geral das Coisas, trazida a nós pelo falecido Eskobar, o homem que viajou por espaços, toda a humanidade pode e deve ser explicada. Aqui nós estamos dando uma amostra dessa razão ou desse produto. O equilíbrio em si não é o equilíbrio, mas a condição natural das transformações espaços-temporais. Paralelamente a essa noção, o trabalho humano, atualmente, para a grande massa, é um estimulante de equilíbrio do universo humano, resfriado pelas leis da complexidade do universo natural das coisas. Quando saírem daqui e eu for embora, fechem os olhos, pisquem três vezes e verão o que acontece com cada um. Depois contem suas experiências. Eis o céu simples e puro, meus senhores.

O anão foi embora por onde havíamos chegado. Pisquei três vezes meus olhos. Soltei Cátia para me proteger de uma ventania forte que veio em minha direção. Tudo ficou branco. Minha parceira sumira. Todas as cores desapareceram. Eu estava gelado e temeroso. Segundos depois, o mundo começou a se fazer abaixo de meus pés, mas eu não via o sol, nem o céu anil. Acima de minha cabeça estava um branco impenetrável. Cátia se encontrava um andar abaixo de mim. Gritei por seu nome, sorrindo, mas o sorriso logo abandonou meu rosto; Cátia não escutava. Ela começou a andar em frente e eu a acompanhava. O que ela estaria pensando? Ela estaria vendo o mesmo que eu? Não havia forma de saber. Segui-a. Tomando meu corpo como referência, percebi que ela andava em círculos e talvez ela não estivesse enxergando as ruas, as pessoas, os carros, a cidade toda como eu. Cátia seria meu anjo, desolada, encantada, pura? Seria eu o Deus que a tudo vê, mas que a nada altera, pois me é impossível alterar o estabelecido, conquanto o próprio estabelecido não percebesse minha presença e se alterasse. A lembrança do anão começou a me fascinar. Cátia se deitou de barriga pra cima, sorria e não me via de forma alguma. O que ela olhava naquele momento? Eu via tudo. Virei para os lados, percebi que as paredes eram de vidro, esmurrei-as, e nada acontecia. Um moleque roubou a bolsa de uma idosa; um motoqueiro atravessou o sinal vermelho e atrás dele dois carros se colidiram; uma pomba defecou sobre um menino, o qual arremessou uma pedra para feri-la em vingança, a qual acertou um transeunte e da qual uma borboleta conseguiu escapar por pouco! Tapei os olhos com as mãos, experimentei piscar três vezes e tudo se alvejou novamente. Eu não via mais nada! Segundos depois as paredes ressurgiram, eram de madeira, o chão de azulejos e ao meu nariz estava uma porta onde havia escrito uma placa: “Saída”. Desci algumas escadas e apareci ao lado da entrada da exposição e por onde outras pessoas iam. Cátia veio ao me encalço, abraçou-me, beijou-me no rosto. Segurando sua mão, olhei para a mocinha do guichê, que me devolveu o que eu tinha pagado pela entrada, sorriu-me e disse-me que eu saberia aonde ir quando quisesse voltar e em qualquer circunstância de desespero, era melhor eu piscar três vezes. Cátia e eu fomos para minha casa refletir sobre o acontecido.

04 Agosto 2008

De como há gosto pela verruga

Mário

Come a empregada para ter a casa livre para com os amigos fumar maconha durante a tarde toda.

A empregada

Valdívia, morena da periferia, fora bonita na adolescência, mas ao chegar aos quarenta e dois ainda não aparenta cinqüênta, mas carrega um rosto disforme com manchas de sol e óleo de fogão e mais sol, o abdomem com banhas sobrepostas, pernas e braços finos, mãos calejadas, dedos de chinelos de dedos eternos e encouraçados, dedos brancos, dentes amarelos, olhos enervados, cabelos crespos. Força sobre-humana.

Um homem

Visto de cabelos grisalhos, bem apinhado, com um rosto quadrado, como deve ser o rosto de um másculo na sociedade da beleza, ao centro da cidade, de sapato de couro brilhando, de moedas tilintando no bolso de veludo, com dentes brancos, olhos altivos, maleta na mão, relógio no pulso, dizeres ao vento que o escuta atento, passeia à vontade de manhã à tarde. Volta para casa e é pai, marido, janta, come, bebe, conta, perde-se em não ver-se e na cama dorme pelo escritório que o faz trabalhar para uma suposta família, um suposto par de irmãos, uma casa duvidosamente necessária, uma paz reconhecida em cartório e almejada. Trabalha como um porco para lucrar, mas nem par si próprio ele trabalha como se trabalhasse por virtude ou amor ao que faz.

Uma dona

Ela rega as plantas da varanda da frente da casa. Arruma os cabelos ao vento. Seu bairro é bonito, bem arborizado, com ar limpo, ruas largas, casas e mansões muito bem montadas com a alvenaria de um custo (de ouro) e de telhas e de jardins e de gramado frontal e de saneamento básico e de sol amigável e de água bem tratada e de costumes ali enraizados, existentes pelo esforços dos pés arruinados, das mãos arruinadas dos homens e mulheres calejados, como Valdívia em seu lar de sempiterna empregada, os quais dormem trabalhando para os bairros bem arborizados. Ela se despede do filhote, da cachorrinha lavada, das plantas, de Valdívia, a empregada, pobre, mascarada, e vai ao salão passar o resto de seu dia, despejando conversa com as mãos sujas de tinta da cabaleireira e com as senhoras de peles de caríssimo sabão.

Um estranho

Ele apareceu ontem, mas já pega a estrada logo mais. É o mais velho dos irmãos, vai como o pai e ja freqüênta o centro da cidade, já se veste elegantemente quanto às regras dos sapateadores brilhantes, pois como o pai, na sociedade da beleza, espera lucrar, porém trabalhará para sua função, feito prego que suporta a prateleira de sábios livros, para sustentar uma suposta casa, uma suposta família, uma suposta rotina e uma duvidosa vida. Mas nunca esse prego lerá um livro sequer das prateleiras que sustenta.

Mário

Olha Valdívia de soslaio, já sabendo do esperado pela pessoa, a qual quase não é mulher naquela casa dos caras da tarde. Julião, Marcelo, Flávio, Flávia, Camilo, Marília; matracas confusas, birrinhas que excedem a pobreza que só são possíveis porque são conseqüências do esforço da pobreza que trabalha e já não há suor na pele empedernida, pois o que faz é só trabalhar, por uma suposta família, por uma suposta vida, ao sustentar um suvidoso país seu.

Valdívia

Ela espera, ansiosa, o fim do dia. Os maconheiros se vão quando o sol já brilha distante. Ela finge varrer o chão de ladrilhos, bebe um copo d'água, pensa que não há o que conquistar com uma praga de uma suposta família, sustentada por um suposto "gentleman" dos negócios da sociedade da beleza, mas aproveita a esperteza para alcançar prazeres ricos e naturais. Seu filhinho, sua tarinha, Mário, gordinho, amante da tardinha, do sofá do quartinho, rechonchudinho, com dentes amarelos, relaxado, másculo com sangue da dona e do sapateador brilhante-mór nas veias, vai ao seu encontro, coloca sua cabecinha no seu peito caído à cintura, já emendando com a travessura um gozo quase transcendental. Ele lambe sua verruga com gosto e prazer, como se fosse um sorvetão de prestígio, e mete em seu buraco, afunda e afunda tudinho.

Mário

Está na hora de dormir depois da janta esquentada pela dona, da despedida do irmão, da faculdade cancerígena, da festinha com a vizinhança e da brincadeira da tardinha no sofá do quartinho dos fundos.

25 Julho 2008

Encontro Casual

- A Laura pulou de pára-quedas ontem! Foi incrível... vimos a guria caindo, caindo, caindo e o treco não abria de jeito nenhum, não abria e não abria, até que, de repente, surgiu a sacola de lona bem espichada pros dois lados e ela pousou aos nossos pés. Foi incrível!
- Isso não é nada. O Jorge é tri-atleta. Correu, nadou e pedalou por muitos e muitos quilômetros. Quando acabou de fazer os exercício iniciais foi para a prova e ganhou. Resolveu gastar o resto das energias e fez de Norte a Sul todo o estado correndo sem parar! Depois desmaiou, pelo esforço, mas ja ta com o pique de novo.
- Isso ainda é pouco, meus senhores - falou Evelyn, que estivera mais calada durante a temporadinha - Isso é pouco! Eu mesma estive lá, presenciei a loucura de um homem, cujos sentidos de realidade estavam completamente deturpados. Vejam só, ele pulou sem roupa alguma do terceiro andar, caiu e rolou, acendeu um cigarro enquanto se equilibrava sobre uma das pernas, lançou o cigarro e fê-lo parar em pé no meio da rua, ainda aceso, andou duzentos quarteirões plantando bananeira. Depois, começou a correr e então, dali a pouco, tirou do cu uma nota de dez, comprou duas garrafas de vodka, bebeu-as todas de um trago e tornou a correr. Foi realmente incrível, pois isso apenas era o começo. Ele avançou sobre um caminhão em alta velocidade, tirou a cabeça do pescoço, lançou-a enquanto o corpo rolava por baixo e encaixou-a direitinho no tronco, sempre correndo, em contra-mão. Louquíssimo! Depois disso eu tinha que voltar pro trabalho e fiquei brava porque perdi a hora do almoço.


Veridiano terminou o jantar, pagou diretamente ao garçom, dando-lhe uma gorjeta graúda e a garrafa de vinho pela metade. Ao sair do restaurante, uma mulher esperava o táxi. Ficou ao lado dela, sem cumprimentá-la, reparando a noite sem estrelas, imaginando uma terrível madrugada chuvosa.
- Vem vindo um. Aceita dividir?
- Oi? Ué! Depende. Não sei. Pra onde vai?
- Aonde vou? Táxi, táxi. Vamos dividir, eu não vou a lugar nenhum.
- Se não tem lugar pra ir, pra que gastar dinheiro? Ande!
- Quero ir até onde uma das notas do meu bolso puder pagar.
- Beleza, mas eu vou pra longe, e se sobrar dinheiro, topo até tomar uma cerveja.
- Legal. Viu como não ter aonde ir é algo agradável, às vezes. Posso fazer meu caminho ao acaso. Agora vou até onde você for e ainda beberei uma cerveja com alguém pra conversar.
- É, bom, tudo bem. Olha um maldito táxi aí. Até que enfim, esse parece que vem.
- É!
- Puta merda! Outro que vazou.
- Talvez, eu me aproximando assim de você, eles confiem mais. Hoje em dia os motoristas olham e pensam que as pessoas são ladrões.
- É. dê sua mão.
- Viu só, deu certo. Boa idéia!
- Agora pode soltar.
- É. Desculpa.
- E qual seu nome, senhor sem rumo?
- Veridiano.
- Não conheço nenhum.
- Agora ta conhecendo.
- Sou Evelyn.
- Belo nome. Meu sobrinho namora uma Evelyn.
- E o que tem isso a ver?
- Ao menos eu conheço uma Evelyn.
- Louco!
- Pois é.
- Desculpa a desconfiança, mas não vou pra minha casa com você. A gente vai pra outro lugar. Topa beber umas cervejas então?
- Topo. Você me leva aonde estiver com vontade de me levar.
- Então - disse Evelyn olhando para o taxista - vamos pra esse endereço aqui - e escreveu num papel qualquer as coordenadas.
- Quanto segredo.
- Você não precisa ficar sabendo.
- As flores bem aventuradas cheiram bem e não sabem disso, deixam o encargo glorioso para as abelhas, para nós, para as borboletas, que são coisas belas e funcionais.
- Louco!
- Posso ser, mas qual seria a diferença? Você me chamou pra beber cerveja em algum lugar que provavelmente eu não conheça. O louco sou eu que aceitei ou você quem chamou um estranho que a abordou na rua à meio da noite?
- Bom, somos ambos loucos!
- Melhor assim, pois você é tão bonita pra reservar a si apenas um ponto de vista.
- o que tem a ver eu ser bonita com filosofia?
- Creio que as pessoas ficam mais bonitas quando aprendem a pensar na relatividade, na associação das coisas; quero dizer, quando ficam mais inteligentes ficam mais bonitas, e olha que eu desconsidero, nessa teoria a questão da esperteza.
- Então o diabo seria alguém maravilhoso?
- Provavelmente sim, se o diabo existisse pessoalmente.
- Não acredita em Deus?
- Acredito, mas como você ja deve ter ouvido bastante, acredito à minha maneira.
- Muitos ja falaram isso, assim.
- Pois é.
- Você olhava pras minhas pernas agora há pouco!
- São pernas bem suculentas e torneadas. Você vai à academia, não vai?
- Vou, três vezes por semana.
- Antes de esperar por um táxi ao meu lado, o que fez durante todo o dia, desde que levantou da cama?
- Hoje foi um dia muito louco. Eu estou fazendo uma reportagem sobre o ácido.
- A droga?
- Sim. Há dois dias fui à casa de alguns amigos que são mais "familiarizados" e experimentei o maldito, ou bendito, ácido. Na moral, é de pirar! Por dois dias estive doidona, tanto que estou um pouco desligada da lucidez. Fiz isso pra sentir na pele como é. Nunca tinha usado droga nenhuma, exceto maconha e álcool. Ja fumei cigarro também, mas vi que era perda de tempo.
- Então.
- Bom, levantei hoje cedo da cama de um amigo. Provavelmente nós passamos a noite juntos, mas ele estava muito mais podre do que eu. Tomei um banho e nem me importei de ficar pelada no boxe do banheiro, na casa desse meu amigo, com um bêbado mijado lá dentro, desmaiado. Peguei minhas coisas e encontrei uma amiga que morava ali perto. Almoçamos juntas, passeamos pelo parque e quando ela foi embora aproveitei pra escrever um pouco mais a matéria aqui no computador. jantei no mesmo restaurante que você, pois o vi lá se melecando com o macarrão.
- Pois é, manchou, olhe só. Foi um desastre.
- Saí e você saiu atrás de mim, pensei que me seguia. Mas vejo que foi tudo casual.
- Ou não foi? Eu posso ser um "serial killer".
- Mas você não é. É aberto demais pra isso.
- Pensei que falasse pouco.
- Aberto noutro sentido, não sei como explicar.
- Você é realmente bonita.
- Eu sei, obrigada.
- Ainda falta muito?
- Alguns quilômetros. Por isso não pude voltar antes pra casa.
- Entendo.
- Você ainda olha pras minhas pernas.
- Não sou tímido.
- Logo vejo. Mas mesmo assim acho que você é, em determinadas ocasiões. Talvez agora você não esteja sendo tímido, mas eu ainda acho que você é.
- É, eu sou, mas isso não importa. A timidez é algo contra o qual se luta diariamente.
- Para um tímido. Eu não sou tímida.
- Percebo.
- Você responde a tudo o que digo.
- Oras! E se eu não respondesse mais?
- Não faça isso. Mas é que é estranho.
- E quem saberia dizer se já não nos cruzamos várias vezes por aí, pela cidade?
- É mesmo. Ninguém saberia e não é bom pensar nisso.
- Por que não?
- Você tem que ter um foco, um objetivo. Não pode pensar muito. Deve ter uma cota limitada para pensar por dia, senão enlouquece.
- Concordo com você, Evelita.
- Sabe aonde estamos indo?
- Não. Aonde?
- Para minha casa. Vamos tomar umas cervejas lá. Preciso tomar banho, tirar essa sujeira do meu corpo. Você pode dormir lá hoje.


10 Junho 2008

Pelo amor de Vera

A mulher temia enlouquecer. Chamava-se Vera, era bonita de rosto e de corpo. Nunca falou muito, e às vezes não dizia nada, mesmo que aquilo nunca implicasse em problema algum, muito pelo contrário, mesmo que fosse útil, mas era extremamente envergonhada. Geralmente ela ficava apavorada diante de uma multidão, ainda que o último psicólogo lhe tivesse dito para ter sempre pessoas ao redor.

Vera morava num apartamento e não pagava aluguel. Era empregada doméstica de uma espécie de família. Seus patrões eram dois casais, quatro mulheres e quatro homens, todos eram idosos e pagavam-na mais do que o suficiente. Com o salário, Vera matava as contas de casa, incluindo compras de mercado, sustentava dois filhos que dividiam uma casa com um primo noutra cidade, tendo em vista que estavam na faculdade, e ainda possuía ações na bolsa.

A empregada foi de metrô e andou mais oitocentos metros para chegar ao trabalho. Ela comandava outras duas mulheres na mansão, uma vez que o lugar parecia mais uma chácara rodeada por muros altíssimos, tanto era a imensidão do edifício ali erguido. Vera fazia alongamentos todos os dias com Jaque e Roseli, as duas auxiliares que foram contratadas por ela e recebiam menos de quinze por cento de todo seu salário.
- Jaque, - falou Vera ao final do café-da-manhã - hoje a varanda, a edícula e a garagem são com você, terminando pode ir embora.
- E eu? - perguntou Roseli.
- Você vai preparar a comida, é claro, e como os patrões não vão comer aqui, ajude jaque e pode ir também quando acabar. Eu vou organizar algumas coisas lá pra dentro.

A empregada, empresária, gerente e também mãe não tinha nada para fazer aquele dia naquela casa. Fazia uma manhã maravilhosa. A brisa de pré-temporal estava fantástica e para o gáudio da mulher, Raí ligara convidando-a para sair. Um pequeno, realmente minúsculo problema, mas de força atômica a incomodava, um assunto peculiar, não obstante que preenchia ilusões de muita gente, mas que Vera, por questões incompreensíveis, guardava no peito em caixa de fogo, como para torturar-se prevendo sua fraqueza gradual destruí-la.

"Não sou nada. O que eu sou? Sou "slides" passageiros! Sou acontecimentos fracionados do universo. Minha carne, minha carne não toca nada, minha carne quente e macia de mulher faz parte do todo, mas o todo faz parte de mim e isso é nada, um nada de outra dimensão, de outra realidade; enquanto o nosso nada é o tudo do lado de lá. Eu penso em minhas moléculas e em uns membros eretos. Eu penso nas sensações, este é meu vício; pensar!, pensar assim!", pensava Vera sentada em uma banqueta do luxuoso banheiro do corredor enquanto vislumbrava o vaso de planta bem a frente sobre uma prateleira na parede.

Ela rapidamente saiu deixando para trás somente um bilhete dizendo que voltaria antes do almoço. "Preciso vê-lo, preciso tirar isso; meu nervosismo, minhas tremedeiras... droga... tudo de volta". Vera atravessava as ruas, absorta, disputando a atenção com os devaneios e o trânsito completamente assustadores. Uma bicicleta desavisada surgiu e quase, por apenas um triz, não atropelou Vera. "Mas será que hoje é um bom dia? Semana passada eu o visitei. Talvez seja bom eu voltar". Vera sentou numa cadeira próxima a porta, em uma sorveteria. Um rapaz de avental segurando uma caderneta parou a seu lado e ela continuava... "Não tenho nada para fazer, pelo que eu me lembre. Vou me acalmar. Curtir o bom tempo. O cheiro de hoje está agradável. Minha vida é ótima. Raí ligou. Os guris ligaram. Tenho dinheiro”.
- Oi.
- Oi, a senhora deseja alguma coi...?
- Tem prestígio?
-...sa...Deixe-me v... Tem, posso trazer como?
- Duas bolas, um canudinho daqueles e que seja o mais crocante. Quero cobertura de creme de milho.
- Tudo bem. Já trago para a senhora.
- Obrigada.

Depois de repetir a dose Vera olhou no relógio e, apaziguada, isto é, com a euforia congelada, algo a angustiou. "Putz. Tenho que vê-lo ainda hoje e vou demorar uns vinte minutos até chegar lá. Droga! Preciso me apressar!"
-Alô! Jaque, vê com a Roseli aí o essencial e se eu me atrasar até podem ir - Vera usou o celular.
Ela havia chegado. Estava transpirando gotículas de suor que limpou com uma toalha no banheiro, antes de falar com a secretária. Depois foi até o balcão:
- Boa tarde - Vera falou.
- Boa tarde. Você marcou hoje Vera?
- Eu vi meu suicídio! Preciso falar com ele.
- Vou ver se encaixo a senhora daqui a pouco.
- Obrigada. Vou sentar ali.

Duas mulheres bem tranqüilas folheavam suas revistas, com as pernas cruzadas ambas expressavam esnobismo e estavam bem acomodadas na poltrona.
- Vera, pode entrar - disse a secretária.
- Oi Alfredo - Vera o cumprimentou e fechou a porta da sala - Estou aflita. O mundo vai acabar!
- E daí Vera?
- Eu!
- Calma. Olhe pra mim. Vê aquele espelho ali? Eu lembro do que falou na semana passada, da sua dor pessoal. Do seu desespero instável. Vou entregar hoje a solução. Se há uma outra realidade do outro lado daquele espelho ou não, tanto faz isso para mim. Se estão dizendo que tudo ao nosso redor é inventado, oras, que seja! Mas essa invenção propriamente dita é justamente o que nomeamos realidade e não outra, pois não temos outra. Quanto à dor, eu digo o seguinte: "Para curar um vício, busque outro vício" Repita!
- Para curar um vício, outro vício!
- Isso aí. Ter sensações específicas, estimuladas pelo próprio cérebro, já é tê-las como vício. O vício da vida! Você só tem que poder possibilitar um vício melhor. É sério, acalme-se, eu não tenho diploma à toa. Marque uma hora e volte para falar amanhã.

Vera se despediu e pegou o caminho de volta. Fez todo o trajeto prestando completa atenção às pessoas, aos carros, de forma que nem conseguia pensar ou lembrar nada; apenas observava o céu, a rua, os vultos, os espaços seguros e inseguros e o rumo que tomava até a mansão.

Faltava uma quadra. Numa esquina distante, Vera viu Jaque e Roseli juntas. Foi encontrá-las. Jaque estava encostada na parede de uma loja, Rose estava à sua frente enrolando os caracóis. Jaque, já sem o uniforme de trabalho, tinha um belo vestido preto e calçava duas sandálias cinza com pedras reluzentes. Mesmo de longe, Vera quase pôde perceber a face maquiada da empregada. Um táxi parou lá. Ao ver as duas funcionárias se abraçando de tal maneira carinhosa, Vera diminuiu a marcha. Jaque e Roseli entraram de mãos dadas no táxi. Ao receber uma luz, Vera fez meia-volta e seguiu direto para a mansão. O táxi passou buzinando.

Saiu do trabalho às cinco. Os patrões estavam em uma festa na casa de amigos desde o dia anterior. Já era noite quando Vera terminou o banho em sua casa. Olhou-se nua no espelho tamanho gigante na vertical e imaginou que era deveras bonita. Atendeu ao telefonema de Raí e pôs-se a vestir um belo conjunto de peças italianas.

"Isso mexeu comigo. Por que Raí falou que aonde iremos nem dá para respirar? Ah, esquece. A vida é um vício! Estou cansada de tentativas fracassadas. Sou empregada doméstica e doutora. Eu já tenho o que deixar e deixo. Já coloquei meu quinhão de Deus no mundo empobrecido. Nada vezes nada é nada!" Vera nem terminou de calçar o segundo sapato. Pulou da janela do nono andar carregando uma lanterna e a mosca da derrota esmagada pela mão.

07 Junho 2008

Trecho x...n. de um capítulo do livro 4 da série “A Vida de Eskobar”.

Eskobar estava deitado no sofá macilento; as luzes estavam apagadas; a noite estava se aproximando. A famosa musicista Jane Jansen atravessou a porta aberta pela metade com seu violino acompanhada pela banda de alguns espíritos orquestrais, fechou os olhos de Eskobar com seus lábios contratantes e disparou as notas, compondo uma espécie de fantástica atmosfera sonora e aromática. Eskobar mantinha fechados os olhos, sem expressão, como se fosse um estóico, corroendo-se por dentro com as introspecções nunca terminadas, pelo caminho sombrio da mente. Seus ouvidos eram pequenos demais; sua boca confrangida queria crescer para engolir tudo; todo o ar, toda a música, toda a matéria, a não-matéria; o nariz não conseguia respirar oxigênio o bastante para seus pulmões, o nariz deveria ser maior; a boca deveria ser maior; os ouvidos deveriam ser maiores, para captarem todo o som, para não deixarem escapar nenhuma nota, para não se perderem, para não morrerem; Eskobar queria cuidar de tudo, comer tudo, enfiar tudo nele; o pescoço coçava gelado por dentro e quente por fora, endurecido; as mãos se tocavam e tocavam sua face e passavam os cabelos por entre os dedos concomitantemente; suas mãos queriam sentir o mundo, pegar tudo, enfiar-se com tudo goela abaixo, enfiarem-se, terem tudo, sentirem todas as sensações; Eskobar estava sem voz, cego e enlouquecido.
O desespero, exterior a ele, doía-lhe na carne viva; os olhos secos inundavam-se de desânimo. Ele tinha a vontade de chorar, mas só o fazia por dentro. Era incapaz, naquele instante, encontrar um abismo e lançar-se, embora fosse tudo o que desejasse ou então, passaria as honras aos instintos, sedentos, glutões, malvados. O concreto pesava sobre ele. O mundo invertia-se destrambelhado. Um agudo veloz perpassou cortando a carne do coração, ele meteu a mão no coração, entretanto, apressado, não conseguia segurá-lo; meteu as pernas nas pernas. Dançou perturbado, fodendo com a luz estagnada, com o pó não atingido pela gravidade, dançou a maluca espanhola, remexeu os cabelos e pensou que bastava. Mas não bastava! Seu corpo se retorcia mais do que nunca, fazia estralar os ossos, a cartilagem da coluna vertebral se dilatava, os dedos cresciam atraídos por uma força além, os dedos retesados levavam as mãos a todos os pontos, não encontrando nada, desenhando formas subliminares no escuro.
Ali já não se ouvia mais a música. A loucura tomara conta até mesmo de sua alma outrora tão perspicaz e concentrada. Os pensamentos se entrecruzavam, chocavam-se e atingiam-se destrutivamente. A desorganização o levava a loucura. As derrotas acumuladas o levavam a loucura. As imperfeições o levavam à loucura e ele só pensava; tentava encontrar uma resposta, somente uma que servisse para todos seus males de ressaca moral fodida, de tristeza multiplicada por imprecisões da condição humana, resposta que nunca poderia encontrar tão sozinho, uma panacéia “inacreditada” também pelo seu idealizador. Um homem como Eskobar atirara-se à massa fétida e grossa para ter dor nos olhos e pontadas estrídulas e afiadas no interior do cérebro pesado, carnívoro, doente e cruel. Eskobar gritou, diante das suas asneiras, gritou para o chão com sua gengivite: "Meus dentes não encontram o que comer!" Eskobar parou de respirar enquanto mordia a carne das bochechas, enquanto pressionava os dentes uns contra os outros. "Um asco", falou.
Cátia apareceu no momento em que ele tremia, já em pé, descalço e pelado. Eskobar tinha o membro levantado, terrivelmente feio e torto. Cátia o abraçou para acalmá-lo. Sua pele havia ficado muito vermelha, por causa das fortes unhadas. Eskobar chorou no ombro de Cátia. "Está bem agora?", perguntou-lhe ela, e ele apenas disse: "Nunca estive melhor".
Cátia o lavou em água morna e deitou ao seu lado, abraçada a ele, para dormirem juntos. Um desânimo sem igual a açoitava. Cátia viu o marido respirar fundo e abrir os olhos e também ela, com os olhos duros e secos, tremia silenciosamente as mãos e as pernas, assustada com o desespero que envolvia a todos.
Ambos se levantaram e resolvidos que naquele dia ninguém pensaria nas obrigações. Chamaram um táxi, pegaram algum dinheiro no banco e foram jantar fora em algum lugar bonito. Queriam ficar a sós e por isso foram a um pequeno bordel nas extremidades circundantes do ponto urbano, onde apenas aqueles que não os aborreceriam, definitivamente, lá estariam. Pela trilha os dois andaram até a edificação social, uma mansão com estrutura barroca, remanescente do período colonial. Ficaram atentos para as torres do alto, que os atraíram sobremaneira. Mesmo à entrada havia um enorme salão todo forrado com tapete de um vermelho morto, clareado por pelo menos dez mil luzes brancas tanta era ofuscação. Um recepcionista prontamente apareceu dando-lhes óculos escuros e explicando quais seriam suas opções.
Eskobar viu a sua direita uma porta que dava para uma das várias salas, de onde saía um cheiro frouxo de incenso barato. O funcionário, apinhado, bem vestido, com a barba feita e olhos profundos, logo explicou que aquela era a sala das duzentas peripécias sexuais. Mas não queriam aventuras experimentais. Eles precisavam de um tempo sozinhos, onde pudessem jantar e fossem bem servidos e onde tivessem uma bela vista.- Sim, sim, entendo o senhor! - disse o empregado - Vou levá-los à torre sempiterna dos “incondicionamentos” existenciais.- Isso realmente existe? Pensei que éramos preocupados demais com as abotoaduras da camisa própria - respondeu Eskobar.- Pois nem sempre, não pelo menos enquanto podemos bancar alguns sabores assim, digamos mais excêntricos e verdadeiros. Humanos! - fraseou o homem a quem eles seguiam por um corredor escuro, mal iluminado e mal cheiroso, subindo uma escadaria com degraus finos.
O senhor lhes deu uma campainha sem fio, para se acaso precisassem de mais alguma coisa e voltou à recepção. O casal sentou nas poltronas. Ao redor havia sete palcos pequenos e dois palcos, um de frente ao outro. Um som baixo percorria o ambiente que era bem espaçoso e decorado por tonalidades mortas, carregado pela penumbra da iluminação fraca. Eram atendidos sempre pela mesma mocinha que não vestia nada. A maioria das pessoas estava nua. Roçavam-se, abraçadas, ou beijavam-se calmamente. Em cada palco havia uma atração diferente e silenciosa. No grande palco a frente deles duas senhores, mascaradas, peladas, dançavam tango, usando cada qual uma coroa de penas de arara. Não prestaram atenção ao resto, pois ficaram se olhando por bastante tempo, até que a mesma mocinha apareceu subitamente trazendo o jantar. Ela perguntou se eles queriam conversar com ela, porque ela estava ali apenas para atendê-los naquele instante e não teria mais nenhum afazer. Cátia disse que ela poderia ficar ali e comer junto com eles. A mocinha foi buscar então um vinho. Quando voltou encontrou os dois se beijando tão apaixonadamente que ficou comovida e sentou ao lado de Cátia, dizendo ter achado ela muito bonita, e então as duas se abraçaram. Cátia chorou e pediu para a mocinha ir embora, já que aquilo estava bom e agradável para se sujar. Atrás do palco onde as duas senhoras dançavam foi ligado um telão. Eram imagens repetidas, com ritmo lento, de diversas flores sendo lançadas por um precipício que não se podia ver o fim.

17 Maio 2008

Usamos perfumes até para dormir, meu viciante mundo burguês

Agora o mundo já é burguês!
- E agora? -
Deram ao sol um bom cheiro;
Deram vida às roupas
que já falam e discutem as convenções;
Os chapéus quase exintos
dão espaço para as loções caríssimas
do mercado,
porventura consumidas em abundãncia por rico e famintos,
prostituta, gostosinha, menininha. Ladrões!

Há um perfume
nas penteadeiras dos Fulanos
para apenas serem usados
na hora de dormir;

Há o costume
das pessoas em fileiras nas prateleiras
de somente darem aos olhos
o furo risonho do cacife;

Eu rio, junto a meu tênis nhec-nhec
eu rio!, eu rio preso a meu tênis patife!

Há tal carência,
na infância, na adolescência,
de modos sinceros, humanos...
Todos trocados e que pena!
vendidos a um valor reles de aparência
(que sabe-se lá por quê fora elevado!)

Ah! Pobres carentes de velhos,
pobres pentelhos abandonados.
Ah, pobres!
Pentelhos, às fezes do inferno que os outros criaram,
sem nunca terem visto um bom, belo, bonito grelho.

Haverá leitor defasado num dia,
animado ou sem esperança,
malhado por um sistema perdido por aí,
Ou L-i-v-r-e-P-e-n-s-a-d-o-r
que sentirá minhas cuspidelas de agora:
- No meu mundo intuído, ó criança,
neste mundo meu,
bobo amigo,
sou único alvo
dessa minha própria arma,
dessa fuga, ao espaço, do mártir que nunca veio,
do problema que faz-me,
à mim
e à todos!
Problema singelo
que é usarmos perfume para dormir!

16 Maio 2008

E foi-se

de que servem todos os poetas juntos,
lá no "Parnassus", entoando, declamando,
eles, todos, a cantar, solfejar, cantar, berrar,
se não há público, no pico fogoso, com testas e ouvidos?

para que servem os políticos e a fome, chatos, lidos,
todos num grande salão reunidos, gordos e bocejantes,
lá na alva cúpula das decisões universais, no alto da torre,
se não há público no solo duro para escutá-los vibrantes?

o que será de uma beleza sem as cores,
de um mundo sem o chão, de um céu enegrecido,
de mãos erguidas no ar sem ter onde se enfiar?

o que dá pra fazer com um gole de poeira,
com um furo na tampa, com um rasgo na peneira,
na fornalha externa das remelas do público que dorme? Que dorme!

é fato

é fato que as gerações
mais duradouras,
"perfeitas",
potentes
campeãs,
são frutos das
maiores
besteiras!

05 Maio 2008

(axioma?) Do esquecimento

O esquecimento, definitivamente, é algo louvável; é fator principal que estimula gozos sempre novos, embora já existentes há algum tempo - tempo inderteminado, justamente.

Abraço.

24 Abril 2008


fotos de Vlastimil Kula.

À volta da fogueira

Brasa que folga meu dia
É uma agonia da roda à mesa
Flutuo fogoso e pensativo ao ponto que pesa
E cutuco, à vertiginosa querência do prazer, a ferida.

Brasa mais viva que todos os olhos
Encantando-me nas visões das ressacas aquecidas
Fogo gasto, seco, ali morte esquecida,
Um brado de dia velho, peito altivo.

Estrelas! Céu! Deus! Imagens!
Não deliro! Não delibero! Descomponho minhas suculentas fêmeas esfomeadas.
Há pouco grito! Há Ilusão tal qual cisma que farreia com os seres divinais...

Estrelas, céus, deuses. Devaneios da alma;
Que pó sou eu, oh todos tantos!, do tempo que não corre?
Que pó de amor humano sou eu, sujo, seco, insano
----------------------------- [do passo lento que nunca morre?]

Praquela transa

Não construamos um futuro brígido e supérfluo
Demo-nos os sentidos gerais;
Vamos! Façamos o presente – cadê o corpo?
- Quero tocá-la, dê-me sua mão,
O calor do momento! –
Quero ouvir-lhe falar
Comentários quentes e vívidos, mordazes e sedutores
- O que sente? O que vê? –
Não construamos um futuro brígido e supérfluo,
Menina,
Não construamos nada,
Não construamos uma idéia de ter.
Dê-me seu calor agora.
Dê-nos o momento de poesia em lazer.


Dedicado à Brígida.

12 Abril 2008

Puteiro feto, de quando um não cativou

As putas devem ser persuasivas, devem saber requebrar. Ontem fui a um prostíbulo, um “cabaret” bem “inho”, onde aquelas damas - algumas que chegaram de longe - dançavam, divertiam-se e conversavam muito. Elas não eram gueixas e provavelmente não seriam boas amantes. Enquanto eu fingia um nome mais atualizado, tipo João, criava uma personalidade distinta e fazia-me um velho contador de estórias para as três garotas sentadas ao redor, nos sofás de couro daquela varanda, passeava lentamente com os dois dedos sobre as coxas da mocinha da cidade maravilhosa. Eu não poderia ser eu num lugar onde as horas não corriam, onde o bolso pesava, num puteiro onde as putas não eram elas. A inocência da vida sem prática, porém com muita informação, dava-me gozos quase existencialistas e eu aumentava a força de fricção dali em diante por dentro das coxas da mocinha.

Dalila, supostamente a mais intrigueira do grupo, delatora das faltas para com as colegas, queridinha da “Mãe” – que era a “Sócia Chefa”, uma colombianeca gorda, dos caracóis loiros até as tetas leiteiras e rasteirinha nos pés doloridos – entretinha meu amigo polaco, o Boroso, que prontamente quis que eu o acompanhasse nessa aventurazinha, pois seu desejo de comer ali era ávido.

Desisti de contar estórias quando, falando de sua vida “quase-brochante”, a mocinha comentou sobre os seios, achando-os pequenos e mostrando-os a mim por debaixo do vestido de seda. Peguei-os sem tirar meus olhos dos olhos dela, fui construindo um movimento circular, senti a maciez ideal e o tamanho que encaixava direitinho, acariciei-a também na região do lóbulo e do maxilar, seduzindo-a pela bochecha corada, coloquei a língua em sua boca. Aquela mocinha estava corada, por Deus, e aquilo meu deu hipertrofia de tesão, por Deus!

No instante seguinte inventei de lembrar da garotinha “bugra” que passou oferecendo mandioca em minha rua casa por casa. Bateu palmas, perguntou se eu queria, ela estava seriíssima ou deveras exausta – aquela menina tão nova! –, recusei, mas ela não mudou de feição, fora embora. Talvez a mocinha apenas vendesse mandiocas antes de entrar na lida dali. Talvez ela tenha trabalhado durante bastante tempo em cima de uma carroça, subindo e descendo pelas ruelas da cidade, porque carroça não flutua não nessa terra. Seria lindo ouvir meus cachorros latindo com toda a excitação e todo o fulgor que um cachorro doméstico tem num sábado às treze horas, em uma rua tranqüila, para quem passa, para a mocinha, enquanto ela fizesse barulho batendo a língua no palato, sentada em sua carroça cheia de sacos de mandiocas, para fazer o jumento seguir adiante. O céu limpo daria luz de cegar os olhos?

Para não pagar muito caro, meu amigo levou Dalila e também a loira-pançudinha-que-tem-o-tchan em seu super monza bufante para uma festa no motel Estrelas. Aproveitei aquele ensejo único: a “Mãe” dormia no balcão, duas ou três garotas dançavam no palco dentro da casa só no macete, para dois ou três sujeitos com dinheiro, o segurança deveria estar contando causos para a coruja perdido na escuridão. Na varanda, fora da casa, coloquei-a de lado e tirei meu pau pra fora e depois pra dentro dela. Ali mesmo, com seu vestido levantado, os seis saltando, a calcinha estuprada e as melhores coxas do local; sem esfregações, nem jogatinas, sem rancor, nem vertigem; quando além do bem e do mal dá pra para perceber as cores muito mais do que belas, inefáveis, que não são simplesmente a preta e a branca.

Meu celular tocou minutos depois de tê-la feito gozar. A senhora velha e gorda enchia meu saco alegando ser tarde demais e queria logo o “money” pra pagar a consumação e chutar minha bunda semi-ébria. Eu disse “Alô”, era meu amigo dizendo “cara, fica esperto aí na saída, enquanto eu deixo as moças você vai pulando fora e já era”. Olhei para mocinha, pois ela tinha a idéia de que eu estava duro, convidei-a para um passeio de despedida e já próximos ao portão de saída, com a “Mãe” perplexa com suas mãos na cintura observando-nos rodeados por noite, foi num pulo que dei uma última passada na mocinha, “fragrei” seu cheiro surdo e estonteante e suado e passei pela brecha do portão meio aberto, deixei cair uma nota de dez reais, sabia que aquilo não cobriria os gastos, entrei no carro possante e bufante do meu amigo e num cavalinho de pau dourado e esfumaçado partimos.

08 Abril 2008

De Bertolucci ao mundo

Lendo Huxley,
mas com um book da Hilst ao lado
No Camboja
Enquanto não sobra tempo,
debaixo de uma sombra de Baobá,
para curtir o humor negro
daqueles negros todos negros,
Enquanto Bertolucci
roda Assédio na Itália
e de lá pro mundo todo,
Enquanto homens vis, homens bons
tomam uísques e vinhos
em garrafas
que mais valem do que valem vidas
E dos psicopatas
restam os que nem isso podem ser.


(fragmentos retirados do blog http://www.jesusnaotemdrogas.blogspot.com/ do Rafael Neon)

03 Abril 2008

A Vida de Eskobar

(trecho) Capítulo X...de N...


Eu andava de volta pra casa. Estava noite. Passava por um túnel de vegetação. Bem à frente, na esquina ao extremo, um par de árvores finas, retorcidas e pouco maiores do que eu e com as folhas bem verdes focaram-se em meus olhos como a silhueta de uma mulher muito sensual, sendo que o núcleo era transparente e as pernas bem grossas. Continuei caminhando e lentamente diminuía a marcha de forma a não perder de vista minha admirável criação boa. No trajeto, de repente um galho espetado acertou o coco da minha cabeça e parei naquele instante. Olhei para trás fazendo um arco com minha cabeça e revendo tudo o que havia andado. As árvores, do ponto mais escuro, que fora por onde eu tinha entrado, até o ponto mais claro na esquina, onde a silhueta deliciosa me esperava, chamavam-me. Encantado eu abracei a primeira ao meu lado. Beijei a segunda. Subi na terceira, subi, pulei e abaixei as calças na quarta, na quinta e nas outras igualmente. Comi tudo vorazmente até a boca salivar cheia de pus baborento. Ao chegar ao ponto G, esperançoso, contente e quase exausto, minha amante se esmorecera e meu pêndulo vital desabara. Para não abster-me de virtude tomei fôlego e dei partida para minha casa novamente.

Meu grande poder auto-outorgado dos tempos imemoriais, aquele que me torna superior aos outros reles mortais, é o esquecimento inigualável. No outro quarteirão comecei a entrar numa escuridão profunda. Não havia iluminação pública e o asfalto parecia pedaço perdido de céu sem sol, luar e sem pontos droguísticos faiscantes. Perdia-me caminhando contra eu mesmo, comigo mesmo, através de um lugar desconhecido, de volta ao eterno caminho e adorável do lar.

Mais dançava do que chorava – nua dos seios pra baixo – uma dama perdida nas trevas. Parei e perguntei se ela precisava de ajuda. Ela deixou de lado o chororô e apertou com dura agarrada minha mão doada. Mesmo com toda aquela escuridão, pude ver refletida pela frouxa luz de uma lâmpada provinda da garagem da casa aos fundos uma ferida avermelhada em sua virilha. Eu que já andei muito, tendo ido e vindo, que sou superior aos demais e conhecedor dos segredos mais absolutos do universo, já fui ao espaço e ao inferno, não perdi tempo criando opinião alguma. A cena era tão bacana quanto um cuspe alheio, visto por mim ao comer um cachorro-quente de carrinho, atirado a um bueiro em plena tarde de verão à feira de uma corrente sexta. Ela me convidou sutilmente para que eu a acompanhasse àquela mesma casa de onde a luz saía. Fui embalado pela onda.

Dois rapazes estavam sentados assistindo à televisão, mas pareciam demasiado bêbados. Um usava boné e o outro tinha longos cabelos. Cumprimentaram-me com vozes amassadas e faladas pra dentro. Ninguém se moveu. Ambos estavam desleixadamente em posição de uma perna esticada, outra dobrada e fazendo noventa graus, uma mão sobre o saco, outra esticada sobre a perna reta e olhos zarolhos, com esgares inconscientes pregados à suas caras amassadas e fedor diretamente emanado.

Os sujeitos se levantaram e disseram pra eu esquecer aquilo. A mulher era maluca. Um deles, o que usava boné, deu um murro na cara dela, chutou-a até que a moça caísse no chão. Continuou chutando-a. Aquilo aparentemente me impressionava. Já familiarizado eu procurei uma garrafa de cerveja na geladeira, mas peguei duas e também um copo. Quebrei uma das garrafas na cabeça do marmanjo, calmamente, mas usando força necessária para que o rapaz tombasse desmaiado. Fiquei bebendo com ligeireza meu copo e quando o outro rapaz apareceu disse que eu fizera cagada. A mulher então foi até ele, abraçou-o e virou a bunda. O cara deu vários tapas, chutou-a com a sola do pé e sentou-se no sofá dizendo: “Ela é a prostitua mais louca que eu já vi. Pagou a gente pra come-la”. Terminei minha garrafa e fui embora.

Mais alguns quarteirões e então eu estava em casa curtindo meu hermafroditismo malhado.
- Por que eu não acho nojento?
- É porque na gente a gente não tem nojeira mesmo, mas os outros que vêem não gostam.
- Ah bom.

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Eu arrumava as malas com bastante categoria na sala do avião, dali foi quando a cachorra perguntou – justamente para mim, quem mais gostaria ficar calado e curtindo a onda de ser o mandatário:
- Como é essa saracuteada senhor?
- Bota fé? O pedantismo tem o poder de dar a crer, como se fosse um artigo muito importante, uma idéia popular. Bota fé?
- Não, pega nos seios e vê se estão maduros já!
- Falou!

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Um sapo perguntava “Por que é difícil viver e por que temos tantas contradições” pra uma lesma que mal começara a falar e fora interrompida por um saci nazista:
- Olha aqui moçada, vou dizer. Isso tudo é por causa do meu dedo, ta certo?
- Não, não – interpelou-os de sopetão a árvore anciã da vila, uma bela nogueira de metros e metros de altura – Isso é por que é tudo uma briga. Uma disputa entre a parte conservadora e a parte ambiciosa. Olha só garotada, saca só o lance! Vou dizer! Lá nos idos anos dourados meus eu tive minha melhor transa, eu estava na onda da primavera, sambava ao vento, tinha grande choupo, uma copa cheia e era bem corado. Depois, fumávamos a virtude da paciência quando a tia da ventania parou e disse: “Ei, essa é pra guardar, descobri ontem enquanto dialogava com o Big-Bang: Tudo anda tão complicado porque a mudança não é ligeira, mas a vontade é imensa e existe conflito de razão”. Mas já é assim há tanto tempo que a normalidade é incomum a uns e fogosa a outros. A mente geralmente não tem suportado, a ambição não concretiza tudo de uma vez e a conservação é tipo um átomo quase indestrutível e além de tudo há muita variação já saturada pra todo o mundo botar fé.

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Eu tenho uma história pra contar.

Tenho uma história pra contar.
Tenho uma história.

Uma história eu tenho.
Uma história eu tenho pra contar.
História pra contar eu tenho.

Tenho pra contar história.

Eskobar, o mestre faceiro e supimpa.

(Devaneios-rascunhos que pré-anunciam mais um conto de Eskobar).

15 Março 2008

A Juventude do Velho dos Velhos

Essa é a história de um herói. Seu nome é Velho dos Velhos e é nenhum outro. Também é a única vez em que foi relatada sua aventura; quando era jovem. Um homem ele é que só foi jovem uma única vez. Na verdade ele só teve uma aventura uma única vez. Sua vida moral é concluída em vidas impertinentes por desventuras, por ‘desmascarações’. O velho dos velhos ameniza suas dores por causar desprezo às dores dos outros. Sua angústia é um tempo infindo e sua alegria está circunscrita em metalinguagem abstrata nas palmas das mãos de cada homem. A história verossímil de uma praga viva:

No dia daquela juventude indelicada suas palavras construíam parábolas imersas num mundo de fogo. De forma que não sabiam seu nome, apenas chamavam-no velho – já assim mesmo enquanto ainda novo. Seis ou sete pessoas conversavam em roda e ele estava entre elas. Segurava um copo de plástico quase vazio. Uma moça muito elegante, calçando patins, rodeou-os e serviu o copo de cada. O velho foi o último a ser atendido, mas a moça parou e ficou bem a frente dele. Ela lhe soltou um sorriso de enfeite e tomou no gargalo o resto que tinha. Ninguém viu aquilo, mas o velho apertou aquele braço fino enfurecido e puxou a garota prum canto:
- Ei, mulher. Você trabalha aqui, não é?
- É. Sou funcionária. Ei cara, você ta me machucando.
- Escuta bem. Vou te dar meu copo agora. Você vai enchê-lo ou não vai?
- Vou, pô.
- Não, não vai. Você vai me trazer uma garrafa e um copo de vidro gelado. Eu vou ficar sentado naquela mesa ali. Espero você. Se você não aparecer dou um cabo em você. Estamos feitos?
- Tudo bem. Não machuca. Eu to em trabalho, seu bruto. Senta naquela... Eu levo sua cerveja como você quer.
- Sem gracinhas.

O velho ficou sentado esperando. A moça apareceu deslizando suavemente pelos azulejos do salão. Ela sorria como antes, como se nunca tivesse falado com ninguém da festa, como se fosse uma máquina para servir.
- E então? – Ele disse.
- Aqui sua cerveja, geladinha, no ponto. Aqui está seu copo refrigerado. Não esqueça que a apresentação começa daqui a vinte minutos – Ia dizendo a mulher enquanto tirava os objetos da bandeja e servia o copo do velho.
- Espere aí maluca. Você pode ser boa nisso de disfarçar. Na verdade não quero nem saber o que você faz ou não, mas sei que você é malandra. Beba primeiro esse copo.
- Como?
- Tome um gole.
- Não posso. Estou em serviço!
- Toma um gole agora! Toma ou te arranco os pelos um por um, com a faca da cozinha de cortar o pão.
- Não vou tomar isso, seu monstro!
- Você fez sacanagem, não é? Na saída espero não te encontrar. Dê essa garrafa para outra pessoa e me traga outra e abra aqui, para que eu possa ver que você abriu aqui e não colocou nada dentro.
- Ah, tudo bem senhor. Volto em breve com a cerveja.

O velho viu a moça sair como se flutuasse sobre o chão liso. Alguém se aproximou e sentou à mesa. Era um antigo amigo. Não se viam há meses. Castro trabalhava como secretário do órgão de cultura e publicara um livro de poesias dias atrás. Ainda estava sendo lido.
- Como vai essa força, rapaz? – Perguntou Castro.
- Vai indo. Eu ando ficando cansado de tudo, bicho.
- Continua no emprego?
- Não, fui afastado até segunda ordem. Vou a um analista toda semana. Alegaram que eu não sabia conviver em grupo. E a mulherada? Não vejo as mulheres aqui.
- É uma peça de teatro.
- Mas vai ter música depois e festa.
- É, mas ainda assim é teatro. Mas veja lá, lá fora. Ali é o lugar das madames solteironas.
- Por que não disse antes?
- Você não perguntou.
- Eu li seu livro. Grande merda hem.
- Eu sempre soube. Mas a cidade precisava de alguma obra nova. Está crescendo. Pagou bem pelo serviço.
- Legal.

Castro foi chamado por alguns amigos. O velho se levantou e foi ao balcão. Viu no canto do outro lado da porta a moça de patins sentada com a cabeça entre as pernas. Ela parecia triste e cansada. O velho pediu um uísque. Enquanto um sujeito raquítico, de óculos, muito fraco, pegava a garrafa sobre a prateleira o velho chamou a garota pelo nome do crachá.
- Ei, Bianca, o que faz aí? Não vai trabalhar? Tem muita gente com sede no salão.
- O que? – ela o viu e mudou de rosto, ficou brava. Começou realmente a chorar – Fica quieto seu bruto. Você é um desgraçado infeliz. Nem tem mulher pra te acompanhar – e depois de falar aquilo retirou os patins e entrou numa porta.
- Aqui está cara – falou o balconista – Ela está chateada por sua causa. Você maltratou ela.
- Eu não fiz nada. Ela quem me atendeu muito mal.
- Trabalho com ela há dois anos. É só ela querer, que eu mando te matar. Tenho primos atiradores. Assassinos de aluguel. Fariam de graça pra mim.
- Você não sabe nem bater uma punheta.
- Varemos. Você está aqui por que conhece gente com grana que te deu a entrada. Não passa de um idiota, cara.
- E você trabalha pra me servir, mestre.
- Eu vou te procurar.
- Falou!

O velho saiu dali com o copo de uísque. Foi ao ambiente aberto, onde estavam as solteironas. Ninguém reparou nele. Caminhou até um lugar com poltronas e se lançou numa. Algumas senhoras fofocavam asneiras às suas costas. A lua estava gigantesca. Um professor de literatura, Valquilla, aproximou-se para cumprimentá-lo. Eles se conheciam através de algumas saídas com amigos. O velho apertou firme a mão dele que retirou disfarçando a dor. “Oi”, ele disse. “Oi”, disse o velho. Não tinham o que conversar, mas não tinham muitos lugares aonde ir. Valquilla entortou prum assunto sobre a guerra das fronteiras. “Não acha que nosso país poderia acabar com aquilo de uma vez?”. “Não acho. A gente tem muita influência de informação. Precisamos de destaques nos noticiários”. “Pode ser.” “Você viu aquela loirona ali parada sozinha?” “Onde?” “Lá porra!”. Valquilla saiu para pegar uma bebida e cantar a mulher de pelo menos uns dez anos a mais que eles.

O velho avistou ao longe a garçonete enfurecida. O copo já estava seco há muito. Ele se levantou e tirou de uma bandeja erguida outros dois copos e tomou-os com duas emborcadas. Andou em direção à moça. Ela o viu e apertou o passo. Ele a seguiu sem remorsos. Já haviam saído do salão.
- A bebida dessa festa está ruim.
- O senhor vai perder a peça de teatro. Já ta começando.
- Deixa pra lá a peça. Não gosto dessas bichas loucas gritando.
- Você não gosta de merda alguma – falou Bianca soltando risinhos sarcásticos.
- É mesmo verdade isso. Mas você não está muito bem agora, não é?
- Vai se foder. O que te importa?
- Muita coisa. Não gosto de ver moças pobres e bonitas, de elegância natural ofertada pelos deuses de bom senso, tristes andando sozinhas à noite na rua – Ela riu em silêncio – Vamos lá! Eu te pago um táxi.
- Não precisa cara.
- Mora aqui perto? Duvido muito.
- Não, não moro aqui perto. Moro longe pra caralho. Lá no mundo perdido.
- Ta certo. Eu tenho grana. Recebi dinheiro faz muito tempo, mas não saía de casa há muito tempo também.
- Ta bem. Você pode me acompanhar.

Os dois entraram num táxi logo depois que o velho havia chamado por celular.
- O que aquele seu colega tem com você?
- O lingüiça? Nada. Ele é um garoto apenas. Não mede bem das idéias.
- Deu pra perceber.
- O que ele falou?
- Nada demais. Acho que ele tava mijando nas calças.
- Ele e aquela mania dos primos. Ele fica lá em casa às vezes. Não tem ninguém na vida.
- Vocês fodem juntos?
- Quem é você afinal, porra?
- Um funcionário público concursado e contratado há três anos. E você?
- Uma puta.
- Não acho. Você é bem feita demais pra isso.

Bianca mandou o carro parar e desceu. Estavam na praia. “Mora por aqui?”, ele perguntou. “Mais ou menos”. Ela não queria levar o velho pra sua casa. Sentaram-se num banco de concreto da calçada. De repente ela saiu correndo para a praia e tirou toda a roupa. O velho estava empolgado com a noite e então esperou o sangue descer pra outra cabeça até ir atrás dela. Mas ele percebeu que a moça começara a nadar até o fundo. Então ele correu e correu depressa. Ela estava bem longe e ele podia vê-la ainda da praia enquanto retirava as meias e a camisa. Estava vestido com um terno e era muita roupa. Ela já atravessara a barragem de cinqüenta metros. Quando ele entrou sentiu a água morna. As ondas arrebentavam próximas à praia e foi difícil atravessá-las. Ele voltou e correu sobre a barragem de pedras. Pulou da ponta. Já não via mais a mulher. Então gritou algumas vezes. Voltou à barragem. Foi difícil subir de volta e quando conseguiu sair da água ficou de pé nas pontas dos dedos. Procurou a moça por muito tempo.

Bem longe, numa bóia com luzes fortes, ele pôde ver a sombra de alguém se mexendo. Nadou até lá bravamente. Chegou ofegante. Não tinha ninguém quando conseguiu apoiar-se no objeto flutuante. Dali ouviu batida de braços. Nadou em linha reta, sem avançar mais pro oceano e encontrou um corpo flácido e gelado que tremia. Eles estavam muito longe da costa. Talvez a mais de cento e cinqüenta metros de distância. Mas mesmo assim o velho conseguiu nadar puxando Bianca. Chegaram rolando junto às ondas muito tempo depois. Seus braços doíam. Suas pernas estavam podres depois de duas câimbras que ele suportou logo à chegada. Ele se vestiu, chamou a ambulância, falou o que era. Deixou algum dinheiro no bolso da calça jeans dela e vestiu-a também. Esperou até ver que ela ainda respirava e estava consciente, escreveu seu telefone numa folha de papel que colocou em sua bolsa e foi embora andando.

À entrada viu que era um porteiro diferente trabalhando no prédio.
- Você é novo aqui?
- Não senhor. O Clô ficou doente e disse pra eu cuidar do local.
- Legal.
- A noite foi boa?
- Que horas são aí?
- Duas horas e cinqüenta, senhor.
- Foi ótima. Acho que depois dessa noite não verei mais as horas passar.
- Boa noite senhor.
- Bom trabalho pra você, até mais.

14 Março 2008

A física metafísica do ser existente humano

Para abordar um ser humano, em toda sua complexidade, é preciso escolher com qual parte começar. As partes descritas não falam de forma anatômica. Não é um estudo científico. E escrevo imagens que sabotaram outras imagens menos complexas, ou menos singulares de minha cabeça. Eu escrevo do lado da pirataria. Roubo o ouro dos outros e vendo por bebida.

Então para abordar uma pessoa é preciso não estar concentrado. A pessoa fica entediada muitas vezes e é cabível que alguém que vá enchê-la perceba isso. Mas cotidianamente as verdades se entrelaçam e se confundem, convergindo, divergindo, engolindo, espargindo, maltratando, acariciando uma a outra. A verdade é inigualável à mentira.

A poesia é uma verdade. Tanto verdade é que ela, a própria poesia, investe nas mentiras mais calmas e enormemente sarcásticas, irônicas, avulsas. A mentira é a poesia da verdade, tal como a verdade por sua vez é o limite da mentira.

Uma das verdades, que até aqui mais libidinosas a respeito de Eskobar, contradiz os vultos que o assombram. Ele estava parado como nunca. Chupava uma bala silenciosamente ao fritar mais do que o solo infértil. Tinha roupas suadas, batidas, encardidas de dias de uso coladas ao corpo, fundidas a ele. Esfregou uma mão nos cabelos oleosos, cheirou-a, admirou sua porcaria fedida e enfiou-a no bolso quente. O calcanhar tamborilava no chão. Melissa apareceu afundando os passos no abismo dum agouro bem-visto.

Ela deu um beijo molhado em Eskobar rapidamente e pegou em sua mão. Fugiram de uma vez por todas em direção ao brejo. Era uma fuga com o tempo delimitado. Mas por ser uma fuga empolgava imensamente sua garota. Eskobar atirou-a ao chão úmido do pântano. Ela queria atitudes sacanas. Ele deu toda sua putaria. Lambuzou-a com todo o vapor e horas depois ela voltou ao seu mundo.

Eskobar partiu noite adentro para a caverna que encontrara um dia antes de chegar à cidade, próxima à estrada. Afundou a cabeça entre as mãos sobre a terra, no escuro, de forma que se alguém estivesse por ali veria uma silhueta viva cuidadosamente adormecendo.

“Sou mente. Sou corpo. Sou espírito”, pensara Eskobar ao abrir os olhos, ainda com o sol se soerguendo no céu. “Sou mais mente, mas sou ainda mais espírito, porém sem corpo nada sou. O corpo é a tradição, a minha parte conservadora. Ele que mantém tudo nos conformes, pois ele é meu alicerce fundamental. O corpo tem a substância que é evaporada para criar as nuvens que formam a alma. O corpo é físico, uma máquina controlada pela mente. A alma é metafísica, fruto das condições do corpo, estimulante da mente. A mente é a igualitária, é minha juíza sobre Eu, que sou corpo, alma e mente. A mente pode estimular o corpo, causando mais evaporação e mais criação de alma, para que a alma chova mais sobre ela própria. A mente pode também diminuir o funcionamento do corpo, para manter um equilíbrio, uma vez que o excesso deixa perigos em vista. A alma chove para todos os lados também e solta relâmpagos, que é uma descarga muito potente de sua energia. A mente e porventura Eu, somos criação do corpo que faz a alma, que ambos juntos estimulam-me. No final não resta nem corpo, que é comido pela terra, nem alma, que simplesmente seca, nem mente, pois que não haverá processos vitais para alcançá-la. As dádivas estariam perdidas. Mas qualquer coisa tem que restar. O espírito deve sobrar pairando pelo vácuo, pelo universo, integrado à ele com novas capacidades. O espírito seria meu fruto. O espírito influenciaria outras pessoas, outros seres, outras coisas e a força motriz do universo que investira na vida física desse espírito que, afinal de contas, nunca passou de idéia. O universo é uma idéia, seja ela qual dimensão for e esteja ela em qual estiver. Meus pleonasmos são maneiros e minhas aflições bacanas e minha bunda congelada de frio está dolorida”.

Após o café da manhã de reflexão bastante introspectiva, Eskobar voltou ao lugar onde comera Melissa, a garota que adorava mendigos estranhos, pois tinha muito medo do pai que abusava dela. A pequena cidade era chata! Eskobar foi a uma lanchonete e pagou com algumas notas amassadas seu almoço. Soçobrou suco de pastel e limão.
“Ao final do percurso”, diria Eskobar ao levantar-se e pegar um rumo na direção que sempre pegava, “Ao final do percurso eu já terei matado quantas vidas? Talvez centenas de milhares, mas não terei dado vida para nada?” Os pés da viagem aventureira, quixotesca sem amor menor do que aquele que ele não pudesse ter sutil, viagem sensível, doíam-lhe tipo uma pedra pontuda na panturrilha.
(O texto é um trecho de A Vida de Eskobar, capítulo nx. de nx.)

08 Março 2008

A enfermeira vai à padaria




Você estava tão longe. Mulher dos diabos! Eu procurei por todo canto. Joguei fora a fantasia que fora buscar nas trevas. Amaldiçoei o próprio bem. Você estancou o sangue que jorrava das minhas veias. Eu olhava quieto, pálido, fraco, exangue. Você apareceu como um trovão pintado de bruxa no meu caminho. Transitou pela minha casa. Bebeu meus vinhos secos. Escutou minha música chata. Fez-me sorrir. Eu procurei você, depois da vida inteira, mas não encontrei. Onde, diabos, fora enfiar-se? Por isso pulei. Da janela o chão parecia tão sólido, tão palpável. Olhei para trás, como você havia recomendado na noite antes do sumiço. Procurei a vida nela mesma. Mas nem em minha casa encontrei uma faísca de esperança. Vi minha infância, a adolescência, meu primeiro emprego, minha única namorada, as garotas e as mulheres com quem transei. Recordei com muito custo às três enfermeiras que dei furo no encontro com vergonha por não ter assunto para conversar com elas. Eu me demiti muitas vezes. Mas não importa. Sempre dei a volta por cima, sem nem pensar em nada. Nunca tive ambição. Eu sempre caí, mas a cada tombo era como se tudo tivesse sido sempre daquele jeito que estava. Quebrei os óculos e fiquei sem. Perdi dinheiro e passei fome. Fiquei doente e dormi. Você me roubou aquilo que eu mais gostava e me deu sorrisos simplórios. Sua bruxa ruiva! Eu pulei porque além da janela vi mais futuro do que a casa atrás de mim. Só não espero que você tenha apenas saído para comprar pão e minhas drogas. Nem as drogas valeriam mais a pena, mas saber que você não saiu com vontade de ir embora me traria de volta à vida. Quando voltar, não sei se daqui a dez minutos com os pães, ou daqui a vinte anos com as lembranças, encontre a faixa que cobria minha cabeça fraturada pendurada no prego do lado de fora da sacada.


Abraços,
Joaquim

07 Março 2008

Eskobar de saco cheio

O mundo está maravilhoso.
Eu o vejo como a flor mais bela
dentre tantas flores belas
cintilantes sob a luz
do enorme sol que explode raios calorentos,
ferve o chão preto.

Eu o vejo como a flor que brilha tão intensamente
que me cega e que só posso vê-la... por um segundo.
O mundo pisa fundo.
O mundo quer arrancar os dentes de todos nós.
Ele quer comer nossa carne,
quer mastigar as vísceras dessas pragas,
dessas merdas todas.
O mundo está vociferando maluquices.
Ele diz palavras irreais.
Ele grita e ele berra
como se fosse o último dos planetas!
Ele quer guerra.
O mundo está em desconcerto.
O mundo está encantado.
O mundo está fascinado.
Ele quer pinga!
Espera ter o fígado podre
a garganta estuporada
os vermes a comer-lhe as tripas
o maior de todos a lhe afligir
O mundo vive seu paradoxo.
Mas o mundo precisa urgentemente de luta, de porcarias.

O mundo come salgadinhos.
Bebe cerveja.
Fode com todo o mundo.
Ele quer puxar a pelanca dos homens.
Quer lamber as mulheres,
suas pernas suculentas,
puxá-las pelos cabelos,
cuspir em suas caras bonitinhas.
O mundo quer morder a própria língua,
mijar onde ele estiver,
peidar.
O mundo quer peidar!
O mundo grita,
pois ele só sabe gritar.
Quando cansa dorme.
Acorda e grita! Ele grita e berra!
O mundo é estouro de liberdade perniciosa.
O mundo, um perverso. É promíscuo.


Esse mundo está lindo.
Eu o vejo como se fosse minha pica bem dura pronta a penetrar
numa boceta quente e molhada. Eu até acerto
as paredes que me cercam
com as espinhas do mundo.
Eu piso fundo. Eu destroço a terra.
Eu sou o mundo vivo.

Eu digo que não deveriam existir provas.
As provas são nojentas.
Não deveriam existir maluquices forçosas, pois são nojentas.
Eu digo, e o que eu digo eu disse,
que a verdade é parcelada em verdades
porque nós
não a temos.
Eu digo e o que digo é aquilo que eu disse antes
que nada vale à pena tanto quanto fazer com que algo valha a pena.
Eu arremesso essa fúria ao mundo que me enfurece.
Eu destrono o mundo que me coroa.
Eu destrono o mundo que me destoa.
Eu destrono, desconcerto: Destrono o mundo!
Pois o mundo me avilta com sua amplitude quase extinta.

Não deveriam existir provas, mas vontades.
Que porra é essa de desenvolvimento econômico?
Não sei o que é essa merda.
Só sei que o mundo pode investir em mais pesquisas,
em menos “torração de saco”,
em mais pesquisas científicas.
Em educação, por deus!
“E Deus falou: eis a verdade sobre vós, eis ela na forma de vida, eis a verdade que os rodeia na forma de vida. Eis a vida, que não só é um pé no saco como também é, sobretudo a Vida de todos vocês, crianças iluminadas (pelo sol!)”.

O mundo arranca meus pés
chupa minhas entranhas como se fossem macarrão,
lambe os dedos,
mastiga com vontade e vagarosamente o meu corpo.
Faz-me um bolo de banha,
cera,
sangue aquecido
e podridão.
Eu mijo, eu cago.
Eu suo. “E daí?
Você é o próximo, babaca!”.
Levanto um dedo, cuspo só uma vez e fico quieto.
Vou pra dentro com tudo. Caio de pé.
Mas caio.
Encontro mais gente do que havia visto em toda a minha vida
e dizem que estou no inferno.
Eu digo que está tudo bem.
Eles repetem a informação.
Eu também.
Eles me pegam e me jogam na boca dum duto
que me leva pro poço de fezes.
Sou cagado pelo mundo
mas depois ele me devora outra vez.


O mundo roda e não para.
Suas flores brilham.
Seus méritos avançam.
Ele se mecaniza.
Ele está crescendo.
O mundo explode.
O mundo azul, num preto e branco azulado
por convenção,
avança e ele só me fode.



(Eskobar é um ser mitológico. É vivo. É gente. É personagem. Ele é o ser máximo nascido no tempo e no espaço perfeito).

28 Fevereiro 2008

Lenhador no bordel Ganchó

(Amigos, leitores, este é um poema antigo, porém, por falta de textos completos novos, resolvi republicá-lo).

Olhou pro bolso aberto

Onde encontrou só uma nota

De certo, que, por certo

Resolveu pô-la a rogo na bota

Fez assim.

Foi-se dali tal qual ventania

Furando sem mal a voz

Numa proclamação, numa vilania

E outra quanta boa valentia

Tanto afim da desarmonia

Pois que logo ouviu a moça a sós

Entoar um canto

E a viu muito bem a ponto

De logo o embevecer.

À guisa do espanto a escutou

Ela tão bela e formosa,

Mais nua não estivesse,

Menos fogosa não o tocasse.

Quando, devagar, a sufocou num abraço

E num só espanto

Desatou a veste

Na loucura daquele encanto

O peito fervilhando rouco

Fátuo coração explodindo louco

No peito. O homem. O teto. Os fundos...

– Vida, respeito, ora: vez, mundo... –

E ela o acalmava tudo muito a ver,

Ele exasperava bêbedo com aquilo

E ela o inundava,

Dele só o fogo transitório

Além do riso e do prazer.

Mal findou a tarde

Num laranjado crepuscular

Ela o enfiou as calças, a camisa,

O vestiu com troça

Até o último fio capilar

Porém sorriu ao ver a bota:

Fez-se branca/ Tornou-se pálido;

Manca e louca dançou e pulou

Pululando chocalhos e chistes

Mas ela mais num abraço

Aceso e real tocou na brasa

Rubra e bêbada sobre a cama,

Que mal se tornara cinzas

Feito um galho mirrado e seco

Para varrer a sujeira à porta.

Ele então vaiado andou

Descompassado esconjurado

Vadio

Carregando descalço

Tuas botas, tua carcaça mole

E uma reminiscência trôpega o açoitou

De viés, de batuque e agulhada

A fim de fazê-lo vomitar

A prole que bocejou e sobejou

No fim da avenida de tijolos marrons.

Lembrou de tudo aquilo por que gostou!

- “A nota some e a graça volta”.

Dançou sob a chuva gelada pelo granizo.

Arrasado entrou no boteco

Continuando descalço a cantarolar:

- “Eis o tapa do homem

E seus apelos de revolta”.

20 Fevereiro 2008

A arma da gaveta

Beatriz foi a última patroa. Três anos atrás eu estava trabalhando como empregado doméstico diarista. Numa sexta fui chamado pelo gerente de uma agência. Contratou-me e deu um endereço no Jardim dos Centavos.

Aproveitei um dinheiro extra que tinha juntado e saí de fusca pra balada. No X’s Beer conheci Lina. Um belo corpo de cavalona quente. Bebi pouco. Levei a mulher pruma vila afastada, mas o gasto da gasolina ficou compensado por não ter pagado o motel. Parei numa estrada de terra cheia de buracos. Fiz a moça descer, mas vi que ela ficara bem espantada com o lugar. De certo que ela pensava que eu fosse um burguês apaixonado e vagabundo. Ela começou a fazer cara feia. Segurei firme em sua mão, ri de lado e disse: “Calminha graça, isso é super bom, esquenta não. Relax”.

Eu não tinha cara, nem um pouco, de maloqueiro tranqueira. Ela não estava assustada, apenas estranhada. Botei-a no capô. O capô do fusca, em verdade, foi pensado assim porque o engenheiro imaginou, principalmente, essa cena. Ela disse: “Ai!” com suavidade e de forma a empurrar o som pela boca numa tonalidade decrescente. Comentou mais algumas coisas, mas nem dei por mim. Abri aquelas pernas maiores que eu, segurando com força suas coxas grossas. Sua boca estava quente na noite quente. Lambi a teta. Que vaca! Ela mesma tirou o pau da calça, puxou a calcinha pro lado e meteu e deixou o resto comigo enquanto se segurava no meu cangote. A moça não era bonita e fazia careta e cada vez que eu abria os olhos, fechava-os e metia com mais força. Ela gozou ali mesmo, sentada no meu fusca. Um moleque sem camisa, com boné e calção, sujo e descalço, apareceu da penumbra, querendo lamber a boceta dela, quando já tinha vestido minha calça. Observei que se ele não vazasse – ela entrou um pouco amedrontada. Era uma vila muito feia – eu chutaria sua cara até estuporar. O moleque ameaçou gritar e eu peguei uma metade de tijolo. Avancei com a mão, mas antes de terminar o guri fugiu.

No fuscão expliquei pra Lina que aquilo era uma tara minha. No centro da cidade, movimentado ainda, ela botou a mão por dentro da calça e massageou meu pau até chegarmos a casa. Ali dentro mesmo ela montou nele. Apertei sua bunda grande, de vez em quando soltando tapinhas secos, e a fiz gemer. Com certeza dona Larissa acordou, pois é uma velha xereta e que tira o tesão de qualquer um. Dei a chave pra ela na maior moral e fui à revendedora comprar uma caixinha de cerveja.

Entrei em casa e tava tudo destruído. Lina rezava ajoelhada na frente da televisão. Estava nua. Suas costas tinham marcas de chicote, eu acho. De repente a morena se levantou e fiquei gelado, justamente por causa de sua altura. A mulher me algemou na mesa da sala. Enfiou minha pica lá dentro da goela. Gozei quase na mesma hora. Não entendi bem como dei conta, pois em seguida fiquei com mais vontade e ela sentou no meu pau. Suas tetas ficavam balançando na minha cara. Gozei outra vez, dentro dela.

Depois ela se sentou do meu lado e ficou acariciando meus cabelos e me dando cerveja. Vestiu-se e foi embora. Tive muito trabalho pra chamar um chaveiro no outro dia. Foi humilhante.
Passei o domingo vendo alguns filmes. Chegou segunda-feira e até às sete horas eu deveria estar na casa da primeira cliente. A casa era enorme, com um charmoso quintal provido de chafariz, estátuas e arbustos esculturais. A governanta, Matilde, me atendeu e deu minhas obrigações. Passei o dia todo limpando, encerando, lavando roupas. No final da tarde ganhei contrato perpétuo para toda segunda-feira. Passei a semana batido. Estava curioso pra conhecer a riquinha.

Cheguei lá, na outra semana. Beatriz, a dona da casa, me recebeu. Linda, com corpanzil, jovial, herdeira de uma metalúrgica famosa. Disse que Matilde recebera férias. Explicou porque não chamava uma empregada fixa e alguns truques da casa. Vestia um roupão azul de seda. Os biquinhos dos seios estavam salientes e nem usava sutiã. Ela era branquinha, da pele bem cuidada, os cabelos lisos e brilhantes. Fiquei louco. Almoçamos juntos. Ela estava vestida do mesmo jeito, mas passara batom vermelho.

Ao fim do dia ela me chamou pra ver alguma coisa no quarto. Era um filme pornô. Perguntou se eu gostava de filmes pornôs. Disse que não muito. Preferia os filmes reais. Ela ficou nua e apertou meu pinto. No mesmo instante eu a joguei na cama, tirei minha roupa e disse pra ela ficar de quatro. Puxei os cabelos dela. Tomei metade da garrafa de uísque sobre sua penteadeira. Ela se virou e disse que estava tão sozinha. Queria foder loucamente, mas antes precisava conversar.
- Tudo bem – eu falei.
- Você não se importa?
- Não, é claro. Quer dizer, se não for muito demorado. Eu to com o pau duro.
- Faz muito tempo que eu não saio de casa. Matilde é uma velha bruxa. Só me arranja homem idiota. Ela mesma já não dá pro gasto. Mas a gente já conversou muito hoje, na hora do almoço, à tarde. Eu vi que você não parava de olhar pros meus peitos. Quero fazer um acordo.
- Manda!
- Matilde me contou como você era. Então mandei meu advogado fazer isso aqui. Ta escrito nesses documentos que eu tenho uma arma naquela gaveta e uma garrafa de vodka tri-destilado. Se você assinar nessa linha terá permissão de me matar quando quiser com aquela arma, desde que suas digitais fiquem nela e desde que você tome, antes da polícia chegar, a garrafa toda. Só que ao apertar o gatilho um alarme vai disparar na delegacia e eles virão com pressa. Topa?
- Que isso?
- Mas até me matar, no mesmo documento diz que você terá acesso a meus cartões de crédito a me espancar e me foder quando quiser.
- Sério? E minha integridade.
- Sua integridade vai ser me comer e comer a todas as mulheres possíveis.
- Você ta doida?
- Então nada de foda. Se não tiver a fim, cai fora.
- ta bem. Eu assino. Mas se não quiser te matar, não vou te matar.

Escrevi meu nome sobre a linha. Depois de guardar a folha transei com Beatriz loucamente. Quando terminei de me vestir, após o banho, o gerente da agência me ligou. Despedi-me. O cara riu e disse que tudo bem, que eu era um filho da puta e que ia ter que pagá-lo. Tudo bem foi o que eu disse.

De repente, na sala, Beatriz parou a minha frente e me perguntou aonde eu iria. Eu estava indo embora. Ela chorou e gritou. Quatro mulheres, que eram duas vezes mais forte do que eu cada uma, com corpos encantadores, me prenderam num sótão que era bem maior que minha casa. Durante um ano e meio fiquei lá. Toda noite Beatriz me levava pro seu quarto. Eu escolhia a ela ou a quem eu quisesse da casa ou poderia chamar uma puta por telefone. Comi muita mulher nesse tempo. Nos dias que eu não agüentava mais elas me drogavam e não fazia diferença. Li todas as cláusulas do contrato, que estavam lado a lado na parede da minha nova casa. Era hora de largar mão daquilo.

Comi muito bem. Comi as quatro duronas que me levavam pro quarto todas as noites. Naquela vez Beatriz só queria ver filme. Concordei. Ao final eu disse: “É o fim meu bem1”. Ela suspirou, acariciou meu pau mole. Saquei a arma. Bebi um gole da garrafa. Aquilo era uma merda. E tinha droga dentro, certamente. Mandei a bala no peito da mulher. Ela gritou de dor. A quatro seguranças apareceram e rodearam a patroa, chorando abraçadas e peladas. Sentei-me na cama e emborquei a garrafa, Faltava bem pouco e eu já não agüentava mais. Estava muito tonto e fraco. Mal tinha visto a cor do dia, a cor do mundo, a não ser quando saia pra transar na piscina, no jardim ou no quintal. Arrisquei ir até a janela, mas lá embaixo era concreto e imaginei que os peritos saberiam que eu não bebi toda a garrafa, além das quatro mulheres bem veadinhas. Segurei bem firme a garrafa e abri a garganta. Entrou tudo o que faltava.

No hospital Matilde estava ao meu pé. Apresentou-me um contrato afirmando que eu era herdeiro de Beatriz e dividiria meia parte com Matilde, além de ter que bancar com um valor estabelecido para pensão às quatro mulheres da mansão. E mais uma coisa. Matilde se tornara legalmente minha esposa. Ela não era tão fogosa quanto a outra e, apesar de ser vinte anos mais velhas, era muito boa pros domingos. Mas eu a matei com a mesma arma quando ela arrancou a cabeça do meu pau com uma mordida. Por isso fui preso, porém, sou dono de uma fortuna.

17 Fevereiro 2008

As formigas dominaram

O começo


O mundo girava ao redor do sol e quem o visse do espaço não sentiria nenhuma diferença. Dentro do planeta, precisamente num ponto impreciso do Acre, onde um laboratório internacional nível quatro fazia experiências genéticas com duas mil formigas tucandiras, do tamanho da mão de um bebê, que tinham seus corpos explorados em negritude, um acidente deu a fuga de muitas.

O potencial risco dessa colônia, de uma espécie alterada geneticamente, era enorme para a população. As formigas desenvolveram técnicas e raciocínios, criaram literalmente ferramentas que as tornaram capazes de cavar e esconder um buraco no chumbo até que pudessem fugir completamente. Sua velocidade de reprodução era grotescamente assustadora, chegando a mil por semana.

Os cientistas enlouqueceram e alguns correram, demitindo-se, para casa, com a intenção de cuidar da família, conhecendo os riscos. Oito meses depois da fuga o laboratório foi fechado e lacrado, com dados assombrosos de mil e quarenta e sete pessoas mortas violentamente.

O crescimento populacional das formigas estava sendo acompanhado por satélites, uma vez que elas deixavam rastros bem visíveis na superfície da terra. Evacuaram a região, num raio de dois mil quilômetros quadrados e lançaram bombas nucleares lá. O mundo não precisou saber dos ataques por dois anos passados. O governo expôs desculpas plausíveis para que a população não voltasse a habitar a região. Porém algumas vilas se formado lá, pois índios e garimpeiros retornaram ao local em busca de terra e minérios.

Numa quarta-feira de Julho as formigas apareceram. A colônia vivia com quatrocentos bilhões de indivíduos. Incrivelmente a taxa de nascimentos era equilibrada com suicídios espontâneos enquanto se escondiam dos humanos. Viviam principalmente debaixo da terra, em profundidades inestimáveis. Tinham três tipos físicos de corpos. O primeiro media entre três metros e meio a quatro de comprimento e um metro e meio a dois de altura. O segundo tinha desenvolvido mãos nas pontas das duas antenas e tinha em média dois metros de altura.

O terceiro tipo tinha entre oitenta centímetros a um metro de comprimento e não era mais alto do que um liquidificador. Este último tipo servia como operário. O segundo era da parte burocrática e o terceiro era formado pelos nobres e poderosos, a escala inteligente e dominadora.

Faltou falar sobre a cabeça. Toda a colônia, espalhada por um quarto do planeta Terra, agia conforme os mandos da Rainha. Apenas os nobres pensavam. Embora os burocráticos não tivessem a arte do raciocínio, nem refletissem ações além de suas obrigações, eles eram bastante ágeis e trabalhavam até a morte. Os menores eram pequenos ogros e devastavam tudo por onde passavam, mas precisavam dormir quatro dias para trabalhar dez.



A vergonha


As formigas guerrearam e dominaram a humanidade.

Primeiramente elas foram capazes de bloquear o poder destrutivo dos homens, deixando corpos de unidades mortas – o que pode ser entendido somente como a casca dura e seca – em todas as bases militares, nas catracas, nas engrenagens da maquinaria, em tudo que obedecesse a ordens elétricas. Depois de terem mortos os soldados dos países mais fortes o plano de contra-ataque dos homens estava fracassado. Tudo muito bem planejado e demarcado estrategicamente em seus mapas, as formigas não demoraram mais do que quatro dias para a completa dominação.

Depois elas se fecharam num rancho particular, enquanto a humanidade, surpreendida, tentava encontrar meios diplomáticos, de um lado, e maneiras inovadoras pra lutar. Os telejornais notificaram tudo, ponto a ponto; desgraça a desgraça. Os humanos já não eram mais a raça dominante no pequeno planeta, de fato. Entretanto, após o refúgio das formigas no rancho secreto, já não havia mais eletricidade. O mundo voltara à barbárie.

Poucos dias depois do isolamento, legiões e legiões dizimaram dois sextos da população; levaram dez milhões de pessoas, entre elas, intelectuais, os maiores eruditos, famosos políticos e oito milhões dos profissionais mais especializados em determinados assuntos, de várias etnias, para uma região no sul da América Latina, criada especialmente para reuni-los. Praticamente seqüestradas, essas pessoas não trabalhavam fisicamente. Tinham tudo às mãos. Elas viviam confortavelmente em mansões, construídas para cada família, numa cidade onde havia todo tipo de empresas prestadoras de serviços não financeiros, como mercados, farmácias, etc, que as próprias formigas abasteciam. Ainda que ninguém soubesse como nem por quê. Fora da cidade ao sul da América, cada pessoa da outra porção dos povos que restaram tinha duzentas formigas a seus serviços, aos mandos e desmandos de cada pessoa.

Durante um ano foi assim. Na cidade dos dez milhões tinha nascido setenta mil bebês. No resto do planeta a população não aumentara nada, pois cada criança nova era raptada pela força, à socapa da noite.

No ano seguinte, sem explicações, nenhuma pessoa mandava mais. Cada formiga, somando duzentas pra cada, destruiu tudo o que tinha sido construído por mãos humanas. Plantas abundaram onde antigamente jaziam cidades milenares. Nem as cabanas de sapé foram esquecidas. O planeta estava transformado em azul e verde.

Obviamente a essa altura, sabe-se lá Deus como, as formigas tinham pleno controle dos satélites, dos meios de comunicação, das indústrias, enfim, de toda produção qualitativa que a humanidade tinha desenvolvido e os humanos facilmente retrocederam à era primitiva, mas não chegaram a voltar para a pré-história, pois isso as formigas não deixaram. Todos, vivendo nas florestas, dormindo ao relento, com fogueiras sagradas no centro de cada roda, tinham papel e lápis.

As formigas resolveram melhorar o planeta. As formigas mesmas não deixavam passar o número atual de sua população. Mantenedoras do bem estar, receberam a alcunha de Entes do Planeta, por algumas tribos africanas. Fizeram dos desertos oásis sem fim. Inicialmente, onde ficavam as maiores cidades do mundo elas reformularam tudo. Fizeram novas ruas, prédios, casas. Reconstruíram tudo com o que de mais bonito o homem poderia querer.

No mês seguinte foi dada a partia para a corrida chamada de “A Neo-Reforma” pelos dez milhões da Cidade da Luz. Nessa fase as pessoas de lá assistiam tudo por aparelhos de televisão que tinham um design renovado. Tudo durou até o final do ano.



A sorte


No terceiro ano alguma coisa iluminou aquelas almas sem esperança. Cinco mil pessoas selecionadas por toda a população da Cidade da Luz foram levadas, com os olhos vetados, ao rancho secreto da Rainha.

Passaram quatro meses sendo treinados numa cidade artificial apelidada pelos carcereiros de Zoológico Pós-Moderno, Z.P.M. Essas cinco mil mentes brilhantes passaram por um treinamento de adaptação. Estudaram todos os novos mapas, aprenderam a lidar com as plantas feitas pelas formigas na língua Portuguesa e viram, teoricamente, uma Terra distinta do que aquela na qual nasceram.

Por mais três meses viajaram em naves nunca antes imaginadas, com propulsão à força da mente enaltecida por uma máquina singular, feita a partir de recursos complexos demais, mas possíveis de serem fabricados com um estudo profundo em uma das plantas do Novo Testamento escrita pelas formigas. Eles percorreram, nas alturas, a esfera. O mundo era uma bola maleável. Por dentro havia um núcleo comprimido por uma esfera ainda maior e mais densa de uma liga hiper-resistente, até mesmo à explosão de grandiosas estrelas. Por fora, a crosta terrestre, revigorada, tinha vida como nunca antes.

Chegou o dia do encontro final. Um deles, chamado Jair, avançou, quando a rainha, muito maior em comprimento do que os outros, ofereceu a palavra ao grupo excursionista.
- O que é tudo isso? São três anos de isolamento!
- É verdade – falou a “inseta”, em bom português. Sua voz saia por uma boca sintética instalada na cabeça – É verdade. Nós fomos criados por vocês. Obviamente somos superiores e não devem se queixar. Cuidado com o que diz aqui ou posso cortar sua cabeça com só um peteleco, pequenino! Eu já vivo há anos, o que também é verdade e para nós, que temos uma média saudável de um ano de vida, realmente é algo considerável. Sendo assim saibam que estou velha demais. Vocês estudaram tudo aquilo por meses. Conheceram o novo mundo. Viram que matamos muita gente e destruímos tudo o que vocês criaram. A arte de vocês já não existe mais, senão na memória e nos milhares de arquivos digitalizados que deixamos na sala da Sede. O planeta Terra foi transformado em uma célula viva extremamente limpa e que naturalmente se organiza. Achamos soluções pra equações que vocês conseguiriam responder pelo menos daqui a mil anos. É possível viajar com este planeta para outras galáxias, como numa nave espacial, pois agora ele é completamente controlado por computador, que é controlado por vocês. Há um computador central com poderes ilimitados que sei que com a prática vocês saberão manusear habilmente. Há um campo de força gerado pelo próprio magnetismo da Terra, que protege ela de invasões do espaço, seja do que for e que pode ser controlado por vocês e que regula também todas as condições necessárias pra sua espécie viver bem, em cada região. Não vou falar mais nada, pois está tudo nos arquivos. Nós estamos entregando isso aqui em suas mãos. Na cidade sede, dois bilhões de habitantes vivem exatamente e não sabem da existência da Cidade da Luz, mas esperam a profecia acontecer, e só vocês, que são cinco mil representando dez milhões, decidirão o que fazer com a profecia, mas sugiro que contem a verdade e escolham uma forma de vida pacífica. Nós simplesmente aceleramos o auge da civilização humana. Estamos de partida para outro planeta que seja adequado às nossas necessidades. Temos instalações lá que nos receberão muito bem, logo no começo. Manteremos contato com a Terra sempre, mas a qualquer deslize não mexeremos um dedo. Só não aceitaremos ser atacados. O planeta agora é de vocês. Daqui a um mês tudo estará estabilizado. Desenvolvam armas avançadas, tecnologias práticas e não se importem com a evolução da espécie. Mais uma coisa que ia me esquecendo. Não existe núcleo na Terra, é tudo uma “máquina gigante”, como diriam os seus, portanto esqueçam os vulcões, esqueçam as tempestades, os terremotos. Tudo isso acabou.
- Temos um novo mundo de presente, mas e Deus?
- Nunca deixará de existir, eu suponho, pelo menos enquanto forem humanos!

12 Fevereiro 2008

De presente, seu tempo

A fábula ou o conto, naquele caso – desconheçam o infeliz acontecimento, caríssimos leitores – estava enganchada, embolada nas pontas do arame farpado. Molequinho afastou-se do pai que já havia descido o barranco e ajuntou as folhas espalhadas. “Já vou indo”, berrou o menino. Alguns bem-te-vis preenchiam a amplitude com a sonoridade maçante dos seus cumprimentos.
Molequinho sentou num cupinzeiro bem alto. Passou lentamente os olhos de má leitura, atrapalhada, torta. Folheando, organizando.

A história narrava sua vida. Desde alguns momentos antes da fecundação, enquanto talvez com uma reflexão mais apurada ele ainda não existisse carnalmente, levando em consideração apenas seus progenitores fisicamente espaços-temporais. Dali à morte e além, escrito em letras miúdas, de cor branca, nos papéis amarelados. Ele soube que protagonizava os eventos capitulados quando leu o período logo depois da morte da mãe. Outras passagens lhe foram impossíveis recordar. Por exemplo, a vez em que um dedo seu muito gordo ficou preso numa das ventas. Deveras bem descritivos eram os fatos

Eram tantas folhas! Um belo calhamaço daria quando reunidas.

De repente mais papéis apareceram, trazidos pelo vento, caídos do céu, brotados do mato. Molequinho observou àquilo tudo imobilizado. A folharada ficou amontoada pela divinal

Providência num lugar exclusivo, onde o capim do gado rapidamente apodreceu frente aos seus olhos, sem deixar vestígios. E a terra roxa se transformou numa areia desértica escaldante.

O pé esquerdo doía, pois Molequinho levantara muito cedo. Andara a pé até a cidade. Tinha feito as compras da feira pra mãe, lavado o cachorro, alimentado o papagaio, estendido a roupa, arado o pedaço de terra que era seu porque o pai lhe tinha presenteado no último aniversário e plantado as coisas para um dia ter a horta própria.Molequinho era um sujeito conversador, apesar dos treze anos. Filho dum roceiro. Morava agradado pelo melhor clima do Brasil.

Aconteceu o que o fez ainda menos entendido! O pai preocupado voltava pra ver o filho. Sua mãe provavelmente cozinhava a boas pernadas daquele campo. Molequinho esticou as pernas e, por coincidência, o chão tremeu bem forte. Molequinho levantou, ao ver o pai de costas ainda longe. Foi encontrá-lo. Quando chegou bem perto se deu conta de que o homem estava imóvel. Nem mesmo os pulmões, vivazes em toda hora, mexiam-se. Nem mesmo o coração batia; nem mesmo... os olhos acordados do café vibravam. Reparou o vento parado; O ar que respirava tocava suas narinas de uma forma pesada e forçada além do comum e então se normalizavam nos dutos internos, mas ele ainda via uns grãos de terra no ar que nem desciam nem subiam.
Andando, era como que se empurrasse o tempo que, de forma rara, tinha se estabilizado.

Molequinho juntou todos os papéis envelhecidos e levou-os para casa. No meio do caminho não viu nenhuma coisa se mover. Até mesmo uma cobra ficara presa nas garras daquela força inexplicável. Ele aproveitou o ensejo e cortou a cabeça, pensando logicamente no futuro. Fez o caminho inteiro, humanamente descalço, imaginando se deveria espernear ou não reagir. Esqueceu tudo com uma sordidez assombrosa. Realmente a ocasião era singular: sinistra. Continuou a leitura do ponto onde havia parado, enquanto sua mãe nunca terminava de preparar a comida, porém ele não tinha fome.

Aparentemente Molequinho deveria ter treze anos, entretanto completava mil, setecentos e quarenta e três naquele momento em que o pai o procurava. Molequinho segurou na mão do homem:- “Tudo é tão bom como chegou para ser; como o rio no calor; como o verme da fruta estragada”. Caíram no rio pruma farra matutina.

06 Setembro 2007

Parte 3 - Mulheres de Aço

Memória vasta
Rodolfo tropecou num dos tabacos saliente do chão confuso. Ergueu a cabeça acima do ego prateado e saltou quinhentas lebres amarelas. Atacou os olhos vermelhos com uma garra ordinariamente sagaz. Rodolfo era mais velho do que pensava, apesar da memória falhançuda.

Rodolfo pegou o metrô. Saiu com as mãos cruzadas de frio. Rodolfo conseguiu chegar mais uma vez em casa por instinto. Aquela casa não era dele e ele não lhe pertencia. Mas tinha os conhecidos nos papéis da geladeira e tinha recados com seu nome. Rodolfo descambou no que se diz felicidade exagerada quando viu a foto de uma mulher nua, com sua assinatura. Resolveu sentar e esperar um pouco. Um escroto cantava Rap na televisão. Sua antiquez não impedia de ele ir ao banheiro mijar, embora tenha feito sobre uma babosa que descansava no canto abaixo do abajúr. "Você é meio bobo, não é? É meio bobo sim homem!", dizia enquanto se olhava frente ao espelho.

Tentou ligar a um número que apareceu de repente na cabeça. "Alô. Sua puta? Aqui é o Rodolfo". "Rô? Como assim? Você não tinha viajado? E toda aquela historia de laranjas e pêras na mochila?" "Ah!, aquilo? Sei lá, mas como é seu nome mesmo mulher?" "Rô, onde você tá? A Tris foi atrás de você. Disse que ia encontrar você lá no mato, na cidade da sua tia". " Ah é? Que merda. Vem aqui pra casa. Eu to em casa". "Que treta seu Rodolfo. To indo praí".

Rodolfo pegou uma laranja da fruteira sobre a mesa e foi ao quintal sentar no banco debaixo da mangueira descascá-la.

04 Setembro 2007

Parte 2 - Mulheres de Aço

Rodolfo sossegado frente ao mar. Subitamente, sabe lá Deus porque, inflamou numa agonia que fosse, numa angústia que fosse, num despertar de desejo insaciável que fosse. Rodolfo acariciou os cabelos encaracolados com os pés nus roubando afagos das ondas salgadas. Ele precisava de uma inglesa, foi o que pensou quando viu a loirinha atravessando o longo da costa. Chamou a garota, dois anos mais nova do que ele, por um nome estranho. Ela demorou para enxergar-lhe e quando viu Rodolfo desviou os olhos secos pro continente moribundo.

Duas batatas descascadas e uma laranja na fruteira quase vazia.

(continuo)

01 Setembro 2007

Mulheres de aço

Rodolfo espiava a rua, com nada mais para fazer. O inverno sempre é mais calmo no sul do país, onde reinam os top less na época dos veraneios burgueses e também carros com o volante do lado direito e todas tantas outras parafernálias incomuns aos bonequinhos de raça indefinida, seja por isso, seja por aquilo, e às donzelas dos corpos de natureza pneumática. Nao havia clientes no brechó de dona Clo-Tildes V. Riranza, que mais tranquila do que um poste público ao meio-dia de céu limpo, bordava um pano confuso, de utilidade confusa, com características artísticas indecifráveis. Rodolfo pretendia esquecer o que existia por trás das costas olhando as caminhantes. Algumas delas com cigarros na boca. Outras com os palitinhos de um provável pirulito salientes entre os lábios mel(ec)ados e brilhantes. UmSujeito feioso e barbudo empurrou a porta bruscamente na direçao de Rodolfo, que travou-a ao perceber numa das maos do homem uma pistola calibre trinta e oito. Ele conseguiu, talvez por aquele homem ter se atrevido embriagado, talvez por Rodolfo, no susto, obter uma força inesperada, trancar a porta e correu para a primeira mesa, derrubando tudo no chao e derrubando ela, de forma a colocá-la de lado. O homem lançou tiros e mais tiros num tiroteio brutal. Rodolfo passou agachado pela velha que tremia de bruço. Fingiu ter pisado nela com a pressa da sua fuga. Saiu pela porta dos fundos. Olhou no celular. Pensou em discar por socorro, mas ao ver o crédito e estando na dúvida se o número da polícia era pago ou nao, deixou como estava. As pessoas fariam isso por ele, pensou.

Andou algumas léguas. Rodolfo nao sabe quanto medem léguas, nao sabe aonde irá parar no próximo passo. Ele mal consegue pensar naquilo que quer fazer. Rodolfo é um cara sofrido e continua a sofrer. Qual é o problema nisso? Ele pesca aquilo que vira uma isca naturalmente, a isca nao era bem uma isca, mas um paliativo de isca, uma faxada, e o que acontece é que ele investe nesse pequeno lucro, querendo lucrar ainda mais sobre aquilo que ja obteu, mas nao entende como sao as pessoas e por que elas sao movidas, e acaba gastando a isca de faxada num mar de concreto para depois começar a entender que perdeu tudo e nem um peixe de verdade o seguiu e que nem o percebeu próximo a si. Ele esquece tudo e volta à sua maratona.


(Continuo)

30 Agosto 2007

Descalçar um vão

10 Agosto 2007

Fragmentos do Velho dos velhos

Fragmentos*

Então, novamente assim desnorteado, procuro moedas. Conto sete na bolsinha, mas não as tiro para vê-las. Vou ao primeiro bar que me apareçe. Um boteco holandês. Estou com fome e só tenho sete moedas. A cerveja é custa mais que noutros lugares. Suponho serem das mais valiosas. Eram redondas e grandes entre meus dedos. Pedi uma cerveja para Giovana, a moça do atendimento. Uma estrangeira que se mudara pra cá cinco anos atrás e tem maridão com filhinhos. Ela volta e coloca sobre a mesinha minha cerveja. Uma maldita cerveja belga que é mais cara e vem em menos quantidade. Escolhi a dedo no cardápio; provar coisas novas. Droga! Uma maldita cerveja belga. É boa. Bebo metade num gole. Giovana, na mesa ao lado, atiça-me alguns desejos incontroláveis. Ela é casada. Tem filhos. E um belo rabo.

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Fragmento X...N

Onório Tavares


" O filho da puta é tão careta que mesmo numa conversa consigo frente ao espelho, com dores pulmonares e torcicolos instantâneos, ele se chateia e quer explicar tudo. O pior é que ele consegue".

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Andanças.


Eu ando pelas ruelas de casa à casa. limítrofe dos mundos; limite entre um mundo, o meu, outro. Vejo a senhora de uns quarenta anos ou quase andando com a bolsa. Parece, de costas, com uma velha amiga, mas nunca confundiria essa porcaria enrrugada de bolsa pink, sem sedução no andar, tamancos altos e braços carnudos. Ela está de costas e o corte e seu penteado são idênticos aos de Dona F., minha amável e compassiva senhora da conversa bem feita. Essa aí deve ter a boca emporcalhada. Vejo-a de frente ao passalhar-lhe pelo lado: Nada a ver! Espanto-me com tal comparação. Na encruzilhada, onde só se faz peixe assado, grelhado, em caldeiras ferventes, em cataplanas, mortos, vivos, etc, forma-se uma bacia de asfalto, como que se as três entradas que se encontram enchecem um poço ou foça. Sorrio debaixo dos óculos escuros. A mulher de biquíni a mostra sob a blusa se esforça para que o filho a obedeça enquanto a filhinha e o marido fuçam no porta-malas do carrão do ano. O marido com chinelos de dedos e o calção de banho e a filhinha de bóia inflável, pronta pro dilúvio feliz, com ponta do nariz branca. Afasto embrenhando-me por um dos dutos secos. Já não chove há séculos. Vou à praia. Passeio por lá, sento-me. Vou embora cansado.

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12 Julho 2007

Voltando devagar pra não dar má digestão

Em breve, algo novo.

07 Junho 2007

Ar

Balançava a mecha vermelha na pesada atmosfera. Ao redor daquela japonesa pura, transpirante e cansada de tanto correr conosco numa ida sem volta, nada parecia incomodar. Mas quando todos fogem, quero dizer, quando todos os sobreviventes estão em fuga, nunca se sabe qual será o próximo passo do mais novo colega, talvez um já valioso amigo, para conseguir alimento fácil, quem sabe um massacre esquemático. Todos são ácidos quando realmente querem aquilo que desejam e isso, fruto da razão, é uma arma do corpo, do instinto, pra suprir necessidades. Foi o que descobri enquanto conversava com Katakana, menina mais doce que conheci, mesmo quando sua candura, sua pureza social e suas hábeis idéias eram colocadas à prova de fogo. Empurrando os colegas fugitivos consegui me aproximar mais da menina. Ela se limpava numa poça que se não fosse pelo reflexo das maçãs rosadas numa fria manhã de março, eu nunca chegaria perto nem se não tivesse bebido água pelos últimos dois dias.

Katakana percebeu minha presença silenciosa ao seu lado fazendo sombra sobre ela. Escorreu a água que divinamente se limpara torcendo o risco vermelho que se estendia pela cabeça da cerviz à testa. Não somente comigo, mas o silêncio predominava na região. Nenhum animal rasgando a garganta pela noite que se compunha. Nenhuma terra se debatendo sob nossos pés. Apenas o movimento disperso e p sibilar do vento indestrutível. Mal sabíamos o que a brisa enfiava em nossos pulmões. Poderia ser tudo, depois do que passamos na noite passada cuspida “O dia D”.
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Eu andava junto aos outros, provavelmente socorridos pela força dos deuses, assim como eu, quando encontrei aquela poça d’água muito enlameada. Há dias começaram a cair um por um dos fios do meu cabelo outrora tão lindo, lustroso, liso, longo. Eu era única, a primeira ruiva da região. Antes de mim nem existia palavra que designasse cabelo dessa cor. E também era a mais cobiçada, pelo que me lembro. Tinha um namorado com o qual viveria até morrer. Eu simplesmente fiz meus deveres singelos. Tirei os sapatinhos e coloquei as meias de seda dentro deles. Dobrei a barra daquele vestido verde que era tão lindo para não sujá-lo muito. Tinha muito silêncio e embora eu não entendesse nada que fosse dito por aqueles homens barbados, sabia que reinava uma espécie de medo. O medo impensado que aparece antes de vir o rancor. Eu não tive saída a não ser me condicionar ao estado, encolhida e sozinha. Fiz o máximo que pude pra tirar a terra da água e vi que uma nascente urgia aparecer ali. Talvez meus antepassados poderiam tirar naquele momento uma dúvida que tive. O lugar parecia que fora um lago ou talvez o fundo de um mar inteiro. Andávamos solitários presos pelas paredes de crateras invioladas.

Enquanto lavava-me apareceu aquele homem robusto, mas muito emagrecido e sofrido pela fome a qual fora submetido. Só ergui e baixei novamente a cabeça, deixando que ele visse um sorriso de viés enquanto sua sombra tapava a ardência dos raios solares mordiscando com queimaduras minha face.

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Eram cinco e quarenta e cinco da manhã. O sol aparecia no céu nunca tão distinto, nunca tão parecido com o céu das velhas estórias. Milhões de pessoas encardidas, cobertas de pó, sujas de terra seca, rachadas de frio, doentes de tanto calor, caminhavam sem rumo. O sol brilhava na sua altura inalcançável para todos os olhos, de todas as partes do mundo. Em alguma região, um homem, que sabia falar sua língua natal e a língua dos antigos orientais, roçava a barba dura na palma da mão e arriscava um gesto de ternura para com a moça estrangeira, diferente nas feições e no passear dos outros seus compatriotas que mal tinham tempo de comer. Comida era escassa. Água estava quase extinta.

De repente, como se Deus resolvesse aparecer, como fez nos primórdios das civilizações espalhadas, o céu ficou cinza. Escureceram as covas. Pararam de rastejar como zumbis pela noite despejada no chão. O ar, imutável. As lástimas, insensíveis. O coração, distante. Tinham todo um mundo livres para andarem à vontade à procura da terra prometida.

18 Maio 2007

gente e água

Um show de pirotecnia
A aventura carnavalesca remanescente
Urge enraizar suas pérolas na nascente
Do bosque das fezes da alegria
E com o céu durante sua amplidão
Quase que totalmente eterna de pura paixão
Acabando por satisfazer os ouvidos
Dos senhores abastados que comem no pasto
Envolve de fogo e raios o mastro
Onde jaz pendurada uma bandeira qualquer
Apontada ao catálogo dos sofridos
De mirabolantes vozes
Que nem alma alguma dá escuta sequer.

Eu vazando rasante pelas brechas da liberdade
Mal livre acabrunhado chego no espaço
Cago pros laços da beleza onde me faço
Desgostoso do que vejo
E uma nova sociedade surge diante meus olhos
Onde me recrio
Pra dar novo tom a não menos durável piedade,
Que aos tolos funciona, acionada com um surdo pio.

Homens não são iguais,
Mas nasceram da mesma bênção
E eu e todo o mundo deveríamos ser
Como água
Que jogada no copo
Sobe, sobe, sobe,
sobe até as alturas
Sempre achando a liberdade
E que derramada no chão
Vai se espalhando profusa no vácuo
Que é o espaço aberto
Pois decerto que também podemos ser assim,
Já que mesmo crescendo, subindo, espalhando-se
A água sempre será simplesmente Água
Também nós seremos sempre simplesmente Homens

17 Maio 2007

No boteco do seu Osório

Dois jovens conversavam numa das mesas.

- O cabelo daquele maldito era cheio de caspa. Ô se era!
- Você ta com as mãos no meu botão.
- Sério? Desculpa.
- Ta. Pode ficar.
- Beleza.
- Tem pente aí?
- Ali na mochila. Pra que?
- Por nada. Vou dar uma arrumadinha só.
- O que vai fazer mais tarde?
- Hoje tenho que fazer umas coisas lá em casa. Vou à festa da família, tem todo ano.
- Legal. E a que horas vai rolar?
- Lá pelas nove eu já to indo.
- Não dá pra me levar, xuxu?
- É da família.
- Eu viro seu namorado.
- Vou flagrar um lance lá em casa. Talvez eu até consiga.
- Bacana.

Dedé acaba de chegar. O velho Anacleto parece que ta em transe. Lívida e calma passa ao seu lado Mulata, esposa do Bosco e acena.
- Ei, João, ei, ei. Sente aqui.
- Opa – João segue Mulata até sua mesa.
- Como é que vão as coisas lá pelas bandas do lago, Jão? – O Bosco pergunta, de bermuda jeans e chinelos de dedo, pernas espaçosas debaixo da mesinha armada com o copo de cerveja na mão e semblante acalorado.
- Diz aí, dona Clou, você que vive por dentro dos… daqueles assuntos do bairro – Fala João.
- Eu, eu que nada, Jão. Vê se te emenda moço, lá sou véia de ficar no fuxico?
- Não, não é, né? Ah, Bosco, meu chapa, as coisas tão naquela mesma. Ontem fiz uns bicos pro bicheiro. Passei em tudo quanto é casa fazendo as jogatina. O povo curte mesmo a parada.
- É, sei lá. Prefiro minha arte mesmo – Diz Bosco já levando o copo cheio à boca e botando tudo pra dentro num gargalo só.
- Então, peraí. Vai vendo um copo desses pra mim, Mulata. Faz favor? Só vou cumprimentar uns amigos.
- Vai lá, rapá.

João chega ao professor escorado no balcão com pose de ator holliwoodiano, cumprimenta-o com um abano na cabeça e uma leve puxada no chapéu e pede licença. Dedé, continua ainda conversando com seu Osório, dono do botequim. Descendo pelas escadas vai a filha do Bigodudo, nova puta no inferninho do andar de cima. Dedé saca duas notas de dez, mais uma de cinco pela conta e sobe as escadas. Dá um apertinho na loira – Oii! – que tava descendo – Oi – e avança com seu sorriso de dentes bem juntos meio amarelados.

Seu Osório chama pelo novo guri:
- Ô, Neto, chega aqui. Ta vendo aquela mulher parada lá na esquina?
- To sim patrão…
- Então. Quero que vá até lá e dê esse papel pra ela e não é pra ler não que eu to te olhando daqui. Diga que se ela quiser é pra vir até aqui, entrando pelo corredorzinho do lado ali de casa, que eu já vou lá conversar com ela.
- Pode deixar. Vou indo já.
- Peraí, leve a cerveja dos garotos ali do canto.
- Ta.
- Vai rápido, não demora em.
- Ta.

João abriu a porta do banheiro, clicou no interruptor suspenso na parede oposta. Era um cubículo uma por uma pessoa com o vaso grudado na parede de cimento sem acabamento e a pia na parede ao lado. Não tinha forro o lugar. Ele viu duas baratas numa das vergas que sustentam o telhado. Saiu indiferente fechando o zíper da calça. Ia para a mesa do Bosco que conversava alto e viu seu Osório.
- Olha só.
- Opa! Ô rerrê. Então não é que veio mesmo, rapá!
- O que manda, seu Osório.
- O que acha daquilo ali?
- A mesa?
- É. Aluguei uma nova em folha.
- Legal, chapa. Legal, legal.
- Pois é. A ficha agora é sessenta centavos… Mas olha só, a mesa é planinha e os tacos então, tão retinhos.
- Rerrê. Ei, Bosco, - gritando – chama lá no canto o moço doido, é… O Joaquim, vamo fazer Aquela melhor de três.
- Vamo já.
- Vê um casco aí seu Osório, pra mim.
- Pra já.
- Vou lá falar com a Lucinha, depois a gente conversa.
- Vá lá, vou levar ali pra mesa do Bosco?
- É, leva lá.

João subiu as escadas da zona. Bateu na porta e o mané Sacola abriu. – Epa!, disse o baixinho crioulo, Lucinha ta se trocando já. Mesmo assim João entrou. Viu Dedé jogado no sofá de estampa desbotada e com alguns cortes nos braços e duas morenas gordas brincando com ele. O professor acenou de bêbado. João retribuiu ao aceno desconjuntado. Os dois mal se conheciam. Dedé chegara há duas semanas pra escola estadual como professor de geografia. Usa lentes de contato azuis. Ta sempre com a mesma roupa, uma calça social de flanela xadrez, tênis preto, a camisa pólo preta e o paletó cinza. João pensou nisso, bufou e foi até lá.
- Fala aí seu professor.
- Opa.
- Ta afim de jogar uma sinuca com a rapaziada lá embaixo?
- Opa, vamo lá ver qualé.
- Beleza, vai descendo, só vou ali no quartinho e já vou também.
- Tranqüilo.
João entrou pela porta. Tinha uma placa empolada: “camarote das estrela”. A garota tava sentada na cadeira vestida com a roupa de renda preta. Ela olhou pra ele sério. João estático tinha preso os olhos nela.
- Vai dançar hoje? – Ele pergunta.
- Vou.
- Mmmm.
- Por que pergunta?
- Não, nada. É só pra saber.
- Sei.
- Lucinha…
- Lucinha, né porra, agora é inha pra cá, inha pra lá.
- Lúcia.
- Ã? Que foi?
- Queria falar com você.
- Então fala. To quase na hora. Me ajuda aqui a apertar o cordão.
- Ta. Sabe o que é? Bem, vai dormir lá em casa hoje.
- A mulhé pulou fora já, é?
- Mais ou menos. Mas ela não ta lá mais.
- Sei… Conta direito essa história, Jão.
- Bem, ela brigou comigo, ficou falando um monte de baboseira sobre a feijoada do domingo, do porque de eu ficar chamando os amigos do futebol. Sei lá. Mas daí aproveitei pra falar pra ela sobre a gente. Ela ficou quieta, pegou suas coisas e foi pra casa do irmão.
- Então acabou mesmo?
- Parece que sim.
- A, querido. Vem aqui, senta no colinho da titia. Vai ficar lá embaixo?
- É, marquei uma sinuca com o Bosco.
- Por falar nele, a Mulata taí também hoje?
- Ta, só que samba, só.
- Sempre né! É de raça mesmo. Diga a ela que depois quero falar uma coisa.
- Aquela coisa do Bosco com a Clau? Aquela mesma velha estó…
- Não, não. É sobre o Bosco, mas dessa vez é sério. Eu mesma vi.
- Não é bom se meter nessas coisas, mulhé. O Bosco é amigão.
- Vou falar com ela, porra. Diga pra me esperar que hoje saio mais cedo. Me espera também pra gente tomar umas lá embaixo daqui a pouco. Aí vamos pra sua casa.
- Reah! Vamos sim, minha nega. E escuta só, um dia você sair desse lugar. Um dia a gente muda de cidade até. Já até to vendo uns esquemas com o cara ali, gente fina. Aquele professor novo.
- Sei. Vamo ver no que dá. Agora tenho que dançar, amor.
- Até mais, mulhé.
- Fala pra Mulata em.
- Ta.
- Até.
- Até.

João passou pela sala. Alguém apagou tudo e acendeu a luz vermelha. O som mudou, ficou mais lento e grave. As pessoas, a maioria de velhos, fazendeiros da região, parou pra ver melhor o show. Todos se conheciam pelo mesmo fio. Dedé viu João e se aprumou. Deixou duas notas com as morenas da zona.
- Ei, opa. E aí, professor. Vamos lá. O Bosco já deve ta bem aquecido.
- Vamo sim, rapaz.

Bosco chamou Joaquim que tagarelava ébrio com o velho Anísio. Ele foi até a mesa trôpego feito um touro. Chegou resmungando. João também com o professor já pegava seus tacos.
- Seu Osório, seu Osório, traz mais uma pra cá – Disse Bosco.
- Largue disso homem, seu Osório anda ocupado lá dentro. E você já bebeu muito hoje – Retrucou a mulher, Mulata.
- Por isso que é foda trazer a mulhé pra diversão. Né não, diz aí professor.
- To vendo – responde Dedé.
- Mas cade seu Osório, guri? – Pergunta João.
- Ele entrou lá pros fundos com uma mulher estranha que tava na esquina olhando pra ca.
- Que coisa, eim. O que será que ele tem?
- Deve ser rabo preso – diz o garoto, empregado do velho Osório.
- Fica quieto e vai trabalhar moleque – Diz Bosco.

Lá pela meia-noite Lucinha apareceu. Conversou um bocado com Mulata enquanto os homens funcionavam presos na jogatina da sinuca. Um falava mais alto que o outro.
- Vamo embora já, homem – Disse Mulata e João olhou pra Lucinha que sorriu.
- Mulhé, a se eu…
- Vamo que vamo e sem delongas mais, senão dorme fora.
- To vendo, to vendo tudo já. Peraí, só vou acabar aqui.
- Vai acabar nada não Bosco. Vamo que vamo.
- Ta bem. Amanhã a gente se fala no futebol, rapaziada. Falou aí.
- Então, como é? O homem que manda na casa, Boscãozinho? – Joaquim falou com seu tom sarcástico de homem-touro inextrincável enquanto todos riam.
- Ei, então eu vou também. Lucinha ta me esperando – Falou João.
- Bom, ta afim de mais uma melhor de três, Joaquim? – Quis saber o professor.
- Claro, Dedézim, vamo ver’ça parada aqui até onde ela vai.
- Então manda mais três fichas e uma cerva pra ca, moleque.

João saiu abraçado com Lúcia. Cumprimentaram o velho Anacleto e o velho Alípio sentados no banco antigo à porta do boteco do seu Osório. Os velhos estavam apoiados na bengala de pernas cruzadas.
- Até mais, seu Anacleto. Opa véi Alípio.
- Hoje o céu canta estrela, Jão?
- Claro, né.
- Até mais, então.
- Até.

15 Maio 2007

Morte do mensageiro Polaco

Numa tarde quente os dois clandestinos que haviam se fantasiado de marujos empapados de carvão desceram pela rampa na última parada daquele navio que logo voltaria ao seu país de origem. Soaram incontáveis vezes trombetas e do alto do mastro eis que surgiam duas bandeiras com um colossal símbolo azul e verde pintado no fundo preto, branco e roxo. Todos os marinheiros recrutados, ex-piratas, mercenários, indigentes, soldados da sorte e do momento, moviam-se ligeiros como se fossem formigas obedecendo à ordem da grande rainha. O capitão apareceu e deu suas ordens para zarpar. Ergueram a rampa.

Os dois fugitivos carregavam cinco pequenos sacos contendo algumas moedas de ouro e prata e cada qual tinha uma espada e pistola nos flancos. A paisagem nova e diabolicamente estranha aos forasteiros dava amostras de terror mesmo no cheiro de alcatrão e vinho azedo mesclado com bafo pútrido. Andaram até um beco escuro e tiraram as roupas do disfarce, aparentando bons moços. Enquanto caminhavam pelo cais, procurando alguma taberna que pudessem descansar, perceberam os mal olhados voltados para seus trejeitos extravagantes com passos longos e posições eretas.

Atravessaram a pequena ponte de madeira, estavam, enfim, em terra firme. Seguindo por uma das ruas estreitas que ligava ao interior da urbe, procurando os portões da suposta fortaleza da qual tanto conversaram a respeito, passaram ao lado de um velho caído no chão e uma garrafa de rum bebida quase completamente. Pediram informações a ele, mas aquele pobre não percebeu, com a profética barba encardida, a presença dos dois rapazes. Então um abanou a cabeça e olhando pro fim da estrada, onde ela fazia uma curva, perguntou novamente ao velho: - Pobre ancião como chegaremos ao Forte Ventoso? E por que deixaste profligar tão desmesurado aqui neste solo imundo, onde serventia nem para os porcos há de ter? Concomitantemente o velho pergunta ao mesmo: - E tu, sujeito imbecil, acaso conseguirias trazer-me uma garrafa nova, ou, quem sabe ao menos, encher-me esta i-m-u-n-d-a da qual sorvo tudo que a mim resta?
- Temos um envelope secreto para os capitães reunidos! – exclamou o segundo dos homens.
- Não digas tu! Tu tens, é? Tu tens é que tomar coragem, estufas o peito molenga e me compras com alguma prata outra garrafa desta! Oras.
- Nós precisamos realmente ir, embora na volta possamos trazer-te o pedido, mas dê-nos a incumbida informação.
- Guardas, sim, sim é este o capitão fajuto de que tanto temiam. Nós o encontramos e agora podeis rasgarem-lhe a carne e comê-lo vivo. Avancem, lancem as flechas. Já! Este mapa agora é meu, otário.
- Estúpido! – Gritou o amigo do capitão, que teve a perna direita cortada por alguma lâmina no momento em que sacava a pistola. Morreram os dois atacados por assaltantes de ruelas logo na entrada do comitê que trataria Paz entre os reinados vigentes.

12 Maio 2007

Madrugada inspirada

* O bip disparou. Lusco-Fusco fazendo brilhar as barras de ferro da veneziana mal fechada. Da noite passada até essa manhã chegada o lençol fora mexido apenas com a expectativa de em algum momento deitar-se. Mas o sono não veio. Bebera muito café noite anterior. Tomara duas xícaras de chá de café forte, preto como seu gato vira-latas.
* Olhos amarelados com estrias vermelhas