Primeira Parte
Eu saí de casa bem vestido, usando uma roupa limpa. Troquei as calças, a camiseta, as meias, a cueca, peças que há dias precisavam ser trocadas. Estava um homem novíssimo. Dirigia-me para uma exposição de arte pós pós-moderna. Antes de ter saído do lar ainda, atenciosamente telefonei para Cátia. Não queria aparecer em público, num dia tão raro por eu estar bem cuidado e saudável aparentemente, sem festejar depois com alguém que tenho muita estima e admiração deveras.
Era sábado, havia chovido de manhã, mas como em todos os verões de toda região que conheço no país, o sol já ardia novamente sem nuvens para amenizar seu fulgor. A umidade unida ao calor fervia-nos, via-se o vapor levitando do asfalto das ruas e calçadas, um vapor quente, aquecendo as folhas das árvores, ou fritando-as, estuporando minhas narinas, angustiando-me por agonia que me fazia sentir ao açoitar minha pele. Era, enfim, um sábado de verão formidável, no qual entre o vapor e o sol eu vislumbrava os parques com as folhas de seus vegetais ainda secas, por culpa do inverno tão seco que, felizmente, já se despedia; as pessoas suadas, a música da convulsão urbana super-atiçada, bailavam-me à vontade.
Desci do táxi cinco ruas acima para me restar algum dinheiro depois. Dei uma nota bonita à moça do guichê e entrei no saguão. Era enorme por dentro, tão grande em extensão quanto em altura e profundidade no mapa que analisava. Li o aviso à entrada, havia três alas. A primeira era logo onde eu estava, continha quadros das mais variadas espécies. A segunda, segundo o cartaz, ficava “abaixo do solo, abaixo do magma, abaixo da lua”. A terceira estava nas alturas e, tão entusiasmado, nem terminei a leitura. Sentei-me numa cadeira ao canto à espera de Cátia.
Ela apareceu bonita como sempre, esplendorosa e inabalável. Abracei-a e logo quis ir mais afundo, puxando-a pela mão, mas ela empacou e quis conversar:
- Está bonitão.
- Hoje dei atenção a tudo, lá em casa, inclusive a mim, nos mais minuciosos detalhes.
- Isso é muito bom. Seria melhor se fosse assim uma vez por semana.
- É verdade, concordo, mas já notei, com estudos científicos, que ao menor suspiro de verve, perco-me e confundo-me incontrolavelmente e só quando estou esgotado é que retomo minha humanidade social.
- E isso aqui é o que, afinal?
- Uma exposição! Não havia lhe contado?
- Você disse que estava no banho, enquanto falava comigo, desligou na minha cara.
- Oh, desculpe. A música estava muito alta.
- O que escutava na hora?
- O Fortuna! E, não se escuta música, ouve-se. Música é a expressão universal dos sentidos, é a base indestrutível para termos a razão tão frágil que possuímos.
- Tudo bem, não precisa ficar exaltado.
- E então vamos ao fundo disso, minha adorada?
- Sim, mas como se chama a exposição?
- Alfinetes dantescos e tormentosas auréolas.
- É mais uma daquelas exposições com obras de gente maluca, mas sofisticada e estilosa, com influências do modernismo?
- Mais ou menos. Na verdade, talvez, isso possa ser atribuído como a pré-coisa, pré-definição do que virá daqui a alguns anos.
- É uma premissa? Nova era?
- Pode ser.
Enganchei meu braço no braço dela e fomos passeando de tela em tela. Pouco depois parei e respirei fundo, fiquei encantado com uma pintura de um safado chamado Eskobar C. B. Seu último nome estava abreviado! Entretanto, o que mais me chamou a atenção, e que ganhou totalmente meu gosto, era a harmonia do composto de cores. Eu nunca vira tal aquarela em azul, roxo e verde. Era um homem, ou uma mulher dançando? Ou um chapéu dadaísta ao estilo do cachimbo de Magritte? Reconheci ao fundo um copo com erva de tereré. Pude concluir que o sujeito era da minha terra e depois eu o procuraria para uma prosa. Andando mais um pouco e para além dali, Cátia quem nos parou daquela vez. Encantou-se com as abotoaduras gloriosas, douradas, de um uma camisa de capim. Eu soube apreciar também aquilo, mas não foi o bastante para o que encontraria mais tarde. Próxima a escada que deveríamos usar para descer até a ala subterrânea, quis chorar ao ver um girassol esquartejado, com um fundo castanho-avermelhado empobrecendo a situação. Meu sonho de rever um girassol, como havia acontecido na infância, foi praticamente extinto ali. Apertei com força a mão de Cátia e entramos no túnel declinado.
Parecia não ter fim e comecei a acreditar que iríamos para abaixo do centro da terra. Como as lâmpadas estavam bastante espaçadas, passávamos por pedaços da escadaria pouco ou nada iluminados. Temia o pior, mas era bobagem, pois Cátia afirmava não haver o pior em lugares onde se paga pelo lazer. Acreditei fielmente!
Ao chegar lá, notei que era muito quente e abafado, recoberto com paredes de pedras maciças. Ouvimos ecos estranhos e distantes. Gritei perguntando se alguém estava por ali e uma voz diferente respondeu para pegar a trilha à esquerda.
- Mas se é um eco, a voz que veio pode ter ricocheteado na parede às nossas costas e, portanto, ela veio dali. Mas a voz pode não ter rebatido e sabemos exatamente a direção da qual ela veio e, dessa forma, devemos entrar à direita, uma vez que suponho que nosso interlocutor esteja de frente para o buraco ao qual gritou convidando-nos.
- Ou por outro lado a voz rebateu em todo canto e chegou até nós. Não saberemos se é direita ou esquerda. Vamos fazer o mesmo que alguém provavelmente fez ao entrar aqui e encontrar esse alguém.
- Beleza.
- Lembrei de um livro que li aos dezessete. O Azul do Filho Morto.
- Do Mirisola?
- É. O sujeito era uma peça. Sua fantasia existencial era encontrar o buraco.
- E ele encontrou?
- Não se sabe. Ele achou vários buracos, mas o buraco ideal, eu acho, não é o que encontramos, mas o que fazemos, em nossa testa.
- Cátia, você é suicida?
- Não.
Encontramos a pessoa que gritara, finalmente, depois de caminhar bastante. Era um velho barrigudo. Ele segurava uma garrafa de água mineral. Cumprimentou-nos gentilmente, desviando logo sua atenção para o lado. Mudamos de posição para trocarmos nossos braços enganchados havia já um tempo cansativo. Ao lado, além do pequeno grupo de pessoas que se fixara ali, fora montado uma espécie de palco e lá estavam dois artistas sentados em banquetas. Um deles, nu e pintado de vermelho, levantou-se e bicudou furiosamente seu camarada, nu igualmente. O camarada sacou uma faca de algum lugar e furou seu agressor. Vimos sangue e um dedo, um ombro e um lábio inferior rasgados. Algumas pessoas gritaram de susto. Os dois atores se abraçaram e começaram a fazer sexo, como se nem ao menos sentissem dores físicas. Pareciam estar a sós sobre o palco de pedra forrado a feno. Estava escuro. A silhueta do povo a minha frente se distorcia, redobrava e voltava ao encaixe natural. Imaginei que a fumaça esverdeada que tragávamos continha uma porção de droga gaseificada. A situação estava empolgante e alucinante. Mesmo após anos de investida na adolescência, não conhecia aquela droga. A maior droga, concluí, era a situação e o desespero. O velhinho perto de nós se sentou no chão. Chamei Cátia e saímos.
Nunca pensamos da mesma forma, nem provavelmente sentimos o mundo do mesmo modo, porém ambos necessitávamos correr e assim, percorremos o percurso todo de um túnel solitário. Entramos numa sala resfriada, climatizada. O chão era estofado e havia almofadas, bandejas com frutas demasiadamente atraentes e suculentas, tubos gelados de cerveja, vinhos, aos montes, acoplados em nichos das paredes. Plantas podadas, bem arranjadas, postas em cada ângulo daquele cômodo de incontáveis lados. Bebemos e comemos e quando, de repente, alguém ligou uma valsa, dançamos feito apaixonados.
Segunda Parte
Deitamo-nos cansados num canto daquela sala, esperando algo acontecer. Fumávamos um baseado encontrado entre as frutas. Soubemos depois ser aquela a sala do anão. Talvez já tivesse anoitecido e amanhecido, pois horas depois, após termos dormido duas vezes, soltei um beijo em Cátia e ela retribuiu contente. Interrompemos a paixão no calor do momento quando o anão entrou. Era um homúnculo verdadeiro. Trajava bermudas que nele eram calças, vestia uma camisa bem alinhada e usava um chapéu panamá. De maneira incomum esteve longo instante parado olhando-nos, sem ter no rosto alguma expressão além da seriedade. Seria ele um artista também ou um maluco, um visitante, um assassino, alguém que se perdera? Cumprimentamos-lhe convidativamente para que ele se unisse a nós; estávamos leves demais para pensar em costumes; retornamos aos beijos e às pegadas.
- Posso sentar ao lado de vocês? – perguntou-nos o anão.
- Claro, o lado não é nosso, afinal – respondi, querendo não ser muito mal educado, mas sem dar trela demais, logo que percebi ser ele um otário.
- Venha, sente aí – disse Cátia, tão eufêmica, retirando-me de cima dela e se arrumando. Ela puxou o pitoco do baseado – Ta afim?
- Não, eu já estou velho – falou o anão. Eu só pensava em me calar.
- Você estava passeando pelos túneis?
- Não, não é bem assim. Vocês não leram o cartaz na porta, não é? Há quanto tempo estão aqui?
- Há muito tempo – disse Cátia – Só temos comido as frutas e fumado esses baseados. Já deve ser Domingo.
- Sim, já é Domingo. Eu venho lá de cima. Sou o criador dessa sala. É uma obra-prima, não é?
- É um trabalho de arte, então? – falei.
- O que mais seria, num lugar onde se expõe as obras de arte?
- Mas como é isso, afinal? – Cátia perguntou.
- Vocês andaram por todos os túneis?
- Não.
- Imaginei. Essa aqui é a última. Naquela porta vocês encontram o elevador para saírem daqui. Já foram à parte de cima?
- Não.
- Já leram Dante?
- Claro, sim.
- Vocês entraram e viram pinturas, então resolveram descer, não foi?
- É o que estava escrito para fazermos à entrada.
- Não, não dizia. Vocês imaginaram, pois ao lado da escadaria havia outro cartaz, em contraponto ao primeiro, avisando para ir ao inferno ou ir ao céu. Poucos desceram. Havia também um documento onde quem descesse deveria assinar um termo de responsabilidade e aceitação. Aqui é diferente, aqui não é céu. É uma exposição para a carne humana e não para a mente.
- Estamos fritos? Vamos ser mortos? Cátia perguntou, com tom irônico na voz..
- Não. Vocês estão perdidos e não vou ajudá-los em nada. Vocês precisariam de um guia que conhecesse o céu para levá-los de volta ao mundo normal.
- Ah, então a gente fica aqui mais um pouco e você volta pro seu casulo ali no escurinho – eu falei calmamente.
- Não, vocês não podem mais ficar aqui. São uns desavisados mesmo. Vou levá-los ao céu e os deixarei lá para que se virem.
- Oba! – falamos.
O anão foi a um pilar, apertou um botão para chamar o elevador. – Nós entraremos aí? Cabemos? O elevador suporta? – perguntei. Ele disse que sim e fomos então, muito apreensivos.
- Sabem, vocês talvez entendam o que isso represente, já que são uns birutas desligados do mundo, pelo que vejo.
- Mais ou menos. Apenas não queremos gastar a energia toda para o sistema diferente daquele que criamos após termos uma imaginação suficiente para tanto.
- Sabe por que há o trabalho? Para a sobrevivência. Mas e quando o trabalho de cem pessoas dá sobrevivência básica para elas e mais novecentas? As outras novecentas vão fazer o que?
- Mais trabalho – Cátia disse.
- Certo e esses outros trabalhos chegarão a uma nova área que antes não era nem pensada como possível, pois não se conhecia, nem havia se deduzido. Foi uma conseqüência do trabalho de uma que servia para ela e mais outras pessoas, do trabalho de cem que servia para cem e mais outras novecentas pessoas, que fez com que a tecnologia de todas as mil pudesse crescer. Note que as outras novecentas também vão trabalhar para elas próprias e para as cem pessoas basilares da tal sociedade estabelecida, aperfeiçoando todas as pessoas em conjunto. Mas com o tempo o número vai crescendo e há leis universais que impedem durante um longo tempo que todas as pessoas explorem o vácuo, outros planetas, outras áreas, pois a tecnologia ainda não permite. Algumas pessoas vão ficar sem trabalho e qual vai ser o sentido da vida dessas pessoas? Bom, essas pessoas vão questionar o sentido da vida e originalmente precisarão convencer aos outros de que o que fazem é importante, já que para os outros, a vida está boa, mas claramente, por dedução vivenciada, pode ser aperfeiçoada. No final, sempre por conseqüência inesperada de um avanço mecânico, técnico e programático, descobriu-se que na física universal, isso também acontece. Há o princípio, os átomos. Esses átomos, após inúmeras experimentações avulsas, vão se aglomerando até que uma parcela do vácuo seja preenchida por átomos. Os agrupamentos formam novos agrupamentos que formarão mais agrupamentos cada vez mais complexos. E acreditem, são muitos os átomos. – O elevador chegou, mas ficamos até o anão terminar. – O fato é que toda a existência humana é baseada nos princípios mais básicos, pois todos os princípios são construídos a partir das conseqüências das formações do início. O universo não tem suas leis definidas, pois define novas leis de tempo em tempo. Porém, as leis já definidas são muito difíceis de serem alteradas, pois como já estão definidas, são elas que formaram, conscientemente ou não, as novas leis que só existirão sobre as leis definidas. Pela Teoria da Associação Geral das Coisas, trazida a nós pelo falecido Eskobar, o homem que viajou por espaços, toda a humanidade pode e deve ser explicada. Aqui nós estamos dando uma amostra dessa razão ou desse produto. O equilíbrio em si não é o equilíbrio, mas a condição natural das transformações espaços-temporais. Paralelamente a essa noção, o trabalho humano, atualmente, para a grande massa, é um estimulante de equilíbrio do universo humano, resfriado pelas leis da complexidade do universo natural das coisas. Quando saírem daqui e eu for embora, fechem os olhos, pisquem três vezes e verão o que acontece com cada um. Depois contem suas experiências. Eis o céu simples e puro, meus senhores.
O anão foi embora por onde havíamos chegado. Pisquei três vezes meus olhos. Soltei Cátia para me proteger de uma ventania forte que veio em minha direção. Tudo ficou branco. Minha parceira sumira. Todas as cores desapareceram. Eu estava gelado e temeroso. Segundos depois, o mundo começou a se fazer abaixo de meus pés, mas eu não via o sol, nem o céu anil. Acima de minha cabeça estava um branco impenetrável. Cátia se encontrava um andar abaixo de mim. Gritei por seu nome, sorrindo, mas o sorriso logo abandonou meu rosto; Cátia não escutava. Ela começou a andar em frente e eu a acompanhava. O que ela estaria pensando? Ela estaria vendo o mesmo que eu? Não havia forma de saber. Segui-a. Tomando meu corpo como referência, percebi que ela andava em círculos e talvez ela não estivesse enxergando as ruas, as pessoas, os carros, a cidade toda como eu. Cátia seria meu anjo, desolada, encantada, pura? Seria eu o Deus que a tudo vê, mas que a nada altera, pois me é impossível alterar o estabelecido, conquanto o próprio estabelecido não percebesse minha presença e se alterasse. A lembrança do anão começou a me fascinar. Cátia se deitou de barriga pra cima, sorria e não me via de forma alguma. O que ela olhava naquele momento? Eu via tudo. Virei para os lados, percebi que as paredes eram de vidro, esmurrei-as, e nada acontecia. Um moleque roubou a bolsa de uma idosa; um motoqueiro atravessou o sinal vermelho e atrás dele dois carros se colidiram; uma pomba defecou sobre um menino, o qual arremessou uma pedra para feri-la em vingança, a qual acertou um transeunte e da qual uma borboleta conseguiu escapar por pouco! Tapei os olhos com as mãos, experimentei piscar três vezes e tudo se alvejou novamente. Eu não via mais nada! Segundos depois as paredes ressurgiram, eram de madeira, o chão de azulejos e ao meu nariz estava uma porta onde havia escrito uma placa: “Saída”. Desci algumas escadas e apareci ao lado da entrada da exposição e por onde outras pessoas iam. Cátia veio ao me encalço, abraçou-me, beijou-me no rosto. Segurando sua mão, olhei para a mocinha do guichê, que me devolveu o que eu tinha pagado pela entrada, sorriu-me e disse-me que eu saberia aonde ir quando quisesse voltar e em qualquer circunstância de desespero, era melhor eu piscar três vezes. Cátia e eu fomos para minha casa refletir sobre o acontecido.